segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Arquemis B



Zanzertein,

Existe algo particularmente desagradável no cheiro da Tormenta pela manhã. Sangue, enxofre, metal derretido e aquela fumaça que parece ter saído diretamente das entranhas de Aharadak. Foi esse o perfume que nos recebeu quando avistamos Arquemis B espalhando sua fumaça densa pelo horizonte, uma monstruosidade mecânica que ameaçava Yuvalin. Lislah Céu Negro nos aguardava, pronta para conduzir o ataque. Antes de avançarmos, brindamos com nossas poções de Contato Extraplanar. Afinal, se iríamos enfrentar uma máquina capaz de destruir uma cidade, era melhor garantir que os planos de emergência incluíssem conversar com alguma coisa de outro mundo.

E então vimos o colosso de perto.

Arquemis B era extraordinário, no pior sentido possível. Seu corpo esquelético de adamante sustentava quatro braços monstruosos, repletos de espadas titânicas, canhões arcanos e armas suficientes para equipar um exército inteiro. Cada movimento fazia o metal ranger, enquanto fumaça e energia mágica escapavam de sua estrutura. Não parecia uma máquina construída para vencer batalhas. Parecia uma máquina construída para fazer com que não sobrasse ninguém para contar como elas terminaram.

Eu não pretendia facilitar o trabalho dela.

Liberei o máximo que podia de meus poderes da Tormenta e conjurei Concentração em Combate em Massa e Libertação em Massa, reforçando nossos corpos e preparando a Cobra Nova para resistir às atrocidades que estavam por vir. A energia rubra percorreu minha carapaça, e meus membros se agitaram, ansiosos por quebrar alguma coisa. Preferencialmente, alguma coisa enorme e muito difícil de consertar.

Kobta foi o primeiro a transformar aquela ansiedade em violência. Com suas pistolas em punho, executou suas firulas inspiradoras e eliminou três Inquisidores que cercavam o colosso. Em seguida, disparou uma bala de adamante diretamente contra o peito de Arquemis B. O projétil atingiu o alvo, mas o gigante sequer pareceu se importar.

Foi um péssimo sinal.

Sir Finley, sempre preparado para tornar a vida dos outros mais desagradável, envenenou as flechas de Beleg e bebeu uma poção de heroísmo para afastar o medo. Depois, ativou seu anel de invisibilidade. Enquanto isso, Arquemis B começou a avançar, e o chão pareceu reclamar a cada passo de sua estrutura colossal.

Beleg disparou com o Tenor, enquanto Kobta abriu fogo com seus Tiros de Sentinela. As flechas e balas atingiram pontos vitais do construto, mas o adamante absorveu os impactos sem que o colosso recuasse um único passo. Era como tentar empurrar uma montanha usando pedras e argumentos.

A resposta veio de seus canhões.

Arquemis B disparou Setas Infalíveis de Talude contra Beleg, mas Kobta ergueu seu Escudo da Fé e reduziu o impacto do ataque. Outro canhão se voltou para Sir Finley e lançou uma Flecha Ácida. O tabrachi esquivou-se com sua Evasão, escapando por pouco da substância corrosiva. Um segundo canhão disparou uma Lança Ígnea de Aleph, e um terceiro preparou uma Flecha Ácida e por fim um Raio Polar, lançando contra nós uma gigantesca esfera de gelo.

Por um instante, pareceu que o campo de batalha inteiro seria engolido por fogo, ácido e gelo.

Sir Finley, porém, foi favorecido pela mão de Valkaria. A deusa parecia conduzir seus movimentos, e a sorte o acompanhou de maneira quase absurda. Beleg tentou escapar da esfera congelante, mas falhou. A magia Libertação que eu havia conjurado impediu que ficasse preso, enquanto sua habilidade Durão e minha Resistência à Energia reduziram parte dos efeitos devastadores do impacto. Ainda assim, a explosão gelada nos atingiu com força suficiente para nos lembrar que nossos preparativos não nos tornavam invulneráveis.

Apenas um pouco mais difíceis de matar.

Beleg encontrou uma oportunidade entre os ataques e marcou o último Inquisidor que ainda permanecia à vista. A primeira flecha do Tenor rasgou o ombro do inimigo. A segunda atravessou sua cabeça, perfurando o crânio e encerrando sua participação na batalha. Pelo menos aquele desgraçado não precisaria assistir ao que viria depois.

Avancei contra Arquemis B e golpeei com meu Punho de Mitral. O resultado foi decepcionante: o colosso reduziu quase todo o dano causado pela energia mágica do ataque. Mas, quando passei a usar meus membros extras e golpeá-lo com as mãos nuas, consegui finalmente ferir sua estrutura. Aparentemente, até uma máquina de adamante tinha problemas para lidar com a maneira particular como a Tormenta reorganizou meu corpo.

Kobta recarregou suas pistolas e voltou a disparar. Sua bala de essência energética foi completamente ignorada pelo colosso, mas o segundo projétil de adamante atingiu seu ombro e explodiu contra a estrutura metálica. Pela primeira vez, conseguimos arrancar uma reação mais evidente da máquina.

Lislah e seus arcanistas aproveitaram a oportunidade. Sob uma chuva de ataques, concentraram seus esforços em um dos canhões arcanos e conseguiram destruí-lo. Sir Finley renovou os venenos nas flechas de Beleg e no meu Punho de Mitral, tentando também roubar a mana do construto, mas a tentativa falhou. Arquemis B não parecia disposto a compartilhar absolutamente nada conosco, nem mesmo sua energia.

Então o colosso ergueu sua espada titânica contra Beleg.

O golpe desceu com força suficiente para esmagar qualquer aventureiro comum. Beleg suportou o impacto graças à sua habilidade Durão e à proteção de sua armadura de adamante, mas o choque foi brutal. Antes que pudéssemos reagir, Arquemis B voltou sua atenção para Kobta e desferiu dois ataques violentos. Um deles acertou em cheio, fazendo os pequenos kobolds sofrerem sob o impacto, mas o Escudo da Fé amorteceu parte da força.

A máquina continuou disparando.

Setas Infalíveis de Talude e Flechas Ácidas foram lançadas contra Kobta, seguidas por outra Lança Ígnea de Aleph. Ele escapou do fogo com sua Evasão, mas mal teve tempo de recuperar o equilíbrio antes que o canhão do Raio Polar voltasse a disparar. A esfera de gelo explodiu contra nós, envolvendo o campo de batalha em uma onda de frio e destruição.

Não havia descanso. Não havia espaço para respirar. Cada vez que acreditávamos ter encontrado uma abertura, outra arma do colosso entrava em ação.

Arquemis B avançou para nos esmagar.

Seu corpo gigantesco desabou sobre nós como uma muralha de metal em movimento. Beleg e eu fomos atingidos pela força devastadora do ataque. Senti o impacto atravessar minha carapaça e sacudir todos os meus ossos. Meu corpo foi comprimido contra o chão, e o sangue escorreu pela minha boca enquanto a dor se espalhava por meus membros. Por um instante, tudo o que consegui sentir foi o peso absurdo daquela máquina tentando transformar meu corpo em mais uma mancha no campo de batalha.

Beleg também sofreu com o impacto. Seu corpo foi castigado pela força do colosso, e seus ferimentos ameaçavam comprometer sua capacidade de continuar lutando. Ainda assim, nenhum de nós desistiu. Não depois de tudo o que havíamos enfrentado. Não com Yuvalin dependendo de nossa vitória.

Enquanto nos recuperávamos, Lislah e os arcanistas conseguiram desabilitar outro canhão, desta vez o que disparava as Lanças Ígneas de Aleph. A cada arma destruída, Arquemis B perdia parte de sua capacidade de nos aniquilar, mas ainda continuava de pé, ameaçador e terrivelmente resistente.

Foi quando Beleg percebeu a oportunidade.

O seteiro posicionou o Tenor e apontou para o núcleo principal do colosso. Não disparou imediatamente. Esperou por mim.

Eu compreendi o que ele precisava.

Retirei minha manopla mágica, preparando-me para desferir mais um ataque com o Punho de Mitral. Mesmo sabendo que o adamante reduziria o efeito mágico do golpe, avancei com toda a força que ainda me restava. Eu precisava manter a atenção da máquina, abrir uma brecha e dar a Beleg a oportunidade de atingir seu verdadeiro ponto fraco.

Golpeei.

Arquemis B suportou o impacto, e meu ataque mágico foi novamente reduzido. Mas aquele golpe não precisava destruí-lo. Precisava apenas criar o instante de que Beleg necessitava.

O Tenor cantou.

A flecha de Beleg cruzou o campo de batalha e atingiu o núcleo principal de Arquemis B. O disparo penetrou sua estrutura e provocou uma reação imediata. Os mecanismos do colosso começaram a falhar, a energia acumulada em seu interior escapou pelas fissuras e seus quatro braços estremeceram. Por um instante, a máquina colossal pareceu hesitar, como se não pudesse compreender que algo tão pequeno fosse capaz de ameaçar sua existência.

Então o núcleo explodiu.

Uma onda de energia devastadora irrompeu de dentro de Arquemis B, envolvendo o colosso em uma explosão gigantesca. O metal se rompeu, as armas foram arremessadas e fragmentos de adamante voaram em todas as direções. A luz da detonação engoliu o campo de batalha, e o estrondo foi tão violento que perdi completamente a noção do que acontecia ao meu redor.

Eu havia enfrentado monstros, venenos, demônios e horrores da Tormenta. Já tinha sentido meu corpo ser rasgado e reconstruído vezes demais para contar. Mas, enquanto aquela explosão nos envolvia, uma única pergunta atravessou minha mente:

Será que a Cobra Nova sobreviveria à própria vitória?

Zanzertein, ainda não sei responder.

A última coisa de que me lembro é a luz consumindo tudo ao nosso redor. Arquemis B estava destruído, mas o preço daquela vitória ainda precisava ser revelado.

E, se existe uma coisa que aprendi em minha vida, é que destruir uma máquina capaz de arrasar uma cidade costuma ser a parte fácil.

Sobreviver à explosão é outra história.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

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