segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Portões



Enquanto o restante do grupo enfrentava seus próprios desafios pelas ruas devastadas de Yuvallin, Gyodai assumiu a dianteira diante da enorme manada de Berbarams que bloqueava o acesso ao grande portão.

Sem hesitar, o lefou despertou todo o poder da Tormenta que corria por suas veias. Seus punhos foram revestidos pela Empunhadura Rubra, o Visco Rubro escorreu por seus múltiplos membros, sua mente passou a ignorar as limitações da realidade e, por fim, ele ergueu a voz.

— Que a Tormenta rompa os limites da carne! Velocidade em Massa!

Uma onda de energia acelerou seu companheiro anfíbio.

Logo em seguida, seus olhos fixaram-se na manada.

— Nenhum golpe será desperdiçado. Concentração em Combate!

Transformado em um borrão rubro, Gyodai mergulhou entre os elementais e desferiu uma sequência quase impossível de acompanhar. Seus inúmeros braços golpeavam sem cessar, atingindo pescoços, costelas e cabeças flamejantes. No entanto, para sua surpresa, as criaturas suportaram o ataque muito melhor do que imaginava. Apesar da violência dos golpes, a manada permanecia praticamente inteira.

Pela primeira vez naquele confronto, Gyodai percebeu o vigor extraordinário dos Berbarams.

Atrás dele, Sir Finley permaneceu calmo.

Enquanto o lefou mantinha os monstros ocupados, o tabrachi retirou frascos, ervas e venenos de sua bolsa alquímica. Cada substância era aplicada cuidadosamente sobre o Chicote Doutrinador da Cobra Crescente, preparando uma combinação letal para o momento em que os elementais finalmente se aproximassem.

A resposta da manada veio imediatamente.

Os Berbarams abaixaram suas enormes cabeças incandescentes e investiram juntos, transformando o solo numa avalanche de fogo e impacto.

Gyodai apenas sorriu.

Seu corpo tornou-se intocável.

As criaturas atravessaram sua posição enquanto ele simplesmente desprezava a realidade, fazendo a gigantesca investida fracassar completamente.

Muito distante dali, outro combate acontecia sobre os telhados de Yuvallin.

Assim que Nove Dedos surgiu entre as construções, Kobta reagiu sem pensar duas vezes. A pistola de adamante rugiu, mas, para o completo espanto dos cinco kobolds, a bala desacelerou poucos centímetros antes do demônio, perdeu completamente sua força e caiu no chão.

Por alguns instantes, todos permaneceram de boca aberta.

Aquilo simplesmente não fazia sentido.

Nove Dedos abriu um sorriso debochado.

Sacou sua pistola e respondeu imediatamente.

O primeiro disparo voou em direção a Beleg, mas a armadura polida do arqueiro refletiu intensamente a luz ao mesmo tempo em que sua Capa de Arsenal liberava um poderoso Escudo Arcano, desviando completamente o projétil.

O segundo tiro encontrou seu alvo.

Entretanto, antes que a bala pudesse atravessar Beleg, Kobta estendeu a mão.

Seu truque ventanista ergueu um Escudo da Fé, reduzindo drasticamente o impacto, enquanto o próprio arqueiro endurecia seu corpo utilizando seu lendário Durão.

Mesmo ferido, permaneceu firme.

Kobta então respirou fundo.

Executou sua tradicional Firula Inspiradora, ingeriu uma poção de velocidade e utilizou seus conhecimentos para analisar o inimigo.

Após poucos segundos de observação, finalmente compreendeu o motivo daquilo.

— Ele é imune a armas de fogo... também é imune a venenos... e ainda reduz quase todo o dano recebido...

Os cinco kobolds se entreolharam.

Então Kobta virou-se para Beleg.

— Me empresta um arco.

Sem dizer uma palavra, Beleg entregou sua arma reserva ao companheiro.

Em seguida, bebeu sua própria poção de velocidade.

Marcou Nove Dedos como sua presa.

A tatuagem em suas costas irradiou uma intensa luz dourada. A imagem completa de Valkaria, deusa dos aventureiros, surgiu como uma manifestação divina.

Beleg respirou profundamente.

— Valkaria, guia minha mira. Que cada flecha seja um passo rumo à liberdade!

A concentração tornou-se absoluta.

A primeira flecha atravessou o peito do demônio.

Utilizando Emboscar, Beleg disparou novamente antes mesmo que o inimigo pudesse reagir. O segundo disparo foi ainda mais devastador.

Nove Dedos soltou um grito de dor.

A terceira flecha rasgou novamente seu peito.

O demônio recuou cambaleando enquanto lançava uma sequência de impropérios contra o arqueiro.

Nesse instante, novos inimigos surgiram.

Constructos defensivos da cidade abriram fogo.

Um dos enormes canhões disparou contra Kobta.

Os cinco kobolds rolaram pelo chão quase como uma única criatura, reduzindo o impacto a um simples arranhão.

Outro constructo apontou seu canhão para Beleg.

O disparo atingiu violentamente seu flanco, acertando a região do rim. O arqueiro sentiu o sangue escorrer sob a armadura, mas permaneceu de pé.

Quando o segundo tiro veio em sua direção, a Capa de Arsenal respondeu mais uma vez, criando um poderoso Escudo Arcano que bloqueou completamente o impacto.

Enquanto isso, no jardim incendiado, Gyodai concentrou novamente suas energias.

— Que o aço responda ao chamado da Tormenta! Punho de Mitral!

Seu braço transformou-se no metal prateado de fio perfeito.

Logo depois, a tatuagem de Pitágoras brilhou intensamente.

— A própria natureza será minha arma! Armamento da Natureza!

Por um breve instante, porém, o lefou perdeu o ritmo do combate. Seus inúmeros membros se desencontraram e ele acabou ficando momentaneamente desprevenido.

Sir Finley aproveitou para agir.

Analisou cuidadosamente os Berbarams e encontrou seus pontos vulneráveis.

Seu chicote serpenteou pelo ar.

A Peçonha Anciã penetrou profundamente na essência flamejante da manada.

Outra chicotada atingiu novas criaturas, espalhando o veneno entre elas.

Os Berbarams responderam com outra investida devastadora.

A explosão da colisão seria suficiente para atingir tanto Gyodai quanto Sir Finley.

Mas, antes que isso acontecesse, um vulto mergulhou diante deles.

A múmia-urubu que acompanhava Gyodai lançou-se contra a manada, sacrificando completamente seu corpo para absorver a violência do impacto.

Graças ao fiel servo morto-vivo, seu mestre permaneceu ileso.

Nos telhados, as balas explosivas disparadas anteriormente finalmente detonaram no corpo de Beleg.

Mesmo suportando a dor, o arqueiro continuou firme.

Nove Dedos tentou aproveitar a oportunidade.

Abaixou-se para mirar novamente.

Mas o brilho refletido pela armadura de Beleg ofuscou sua visão, fazendo o disparo errar completamente.

Kobta largou o arco por um instante.

Sacou novamente suas pistolas.

Um disparo lançou um dos constructos para longe.

Outro tiro atingiu a máquina antes mesmo que ela pudesse se levantar, destruindo-a completamente.

Beleg voltou a disparar.

Inspirado pela luz de Valkaria, suas flechas atravessaram o corpo de Nove Dedos repetidas vezes.

Outro constructo revelou sua verdadeira natureza.

Tratava-se de uma gigantesca Bateria de Artilharia.

Antes mesmo que conseguisse carregar seu enorme canhão, Kobta foi mais rápido.

Seu disparo arrancou a máquina do chão e a lançou vários metros para trás.

No jardim, Gyodai continuava distribuindo golpes contra toda a manada de Berbarams.

Sir Finley então retirou um pequeno cilindro metálico.

Arremessou-o entre os elementais.

A granada explodiu silenciosamente.

Uma espessa Fumaça Onírica espalhou-se pela região.

Os Berbarams interromperam completamente seus movimentos, ficando fascinados pelas ilusões produzidas pela névoa.

Nove Dedos voltou a atirar.

Mais uma vez Kobta ergueu seu Escudo da Fé, reduzindo o impacto antes que Beleg utilizasse novamente seu Durão para suportar o restante do dano.

Em seguida, Kobta destruiu completamente a Bateria de Artilharia com mais dois disparos precisos.

Guardou então suas pistolas.

Apanhou novamente o arco emprestado por Beleg.

Respirou fundo.

Disparou.

A flecha encontrou o peito de Nove Dedos.

O demônio gritou de dor.

Beleg sorriu discretamente.

Sem lhe dar qualquer oportunidade de reação, disparou uma sequência devastadora de flechas. Os projéteis atravessaram coxas, quadris e glúteos do demônio, obrigando-o a cambalear sob a violência dos impactos.

Do outro lado da cidade, Gyodai retirou uma poção de orientação e bebeu seu conteúdo.

Logo depois abriu um pergaminho antigo.

— Que o sangue antigo desperte. Assobio Perigoso!

Das sombras surgiu um imponente vampiro.

Empunhando uma espada longa, a criatura avançou imediatamente contra a manada de Berbarams, alternando cortes precisos com ataques de suas garras.

Sir Finley acompanhou o ataque.

Seu chicote voltou a estalar enquanto pequenas esporas de cogumelos venenosos eram lançadas entre os elementais, tornando seus movimentos cada vez mais lentos.

Os Berbarams voltaram toda sua atenção para o vampiro invocado.

Conseguiram feri-lo levemente, mas sua postura imponente parecia intimidar até mesmo criaturas feitas de fogo.

Logo depois, lançaram uma gigantesca baforada flamejante contra Gyodai e Sir Finley.

Gyodai simplesmente ignorou o ataque.

Desprezar Realidade fez com que as chamas sequer o alcançassem.

Sir Finley atravessou a explosão com um elegante salto, escapando completamente graças à sua evasão.

Enquanto isso, Kobta finalmente encontrou a abertura perfeita.

Empunhando o arco, disparou uma sequência de flechas cada vez mais precisa.

A última delas atravessou o coração de Nove Dedos.

O demônio cambaleou.

Tentou erguer novamente sua pistola.

Mas seu corpo já não respondia.

Com um último grito de ódio, tombou definitivamente sobre os telhados de Yuvallin.

Gyodai tinha sua atenção para os Berbarams.

Concentrou novamente sua mente.

— Um golpe perfeito encerra qualquer batalha. Concentração em Combate!

Ele e o vampiro atacaram em perfeita sincronia, enquanto Sir Finley surgia pelas sombras para desferir um devastador golpe furtivo de chicote, seguido por mais uma granada alquímica.

A manada continuava sendo consumida lentamente por venenos, cortes e sucessivos impactos.

Quando tentaram reagir, voltaram-se contra o vampiro.

Entretanto, a imponência sobrenatural da criatura drenou completamente sua coragem.

Os Berbarams hesitaram.

E essa pequena hesitação talvez fosse exatamente o que os heróis precisavam para vencer aquele combate.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Fuga e Fogo



Os Kobta oculto sob a manta caíram no Distrito do Carvão, uma vasta região de fazendas, pastagens e depósitos de lenha que alimentavam os fornos de Yuvallin. O plano inicial era atravessar as estufas, mas, ao perceberem a intensa movimentação de patrulhas, decidiram contornar toda a área para permanecerem invisíveis.

Mesmo escondidos pelo truque ventanista que simulava invisibilidade, um constructo de vigilância interrompeu sua ronda. Seus olhos metálicos percorreram lentamente os campos, procurando qualquer anomalia. Kobta buscou rapidamente algum animal do pasto para provocar uma distração, mas encontrou apenas currais vazios e cercas destruídas pela guerra. Sem outra alternativa, conduziu silenciosamente seus quatro irmãos entre montes de carvão e carroças abandonadas. Cada passo era calculado com precisão absoluta. O constructo passou a poucos metros deles, mas os kobolds permaneceram completamente despercebidos, desaparecendo nas sombras do distrito sem deixar qualquer vestígio.

Enquanto isso, Gyodai e Sir Finley caíram em outra região da cidade. O lugar um dia fora um belo jardim público, mas agora restavam apenas árvores carbonizadas, estátuas quebradas e canteiros consumidos pelas chamas. Atrás deles, um incêndio gigantesco devorava tudo, tornando impossível qualquer retirada. Restava apenas seguir em frente.

Sir Finley aproveitou aqueles breves instantes para preparar sua arma. Espalhou cuidadosamente sua peçonha concentrada sobre o chicote, deixando cada elo impregnado com um veneno mortal.

Logo adiante, um touro completamente envolto em fogo atravessou o jardim em disparada. A criatura sequer olhou para eles, fugindo desesperadamente das próprias labaredas que consumiam a região. No entanto, seu aparecimento foi apenas o prenúncio do verdadeiro perigo.

Das tubulações rompidas do sistema de aquecimento começaram a emergir enormes elementais de fogo. Durante décadas, aquelas criaturas haviam alimentado os fornos subterrâneos de Yuvallin. Agora, com todo o mecanismo destruído pelos combates, vagavam livres e enfurecidas.

O primeiro deles assumia a forma de um gigantesco boi flamejante.

Berbaram abaixou a cabeça e investiu violentamente contra Sir Finley. A marrada incendiária explodiu ao atingir o solo, levantando uma onda de fogo. O tabrachi executou um rolamento defensivo para absorver parte do impacto e, antes que as chamas o envolvessem, saltou para o lado com sua extraordinária evasão, escapando praticamente ileso.

Gyodai abriu um largo sorriso.

As marcas da Tormenta espalharam-se por seu corpo, seus punhos adquiriram o característico tom rubro e seus inúmeros membros começaram a se mover em perfeita sincronia.

— A Tormenta não conhece limites. Que o impossível seja apenas mais uma ilusão!

Sob o efeito de Velocidade em Massa, Concentração em Combate e Desprezar Realidade, o lefou desapareceu diante dos olhos dos elementais e surgiu sobre Berbaram. Uma sequência devastadora de golpes caiu sobre o corpo ígneo da criatura, espalhando brasas e lava líquida pelo jardim destruído.

Sir Finley estudou cuidadosamente os movimentos do elemental.

Com a serenidade de um verdadeiro assassino, analisou seus pontos vulneráveis e concentrou sua mente.

— Valkaria, conduza minhas mãos. Onde houver um caminho para a vitória, meu golpe o encontrará.

A tatuagem em suas costas irradiou a imagem completa de Valkaria enquanto sua concentração atingia o máximo.

Seu chicote serpenteou pelo ar e atingiu Berbaram em cheio.

O impacto fez jorrar sangue de lava sobre o tabrachi, mas, com uma rápida cambalhota, ele evitou ser atingido. O veneno especial começou imediatamente a percorrer a essência elemental da criatura, corroendo seu núcleo de energia.

Sem perder tempo, Sir Finley espalhou parte daquela toxina sobre a manopla de Gyodai.

Berbaram rugiu.

Uma torrente de fogo saiu de sua boca, varrendo o campo de batalha. Sir Finley escapou novamente graças à sua evasão, enquanto Gyodai suportou parte das chamas. Aproveitando o impulso do sopro, o elemental avançou e acertou violentamente a lateral da cabeça do tabrachi. O golpe atingiu seu ouvido, deixando-o temporariamente surdo.

Gyodai respondeu imediatamente.

Seus múltiplos braços desferiram uma chuva de socos sobre o Berbaram responsável pelo ataque. Os impactos rasgaram o corpo flamejante da criatura até que ela finalmente se dissipou em cinzas incandescentes.

Outro Berbaram avançou em seguida.

Gyodai ergueu uma barreira mágica.

— A realidade não me alcança. Campo de Força!

A investida explodiu contra a barreira invisível sem conseguir atravessá-la.

Sir Finley aproveitou a abertura. Seu chicote da Cobra Crescente envolveu o elemental enquanto o veneno penetrava novamente em sua essência ardente.

Com a velocidade ampliada pela magia, Gyodai tornou-se praticamente impossível de acompanhar. Seus punhos envenenados atingiram Berbaram dezenas de vezes em poucos segundos. A criatura enfraquecia a cada impacto.

Ainda assim, o elemental lançou outra explosão de fogo.

Gyodai ergueu novamente sua proteção mágica.

— Que a Tormenta esmague as leis do mundo! Campo de Força!

A barreira absorveu toda a explosão.

Sir Finley atravessou as chamas com um salto acrobático, escapando mais uma vez graças à sua evasão.

Berbaram tentou sua última marrada desesperada.

Outra vez encontrou apenas a barreira invisível criada pelo lefou.

Logo depois, Gyodai e Sir Finley avançaram juntos.

Os socos monstruosos do filho da Tormenta e o chicote venenoso do tabrachi atingiram o elemental simultaneamente. O núcleo de fogo da criatura se rompeu, espalhando uma chuva de brasas pelo antigo jardim.

O silêncio voltou ao campo de batalha.

Muito distante dali, Beleg enfrentava um adversário completamente diferente.

Das sombras surgiu um demônio conhecido como Nove Dedos, uma criatura famosa por negociar destinos e corromper guerreiros.

Com um sorriso debochado, ele ergueu sua pistola.

— Ainda há tempo de abandonar esse arco. A pólvora é o futuro.

Beleg respondeu apenas esticando lentamente a corda de seu arco.

O duelo começou.

Três disparos ecoaram quase ao mesmo tempo.

As balas atingiram o arqueiro com violência, mas Beleg endureceu todo o corpo utilizando sua resistência sobre-humana. Mesmo ferido, permaneceu firme.

Então respirou profundamente.

A tatuagem em suas costas brilhou intensamente, revelando a imagem completa de Valkaria, deusa dos aventureiros, irradiando luz dourada.

Beleg declarou:

— Valkaria, que minha flecha atravesse o medo e abra o caminho da liberdade!

Sua concentração tornou-se absoluta.

A primeira flecha atravessou o peito do demônio, marcando-o como sua presa.

Usando a técnica Emboscar, disparou uma segunda flecha antes que o inimigo pudesse reagir.

A terceira veio logo em seguida, rasgando novamente a carne demoníaca e obrigando Nove Dedos a recuar.

Mas havia uma armadilha.

As balas que haviam atingido Beleg explodiram repentinamente em seu corpo.

No mesmo instante, Nove Dedos realizou outro disparo, destinado a matá-lo.

Antes que o projétil o alcançasse, porém, a múmia mestra lançou-se diante do arqueiro.

O disparo atravessou o morto-vivo, poupando Beleg de um golpe fatal.

Sem perder tempo, o arqueiro escalou rapidamente uma construção usando sua agilidade. Lá do alto encontrou uma porta entreaberta que conduzia a um abrigo improvisado.

Diversos moradores de Yuvallin permaneciam escondidos ali, tentando sobreviver ao domínio purista.

Beleg ingeriu uma poção de Campo de Força, reforçando suas defesas.

Percebendo que Nove Dedos continuava em seu encalço, abandonou imediatamente aquele esconderijo, atravessou outra passagem estreita e desapareceu entre as construções.

O demônio vasculhou a região por vários minutos.

Sem conseguir encontrá-lo, desistiu da perseguição e foi embora.

Pouco depois, os caminhos finalmente voltaram a se cruzar.

Gyodai e Sir Finley chegaram diante de um gigantesco portão de ferro que parecia proteger uma das áreas centrais de Yuvallin.

Instantes depois, Beleg surgiu pelo lado oposto.

Kobta também emergiu silenciosamente das sombras do Distrito do Carvão.

No entanto, eles não estavam sozinhos.

À frente do grande portão aguardava uma verdadeira manada de Berbarams, espalhando calor sufocante por toda a praça. Entre eles, Nove Dedos reapareceu girando lentamente sua pistola enquanto sorria para Beleg.

O silêncio que se instalou durou apenas alguns segundos.

Todos perceberam a mesma coisa.

Aquele portão era importante demais para estar protegido apenas por aqueles inimigos.

Se a lógica dos puristas permanecesse a mesma, havia grandes chances de que um adversário muito mais poderoso estivesse esperando do outro lado.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Al Mirante



Antes de qualquer retirada, Kobta avistou o almirante voando a quase trinta metros de distância. Os cinco kobolds respiraram em uníssono enquanto seus olhos acompanhavam a trajetória do inimigo. Então, o ventanista marcou seu alvo.

O primeiro disparo encontrou exatamente o ponto vulnerável da armadura. O projétil de adamante atravessou a proteção metálica, arrancando um urro de dor que ecoou pelos céus. Enquanto o oficial tentava recuperar o equilíbrio, Kobta percebeu o broche preso ao peito de sua armadura.

Não era um simples capitão.

Era um almirante purista.

Sem desperdiçar um único instante, Kobta disparou novamente. A segunda bala o lançou para trás como se tivesse sido atingido por um aríete invisível. Antes mesmo que pudesse reagir, vieram o terceiro e o quarto tiros. Cada impacto empurrava o almirante cada vez mais para longe, até que o último projétil atravessou seu corpo e encerrou definitivamente sua vida. O cadáver despencou do céu enquanto a armadura fumegava, derrotada pela precisão quase sobrenatural do pistoleiro kobold.

Enquanto isso, isolado na Área de Tormenta, Gyodai continuava seu duelo contra Exarca.

O lefou encarou a criatura e, mesmo cercado pela influência de Aharadak, abriu um sorriso estranho antes de falar:

— Exarca... na minha última noite de sono eu tive um sonho. Vi um druida transformado em um louva-a-deus metálico, atacando com enormes pinças em forma de navalha. Não faço ideia do que isso significa... mas D.A.I.L.E.O.N., me ajude!

Logo após a estranha invocação, seus inúmeros membros aberrantes envolveram Exarca. Os braços extras prenderam a criatura com força suficiente para esmagar aço, enquanto seus punhos deformados desferiam uma sequência brutal de golpes. Exarca resistia como poucas criaturas conseguiam, suportando cada impacto graças à sua natureza lefeu.

A resposta veio imediatamente.

A criatura golpeou com sua adaga envenenada, mas Gyodai ergueu a mão envolta em energia e bradou:

— Que a própria realidade se curve diante da Tormenta! Campo de Força!

A lâmina ricocheteou na barreira mágica.

Exarca então tentou rasgar o lefou com suas garras, mas perdeu o equilíbrio durante o movimento. O erro foi suficiente para comprometer toda a sequência de ataques, desperdiçando a oportunidade de inverter o combate.

Do lado de fora do templo, Sir Finley continuava sabotando o gigantesco encouraçado voador. Observando cuidadosamente a estrutura interna do Corvo de Krauser, encontrou outra tubulação responsável por alimentar os mecanismos do navio.

Seu chicote de aço-rubi serpenteou pelo ar.

— Vamos ver se vocês gostam de um pouco de disciplina...

O Chicote Doutrinador da Cobra Crescente estalou violentamente, abrindo uma longa rachadura na tubulação.

Beleg percebeu imediatamente a abertura criada pelo companheiro. Ergueu seu arco de aço-rubi enquanto a tatuagem em suas costas irradiava luz dourada. A imagem completa de Valkaria, deusa dos aventureiros, manifestou-se como se observasse o arqueiro.

Beleg respirou fundo e declarou:

— Valkaria, guia minha mira. Que minha flecha abra o caminho daqueles que jamais deixam de avançar!

Sua concentração tornou-se absoluta.

A flecha atravessou exatamente a rachadura criada por Sir Finley e destruiu completamente a tubulação, fazendo energia mágica escapar em violentas explosões.

Kobta não desperdiçou a oportunidade. Assim que encontrou outra conexão estrutural, descarregou suas pistolas de adamante contra ela. As engrenagens explodiram, pedaços de metal voaram em todas as direções e outra parte vital do encouraçado foi destruída.

Dentro do templo de Aharadak, Gyodai aproveitou o desequilíbrio do adversário.

Mantendo Exarca firmemente agarrado com seus membros aberrantes, o lefou desferiu uma sequência devastadora de socos. Ossos se partiram, quitina rachou e, por fim, a criatura tombou sem vida.

Quando o manto negro escorregou de seu corpo, sua verdadeira forma foi revelada.

Exarca era um Reishid, uma criatura de aspecto insetoide, dotada de grandes asas membranosas e deformações típicas da Tormenta. Ainda assim, aos olhos de Gyodai, não era nem de longe tão monstruoso quanto ele próprio.

O lefou recolheu os espólios com calma.

Uma adaga da Tormenta.

Uma bolsa corrompida pelas energias lefeu.

Dentro dela, encontrou uma valiosa tornozeleira encantada.

Além disso, Exarca utilizava uma armadura completa reforçada, perfeitamente ajustada ao seu corpo, cuidadosamente polida e cravejada de gemas.

Todos aqueles equipamentos seriam levados para venda após o término da campanha militar.

Com o Corvo de Krauser agora reduzido a uma distração, Capitã Lislah apresentou a etapa seguinte da operação.

Não era possível utilizar teleporte para atravessar as barreiras mágicas que protegiam Yuvallin.

A única alternativa seria uma infiltração.

Enquanto o Corvo de Krauser atraísse a atenção das forças puristas, o Mariposa faria uma aproximação silenciosa. Dali, o grupo saltaria diretamente sobre a Fundição Central, a fonte de calor que mantinha toda a cidade funcionando.

Segundo a rede de inteligência de Lislah, um único homem coordenava toda a resistência purista dentro da cidade.

Seu nome era Príncipe Conrad Kor Kovith.

Um adversário cuja reputação bastava para preocupar até os veteranos mais experientes.

Sem hesitação, Beleg, Gyodai, Kobta e Sir Finley saltaram do convés do Mariposa.

Durante a queda, Kobta executou um de seus famosos truques de ventanista. Os cinco kobolds ocultos sob a manta desapareceram da vista de todos, criando a perfeita ilusão de invisibilidade enquanto desciam silenciosamente sobre a cidade.

Kobta pousou numa região conhecida como Jardim Estufa, onde enormes estruturas de vidro protegiam plantações cultivadas sob intenso calor artificial. O ambiente era abafado, tomado pelo vapor e pelo cheiro de terra úmida.

Fora das estufas caminhava um gigantesco constructo armado com diversos canhões, responsável por proteger toda aquela área estratégica.

Enquanto Kobta avaliava a situação, percebeu algo inquietante.

Não existia apenas um.

Outros constructos patrulhavam a região, realizando varreduras constantes entre as plantações.

Mesmo ocultos por sua invisibilidade ilusória, um dos autômatos interrompeu a patrulha.

Seus olhos artificiais brilharam em vermelho.

A cabeça metálica girou lentamente na direção exata onde Kobta se encontrava.

Os cinco kobolds trocaram olhares sob a manta.

Pela primeira vez naquela missão, alguém... ou alguma coisa... havia conseguido enxergá-los.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Corvo de Krauser


Após a destruição da Diligência Dracocérbera e um breve período de recuperação, o grupo finalmente conseguiu alguns momentos para reorganizar equipamentos, tratar ferimentos e recuperar parte do poder mágico consumido nas batalhas anteriores. O descanso foi curto, porque todos sabiam que ainda havia um último alvo nos céus de Yuvallin.

Sir Finley assumiu novamente o comando do Mariposa e conduziu o navio através das correntes de vento e das nuvens escuras que cobriam a região. Depois de algum tempo de perseguição silenciosa, ele finalmente localizou o último navio purista.

O Corvo de Krauser.

Diferente dos anteriores, ele não parecia apenas uma fortaleza voadora — parecia uma plataforma de guerra construída para esmagar cidades inteiras. Sua estrutura cilíndrica era envolta por dezenas de canhões distribuídos em todas as direções, além de dois hyper canhões que dominavam sua silhueta como presas gigantescas apontadas para o horizonte.

Kobta, Sir Finley e Beleg passaram alguns instantes estudando a embarcação e rapidamente definiram os objetivos necessários para derrubá-la: romper o invólucro mágico do balão, silenciar as baterias de canhões, destruir tubos e conexões que alimentavam os sistemas internos, profanar o templo de Aharadak escondido em seu interior e derrotar o Capitão Krauser.

Enquanto os outros planejavam, Gyodai permaneceu imóvel. Havia algo ali. Uma sensação familiar.

Seu olhar atravessou as estruturas metálicas do navio como se enxergasse além do aço e encontrou o que procurava.

Um templo dedicado a Aharadak.

Por um instante ele sentiu como se o próprio deus o observasse. Como se estivesse sendo chamado.

Kobta foi o primeiro a agir. Fez sua firula inspiradora para reforçar os próprios reflexos, bebeu uma poção de orientação, girou suas pistolas e disparou. A bala acertou diretamente um dos canhões do Corvo de Krauser e a explosão arrancou placas metálicas que caíram pelos céus.

Sir Finley tentou acompanhar o ataque usando sua pistola, mas o disparo passou raspando.

Beleg então deu um passo à frente. Ele ergueu seu arco de aço-rubi e puxou lentamente a corda. Nas suas costas, a tatuagem começou a brilhar.

A figura completa de Valkaria apareceu em luz dourada sobre sua pele — não apenas o rosto, mas o corpo inteiro da deusa dos aventureiros, imponente, como se guiasse seu braço.

Beleg murmurou:

— Valkaria… mostra onde devo abrir caminho. Concentração em Combate.

As flechas partiram numa sequência precisa e atingiram o canhão já danificado. O impacto quase o destruiu completamente.

A resposta veio imediatamente. O Corvo de Krauser abriu fogo. Sir Finley desviou com habilidade.

Beleg girou no ar e evitou os disparos.

Gyodai conjurou Campo de Força e absorveu quase toda a explosão, embora um fragmento ainda conseguisse atravessar sua defesa e abrir um corte superficial em seu rosto.

Kobta recebeu um impacto muito mais perigoso e precisou improvisar um Escudo da Fé através dos seus truques para sobreviver.

Sem perder ritmo, Kobta respondeu com novos disparos e destruiu outro canhão. Beleg acompanhou o ataque com novas flechas de aço-rubi.

Então o Corvo de Krauser executou uma manobra defensiva.

Toda sua estrutura girou lentamente, revelando uma segunda linha inteira de canhões preparados para disparar.

Kobta sorriu. Mirou. Atirou. Um dos hyper canhões explodiu.

Nesse momento, Gyodai abriu um portal dimensional e levou todos diretamente para dentro da embarcação.

Assim que surgiram, Sir Finley analisou rapidamente um dos mecanismos internos, encontrou um ponto vulnerável e atacou com o Chicote da Cobra Crescente. O golpe abriu rachaduras profundas na estrutura e permitiu que Beleg complementasse o dano com uma sequência de flechas.

Mesmo assim, os canhões restantes continuavam disparando. Lá fora, o Mariposa recebeu impactos violentos e começou a sofrer danos severos.

Kobta recarregou e continuou desativando baterias.

Gyodai conjurou Velocidade, abriu suas asas de barata e avançou como um projétil vivo. Seus múltiplos membros golpearam os mecanismos sem parar até destruir dois canhões praticamente sozinho.

Sir Finley avançou pelo convés usando seu chicote de aço-rubi da cobra crescente para romper mais estruturas.

Beleg ativou sua capa de Arsenal, ganhou altitude e destruiu outro canhão.

Foi então que Gyodai parou. Seus olhos se fixaram numa porta. Ele começou a caminhar. Nenhum dos outros conseguiu impedi-lo.

Entrou. Do outro lado havia Tormenta. Um templo pulsando como carne viva. Paredes que respiravam. Ar contaminado. E alguém esperando.

Exarca. O Arauto atacou imediatamente. O combate começou sem palavras. Exarca ergueu a mão e lançou Marca da Obediência.

Gyodai desprezou a realidade. Nada aconteceu. Exarca avançou com adaga, mordida e garras.

Gyodai respondeu conjurando Campo de Força e absorvendo os impactos. Kobta alcançou a entrada e tentou falar com ele.

Sem olhar para trás, Gyodai respondeu:

— Não entra. Isso aqui é comigo.

Então conjurou Punho de Mitral. Seu braço de ogro se revestiu de metal prateado. Ele atacou. Golpes rápidos. Sequências brutais.

Exarca foi atingido várias vezes, mas resistiu. Gyodai percebeu. Sorriu. Ao lado dos seus urubus mortos-vivos, encarou a criatura com entusiasmo.

Aquilo era um desafio digno. Lá fora, o combate continuava. Sir Finley e Beleg destruíram os últimos canhões. Foi quando a cabine principal se abriu.

O Capitão do Corvo de Krauser apareceu.

Um homem alto, cabelos longos, bigode branco e uma cicatriz atravessando o rosto. Vestia uma armadura tecnológica equipada com dois enormes canhões acoplados.

Ele apontou para Kobta. Mas Kobta foi mais rápido. Disparou. A bala de aço-rubi acertou em cheio e lançou Krauser para trás.

O capitão ativou propulsores e respondeu imediatamente. Um disparo foi interceptado por uma múmia sacrificada. O outro Kobta evitou rolando e usando Escudo Arcano.

Enquanto isso, dentro do templo, Exarca lançou Anular a Luz. Gyodai ignorou. A mordida falhou. Mas uma garra e a adaga encontraram espaço.

Campo de Força absorveu parte. Veneno entrou. Gyodai resistiu. Ainda assim sentiu seus músculos desacelerando. Exarca sorriu.

Gyodai sorriu de volta. Do lado de fora, Krauser preparava seus canhões. Do lado de dentro, Exarca mostrava as presas. 

Os dois confrontos épicos tinham apenas começado.



segunda-feira, 22 de junho de 2026

Apenas um Navio



O combate sobre a Diligência Dracocérbera continuava enquanto o navio purista, mesmo sem os dragões escravizados, permanecia suspenso por mecanismos internos e energia acumulada. O objetivo agora era claro: desmontar aquela monstruosidade peça por peça antes que ela pudesse voltar a disparar contra Yuvallin.

Beleg observou rapidamente as estruturas internas e percebeu que os tubos e conexões que serpenteavam pela embarcação eram o verdadeiro sistema circulatório do navio. Não bastava destruir canhões — era preciso cortar o fluxo de energia e munição.

Firmando os pés sobre a estrutura metálica, o arqueiro puxou a corda do arco de aço-rubi.

A tatuagem em suas costas brilhou.

Dessa vez não havia rosto de homem algum.

A imagem inteira da deusa Valkaria surgiu desenhada em luz dourada sobre sua pele — armadura, cabelos ao vento e olhar de quem empurra os mortais rumo ao impossível.

Beleg respirou fundo e pronunciou:

— Valkaria… guia meu olhar para onde a liberdade precisa nascer.

Concentração em Combate.

A flecha partiu.

Ela cruzou o ar e atingiu exatamente uma junção vulnerável do tubo principal. O impacto abriu uma rachadura profunda e fez energia azulada começar a escapar.

Os Vigias do Sangue Puro perceberam imediatamente quem era a maior ameaça.

Bestas dispararam.

Os projéteis acertaram Beleg, mas ele endureceu os músculos, suportando os impactos sem perder posição. Sangue escorreu por seu braço, porém o seteiro permaneceu firme.

Sir Finley tentou aproveitar a abertura e lançou uma chicotada envenenada contra um dos vigias.

Errou.

O chicote estalou no metal.

Gyodai então abandonou qualquer aparência de equilíbrio.

Seu corpo deformou.

Conjurou Transformação de Guerra.

Membros extras surgiram. Músculos se distorceram. Braços aberrantes cresceram enquanto o lefou avançava como uma máquina viva.

Seus golpes começaram a atingir os tubos em sequência.

Cada soco arrancava placas metálicas.

Cada impacto deformava conduítes.

Um dos canais principais explodiu em uma cascata de energia e estilhaços.

Os Kobtas viram Beleg ser alvejado.

Aquilo bastou.

Os cinco pequenos pistoleiros ficaram furiosos.

Dispararam juntos.

Uma sequência brutal de tiros acertou o Vigia do Sangue Puro no peito. O impacto foi tão violento que o corpo foi lançado para fora do navio e desapareceu nas nuvens.

Beleg pegou uma poção e despejou diretamente sobre os ferimentos para continuar lutando.

Sir Finley finalmente encontrou ritmo.

Seu chicote estalou e atingiu um dos tubos restantes.

Uma rachadura se espalhou.

Gyodai então secretou aquele muco viscoso, ácido e fedorento característico da Tormenta e o lançou sobre Beleg.

As feridas começaram a fechar.

Revigorado, o arqueiro voltou à posição.

Enquanto isso, Gyodai despedaçava o restante dos tubos com golpes sucessivos até que o sistema inteiro entrou em colapso.

Kobta correu para a região equatorial e percebeu cristais energéticos alimentando o mecanismo central.

Disparou.

O cristal explodiu.

A explosão detonou outros dois.

Beleg imediatamente entendeu.

Puxou outra flecha.

A tatuagem de Valkaria voltou a iluminar suas costas.

— Onde houver prisão… que o caminho seja aberto.

Disparou.

A flecha atravessou outro cristal.

A reação em cadeia começou.

Explosões sacudiram o casco.

Sir Finley aproveitou e disparou sua bazuca.

A explosão seguinte foi tão grande que partes inteiras do interior da Diligência Dracocérbera começaram a ruir.

Mesmo assim os canhões restantes conseguiram disparar.

Ao longe, o Mariposa foi atingido.

A embarcação estremeceu violentamente.

Kobta recarregou suas armas.

Beleg destruiu os últimos cristais restantes.

Sir Finley avançou sobre outro Vigia do Sangue Puro.

O chicote envolveu o pescoço do purista.

Num puxão brutal arrancou parte da orelha, rompeu o equilíbrio e drenou parte de seu vigor.

Gyodai abriu caminho até o núcleo principal.

Lá dentro o aguardava Vassok.

Veterano.

Arcanista de guerra.

Ele lançou uma orbe azul.

Ela explodiu em fogo.

As chamas envolveram Gyodai.

Mas o lefou já vinha em velocidade absurda.

Golpes.

Sequências.

Múltiplos punhos.

Vassok ergueu Campo de Força.

Gyodai o agarrou mesmo assim.

Vassok pronunciou:

— Que os ventos devorem sua existência! Sopro das Uivantes!

O frio sobrenatural explodiu.

Gyodai desprezou a realidade.

Continuou avançando.

Mesmo queimando.

Mesmo deformado.

Olhou diretamente para o arcanista e sorriu.

— Matei Milla. Você vai seguir o mesmo caminho.

Kobta chegou.

Disparou.

Campo de Força absorveu parte.

Não foi suficiente.

As defesas de Vassok se quebraram.

Sir Finley apareceu por trás.

Seu chicote girou.

Golpe perfeito.

Enrolou no pescoço.

Puxou.

Vassok apagou.

A orbe azul caiu.

Flutuou.

E desapareceu.

Gyodai desfez sua Transformação de Guerra.

Conjurou Salto Dimensional.

Num instante todos retornaram ao Mariposa.

Do convés observaram.

A Diligência Dracocérbera perdeu sustentação.

Primeiro inclinou.

Depois caiu.

A esfera colossal atravessou as nuvens e atingiu o solo com violência inimaginável.

Uma onda de destruição se espalhou.

Puristas morreram.

Máquinas foram esmagadas.

Mas junto deles também havia inocentes.

E enquanto o fogo subia ao horizonte de Yuvallin…

ninguém comemorou.

Porque restava apenas um navio.

E a guerra ainda não havia terminado.


Texto por Roberto Oliveira.

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Diligência Dracocérbera



Yuvallin permanecia fechada para o mundo.

Desde o ataque purista, Ezequias e toda a população da grande metrópole estavam presos dentro das muralhas. Ninguém entrava. Ninguém saía. Todas as noites, os céus eram cortados pelos navios voadores e a cidade recebia novos bombardeios. O primeiro deles havia caído — o Hidra Helicoide fora destruído — mas ainda restavam dois. A guerra estava longe do fim.

Enquanto reorganizávamos os recursos próximos às linhas avançadas, uma procissão surgiu entre as trincheiras. Eram devotos de Tanna-Toh caminhando lentamente e entoando um cântico antigo que despertava algo difícil de explicar. Não era fé, nem coragem. Era curiosidade. Cada nota parecia acender no coração o desejo de compreender, aprender e descobrir.

As órbitas escarlates de Glomer começaram a emitir um brilho mais intenso.

O osteon ficou imóvel observando os sacerdotes e apertou o Olho Dourado que carregava consigo. Havia algo naquele chamado que parecia falar diretamente com sua essência de inventor e devoto do conhecimento. Depois de alguns instantes, tomou sua decisão.

Disse que precisava seguir os sacerdotes até a Caverna do Saber.

Não abandonaria o grupo. Voltaria.

Mas aquele caminho precisava ser percorrido sozinho.

Desejou sorte aos companheiros e, quando se virou para partir, algo parecido com uma lágrima escorreu por uma de suas órbitas vazias. Prometeu retornar.

Então desapareceu acompanhando a procissão.

Pouco tempo depois, fomos içados novamente para o convés do Mariposa.

Era hora de encontrar o próximo navio purista.

Gyodai foi o primeiro a notar que havia algo escondido entre as nuvens. Não enxergava exatamente uma forma, mas um vazio estranho, uma ausência de céu. Sir Finley então esticou a língua e começou a sentir o vento como se estivesse lendo um mapa invisível. Correntes de ar, turbulências e deslocamentos entregavam a direção daquilo que tentava permanecer oculto.

Beleg fechou os olhos e buscou outro caminho.

Cheiro.

Movimento.

Presença.

Seus sentidos encontraram o rastro.

Sir Finley assumiu o leme e conduziu o Mariposa numa perseguição silenciosa até que, finalmente, o inimigo se revelou.

Uma gigantesca esfera de ferro negro rompeu as nuvens.

Não havia velas. Não havia leme.

Canhões apontavam para todas as direções e criaturas aladas carregavam grandes esferas metálicas como plataformas de ataque. Três dragões negros puxavam toda aquela construção através dos céus, enquanto o casco girava lentamente para reposicionar suas baterias.

Kobta reconheceu imediatamente.

Era a Diligência Dracocérbera.

A estratégia ficou clara quase no mesmo instante: romper as correntes que escravizavam os dragões, destruir o núcleo de comando, silenciar a Bateria Equatorial, sabotar o mecanismo de rotação, destruir tubos e conexões e derrotar o almirante antes que aquela fortaleza voadora transformasse o Mariposa em destroços.

Os dragões atacaram primeiro.

Um sopro de trevas atravessou o convés e engoliu o ar ao redor.

Kobta foi o único que conseguiu escapar completamente.

Gyodai ergueu a mão e conjurou Campo de Força, absorvendo parte da energia escura. Beleg firmou o corpo e resistiu usando toda sua resistência, enquanto Kobta o protegia com seu truque de Escudo da Fé. Sir Finley rolou pelo convés para escapar e novamente recebeu cobertura dos kobolds.

Sem perder tempo, Kobta iniciou o contra-ataque.

Bebeu uma poção de velocidade, em seguida uma poção de orientação e executou sua firula inspiradora. Suas pistolas giraram nas mãos e os disparos seguiram diretamente para as correntes que mantinham os dragões presos.

Um dos dragões respondeu imediatamente.

Conjurou Velocidade e liberou uma aura aterradora.

Sir Finley e Beleg sentiram o peso daquela presença esmagando o peito.

Mesmo assim, Beleg avançou.

Bebeu sua própria poção de velocidade, respirou fundo e ergueu o arco.

Nas costas, a tatuagem brilhou.

O corpo de Valkaria apareceu.

Beleg tensionou a corda e pronunciou:

— Minha deusa… guia meus olhos. Valkaria… guia meu disparo. Que minhas flechas encontrem o ponto onde até gigantes aprendem a cair.

A saraivada começou.

Flechas cruzaram os céus e atingiram repetidamente as correntes.

Os Vigias do Sangue Puro avançaram imediatamente para defender os dragões e concentraram seus ataques contra o arqueiro. Beleg resistiu usando Durão enquanto Kobta desviava parte dos ataques com seu Escudo da Fé.

Sir Finley ergueu sua bazuca e disparou contra as correntes, mas os dragões se moveram rápido demais.

Gyodai então abriu um rasgo na realidade.

Salto Dimensional.

Num instante, ele e seus aliados apareceram sobre a própria esfera.

Logo ao chegar, um Capelão da Esfera de Aço surgiu empunhando um enorme martelo de guerra e atacou o lefou. O primeiro golpe passou em falso porque Gyodai parecia ignorar as regras da realidade, mas o segundo o acertou em cheio. Ainda assim, o feiticeiro absorveu o impacto com Campo de Força.

Enquanto isso, os canhões começaram a disparar contra o Mariposa.

Kobta respondeu.

Mais disparos.

A primeira corrente se rompeu.

O dragão libertado rugiu e imediatamente voltou sua fúria contra a própria Diligência Dracocérbera, cobrindo partes do casco com seu sopro sombrio.

Outro dragão reagiu dissipando a velocidade dos kobolds e acelerando o próprio corpo.

Beleg continuou disparando.

Mais rachaduras.

Mais impacto.

Sir Finley avançou com o chicote, mas errou o movimento das correntes oscilando no ar. Tentou então alcançar com a língua e percebeu algo terrível.

Escudos vivos.

Criaturas não humanoides estavam presas ao redor das estruturas.

Escravos usados como proteção.

Gyodai olhou para aquilo e não hesitou.

Seu corpo se deformou.

Conjurou Punho de Mitral.

Golpes sucessivos atingiram metal e corrente até que outra prisão se rompeu.

O segundo dragão ficou livre.

Por um momento todos imaginaram que ele destruiria o navio.

Mas ele apenas olhou para o Mariposa… e avançou em nossa direção.

Gyodai abriu suas asas de barata e voou diretamente para a última corrente.

Kobta acompanhou.

No caminho, usou Tiro de Sentinela e acertou o Capelão da Esfera de Aço, lançando-o para fora da fortaleza voadora.

Então correu.

Alcançou Gyodai.

Disparou.

A última corrente se partiu.

O terceiro dragão ficou imóvel por alguns segundos.

Olhou para os céus.

Olhou para o caos.

E simplesmente foi embora.

Sem os dragões, a Diligência Dracocérbera perdeu toda sua movimentação.

Mas não caiu.

A gigantesca esfera permaneceu suspensa no ar.

Parada.

Esperando.

E agora, finalmente, estava pronta para ser invadida.



Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Passos Escuros



Após uma breve pausa nas trincheiras de Yuvallin, nos preparamos para retornar ao Mariposa. Para isso, precisaríamos atravessar parte das muralhas da cidade, uma região tomada por uma energia negativa tão intensa que parecia infiltrar-se nos ossos. O ar era pesado, carregado de morte e sofrimento acumulados por tempos de guerra.

Enquanto avançávamos entre escombros, crateras e fortificações destruídas, Gyodai percebeu uma figura emergindo lentamente de uma trincheira abandonada. Era uma Mortalha, um espectro envolto em um manto negro esfarrapado que flutuava acima do chão sem produzir qualquer som. O lefou ainda estava parcialmente absorto pelos sussurros de Aharadak e não reagiu a tempo.

A criatura atravessou a distância num instante e estendeu uma mão cadavérica. Seu toque era mais frio que gelo, carregado de energia negativa. A carne mutante de Gyodai escureceu onde foi atingida e a dor percorreu seu corpo como uma descarga de agulhas congeladas. O espectro tentou impor uma maldição ainda pior, mas o lefou resistiu. Então outra Mortalha baixou o olhar para o solo e os restos espalhados pela trincheira começaram a se mover. Fragmentos de carne putrefata, ossos quebrados e terra encharcada de sangue ergueram-se no ar e foram lançados como projéteis contra ele.

Gyodai respondeu instantaneamente. Seu corpo explodiu numa nuvem de baratas aberrantes que absorveram parte do impacto.

— A realidade é apenas uma sugestão! — rugiu enquanto conjurava Campo de Força.

A barreira translúcida absorveu o restante do ataque e finalmente despertou o lefou de sua distração.

A tatuagem de Pitágoras brilhou em seu corpo, irradiando poder sobre seus membros deformados.

— Que a tormenta fortaleça meus punhos e que o impossível se torne comum!

Velocidade envolveu seu corpo enquanto Concentração em Combate aguçava seus reflexos. Num borrão de movimentos, Gyodai avançou sobre a Mortalha. Seus múltiplos braços golpearam o espectro repetidas vezes, rasgando o tecido sobrenatural que o mantinha unido. Um dos golpes atingiu diretamente a região onde deveriam existir olhos, deixando a criatura cega.

Foi então que uma nova ameaça surgiu.

Ao longe, uma luz prateada rompeu a escuridão do campo de batalha. Cabelos prateados dançavam ao vento e olhos verdes brilhavam como esmeraldas. Era Milla.

Seu grimório flutuava ao seu lado, aberto por páginas invisíveis movidas por forças arcanas. Sem sequer pronunciar uma palavra, linhas mágicas quase imperceptíveis partiram do livro e envolveram Beleg.

A magia Marionete tentou assumir controle total de seu corpo.

No instante seguinte, o grimório avançou em direção a Gyodai e tocou sua testa.

— Obedeça.

Runas surgiram ao redor do lefou.

Milla acabara de conjurar Selo de Mana.

Se o poder da magia triunfasse, Gyodai seria incapaz de canalizar energia arcana.

Kobta reagiu imediatamente.

O conjunto de kobolds executou sua tradicional firula inspiradora, bebeu uma poção de velocidade e girou suas pistolas de adamante.

— Se é para acertar uma maga, vamos acertar bem!

As armas rugiram.

As balas encantadas cruzaram o campo de batalha e atingiram Milla com violência. O primeiro disparo a fez recuar no ar. O segundo a lançou para trás como uma boneca arremessada por uma catapulta.

Enquanto isso, Beleg lutava contra o controle mental.

Com toda sua força de vontade, ele rompeu os fios invisíveis da Marionete.

Livre novamente, sacou uma poção de velocidade e a bebeu num único gole. Sua Marca da Presa foi ativada. Emboscar, Mira Apurada, Ponto Fraco e Tiro de Abate foram preparados em sequência.

A tatuagem em suas costas brilhou intensamente.

Mas não era Benhê quem surgia naquele momento.

Era Valkaria.

O rosto da deusa apareceu na pele do arqueiro enquanto energia dourada percorria seu corpo.

— Valkaria, guie minha mão. Benhê me ensinou onde acertar. Você me ensinará por que acertar.

A corda do arco cantou.

A primeira flecha atravessou a Mortalha ao lado de Gyodai.

A segunda atingiu o mesmo alvo com ainda mais força, rasgando sua essência espectral.

Sir Finley aproveitou a abertura.

Analisou rapidamente os pontos vulneráveis da criatura e preparou sua execução.

Seu chicote mágico foi coberto por peçonha concentrada.

O tabrachi girou a arma uma única vez antes de desferir um golpe preciso.

O aço encantado atravessou a Mortalha e o veneno sobrenatural espalhou-se por sua essência, deixando-a à beira da destruição.

Mesmo cega, a criatura tentou retaliar contra Gyodai, mas seus ataques cortaram apenas o vazio.

A segunda Mortalha foi mais eficiente.

Ela alcançou Beleg e drenou parte de sua energia vital. Sombras negras penetraram sua pele e tentaram consumir sua força.

O arqueiro suportou o ataque com determinação.

Sua resistência reduziu parte do dano e ele permaneceu firme.

Kobta então marcou a Mortalha cega como sua presa.

Os disparos seguintes perfuraram a criatura repetidas vezes.

Logo depois, voltou sua atenção para a segunda Mortalha e a atingiu com uma sequência de tiros tão precisa que quase a desintegrou.

Beleg aproveitou a oportunidade.

Apontou novamente seu arco para o alvo marcado.

A flecha atravessou a escuridão e aprofundou ainda mais os ferimentos espirituais da criatura.

Enquanto isso, o veneno aplicado por Sir Finley continuava corroendo a essência da Mortalha cega.

O tabrachi preparou o golpe final.

Sua tatuagem também brilhou nas costas.

Mais uma vez o rosto de Valkaria surgiu.

— Senhora dos caminhos, conduza meu golpe até o fim.

O chicote cortou o ar e atingiu o espectro com força devastadora.

A criatura resistiu por pouco.

As duas Mortalhas fizeram suas últimas tentativas de ataque.

A cega investiu contra Beleg e errou completamente.

A outra concentrou energia negativa no solo e lançou uma tempestade de ossos, pedras e areia diretamente contra o rosto de Gyodai.

O lefou simplesmente inclinou a cabeça para o lado.

O ataque passou por ele.

Então veio o contra-ataque.

Gyodai avançou.

Seus múltiplos braços golpearam as duas criaturas simultaneamente.

Punhos revestidos pelo poder da Tormenta atravessaram os espectros como marretas esmagando vidro.

As Mortalhas explodiram em fragmentos de energia sombria.

Quando a poeira baixou, restavam apenas os mantos negros caídos sobre o chão.

Milla já havia desaparecido.

Nem mesmo seus rastros permaneceram.

Gyodai e Sir Finley recolheram os mantos espectrais.

Pelo toque, ambos perceberam que aqueles tecidos ainda carregavam poder suficiente para servir de matéria-prima para encantamentos raros.

E se Milla estava observando de longe, aquilo significava apenas uma coisa.

Os inimigos já sabiam exatamente onde eles estavam.



Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA.