quinta-feira, 2 de julho de 2026

Corvo de Krauser


Após a destruição da Diligência Dracocérbera e um breve período de recuperação, o grupo finalmente conseguiu alguns momentos para reorganizar equipamentos, tratar ferimentos e recuperar parte do poder mágico consumido nas batalhas anteriores. O descanso foi curto, porque todos sabiam que ainda havia um último alvo nos céus de Yuvallin.

Sir Finley assumiu novamente o comando do Mariposa e conduziu o navio através das correntes de vento e das nuvens escuras que cobriam a região. Depois de algum tempo de perseguição silenciosa, ele finalmente localizou o último navio purista.

O Corvo de Krauser.

Diferente dos anteriores, ele não parecia apenas uma fortaleza voadora — parecia uma plataforma de guerra construída para esmagar cidades inteiras. Sua estrutura cilíndrica era envolta por dezenas de canhões distribuídos em todas as direções, além de dois hyper canhões que dominavam sua silhueta como presas gigantescas apontadas para o horizonte.

Kobta, Sir Finley e Beleg passaram alguns instantes estudando a embarcação e rapidamente definiram os objetivos necessários para derrubá-la: romper o invólucro mágico do balão, silenciar as baterias de canhões, destruir tubos e conexões que alimentavam os sistemas internos, profanar o templo de Aharadak escondido em seu interior e derrotar o Capitão Krauser.

Enquanto os outros planejavam, Gyodai permaneceu imóvel. Havia algo ali. Uma sensação familiar.

Seu olhar atravessou as estruturas metálicas do navio como se enxergasse além do aço e encontrou o que procurava.

Um templo dedicado a Aharadak.

Por um instante ele sentiu como se o próprio deus o observasse. Como se estivesse sendo chamado.

Kobta foi o primeiro a agir. Fez sua firula inspiradora para reforçar os próprios reflexos, bebeu uma poção de orientação, girou suas pistolas e disparou. A bala acertou diretamente um dos canhões do Corvo de Krauser e a explosão arrancou placas metálicas que caíram pelos céus.

Sir Finley tentou acompanhar o ataque usando sua pistola, mas o disparo passou raspando.

Beleg então deu um passo à frente. Ele ergueu seu arco de aço-rubi e puxou lentamente a corda. Nas suas costas, a tatuagem começou a brilhar.

A figura completa de Valkaria apareceu em luz dourada sobre sua pele — não apenas o rosto, mas o corpo inteiro da deusa dos aventureiros, imponente, como se guiasse seu braço.

Beleg murmurou:

— Valkaria… mostra onde devo abrir caminho. Concentração em Combate.

As flechas partiram numa sequência precisa e atingiram o canhão já danificado. O impacto quase o destruiu completamente.

A resposta veio imediatamente. O Corvo de Krauser abriu fogo. Sir Finley desviou com habilidade.

Beleg girou no ar e evitou os disparos.

Gyodai conjurou Campo de Força e absorveu quase toda a explosão, embora um fragmento ainda conseguisse atravessar sua defesa e abrir um corte superficial em seu rosto.

Kobta recebeu um impacto muito mais perigoso e precisou improvisar um Escudo da Fé através dos seus truques para sobreviver.

Sem perder ritmo, Kobta respondeu com novos disparos e destruiu outro canhão. Beleg acompanhou o ataque com novas flechas de aço-rubi.

Então o Corvo de Krauser executou uma manobra defensiva.

Toda sua estrutura girou lentamente, revelando uma segunda linha inteira de canhões preparados para disparar.

Kobta sorriu. Mirou. Atirou. Um dos hyper canhões explodiu.

Nesse momento, Gyodai abriu um portal dimensional e levou todos diretamente para dentro da embarcação.

Assim que surgiram, Sir Finley analisou rapidamente um dos mecanismos internos, encontrou um ponto vulnerável e atacou com o Chicote da Cobra Crescente. O golpe abriu rachaduras profundas na estrutura e permitiu que Beleg complementasse o dano com uma sequência de flechas.

Mesmo assim, os canhões restantes continuavam disparando. Lá fora, o Mariposa recebeu impactos violentos e começou a sofrer danos severos.

Kobta recarregou e continuou desativando baterias.

Gyodai conjurou Velocidade, abriu suas asas de barata e avançou como um projétil vivo. Seus múltiplos membros golpearam os mecanismos sem parar até destruir dois canhões praticamente sozinho.

Sir Finley avançou pelo convés usando seu chicote de aço-rubi da cobra crescente para romper mais estruturas.

Beleg ativou sua capa de Arsenal, ganhou altitude e destruiu outro canhão.

Foi então que Gyodai parou. Seus olhos se fixaram numa porta. Ele começou a caminhar. Nenhum dos outros conseguiu impedi-lo.

Entrou. Do outro lado havia Tormenta. Um templo pulsando como carne viva. Paredes que respiravam. Ar contaminado. E alguém esperando.

Exarca. O Arauto atacou imediatamente. O combate começou sem palavras. Exarca ergueu a mão e lançou Marca da Obediência.

Gyodai desprezou a realidade. Nada aconteceu. Exarca avançou com adaga, mordida e garras.

Gyodai respondeu conjurando Campo de Força e absorvendo os impactos. Kobta alcançou a entrada e tentou falar com ele.

Sem olhar para trás, Gyodai respondeu:

— Não entra. Isso aqui é comigo.

Então conjurou Punho de Mitral. Seu braço de ogro se revestiu de metal prateado. Ele atacou. Golpes rápidos. Sequências brutais.

Exarca foi atingido várias vezes, mas resistiu. Gyodai percebeu. Sorriu. Ao lado dos seus urubus mortos-vivos, encarou a criatura com entusiasmo.

Aquilo era um desafio digno. Lá fora, o combate continuava. Sir Finley e Beleg destruíram os últimos canhões. Foi quando a cabine principal se abriu.

O Capitão do Corvo de Krauser apareceu.

Um homem alto, cabelos longos, bigode branco e uma cicatriz atravessando o rosto. Vestia uma armadura tecnológica equipada com dois enormes canhões acoplados.

Ele apontou para Kobta. Mas Kobta foi mais rápido. Disparou. A bala de aço-rubi acertou em cheio e lançou Krauser para trás.

O capitão ativou propulsores e respondeu imediatamente. Um disparo foi interceptado por uma múmia sacrificada. O outro Kobta evitou rolando e usando Escudo Arcano.

Enquanto isso, dentro do templo, Exarca lançou Anular a Luz. Gyodai ignorou. A mordida falhou. Mas uma garra e a adaga encontraram espaço.

Campo de Força absorveu parte. Veneno entrou. Gyodai resistiu. Ainda assim sentiu seus músculos desacelerando. Exarca sorriu.

Gyodai sorriu de volta. Do lado de fora, Krauser preparava seus canhões. Do lado de dentro, Exarca mostrava as presas. 

Os dois confrontos épicos tinham apenas começado.



segunda-feira, 22 de junho de 2026

Apenas um Navio



O combate sobre a Diligência Dracocérbera continuava enquanto o navio purista, mesmo sem os dragões escravizados, permanecia suspenso por mecanismos internos e energia acumulada. O objetivo agora era claro: desmontar aquela monstruosidade peça por peça antes que ela pudesse voltar a disparar contra Yuvallin.

Beleg observou rapidamente as estruturas internas e percebeu que os tubos e conexões que serpenteavam pela embarcação eram o verdadeiro sistema circulatório do navio. Não bastava destruir canhões — era preciso cortar o fluxo de energia e munição.

Firmando os pés sobre a estrutura metálica, o arqueiro puxou a corda do arco de aço-rubi.

A tatuagem em suas costas brilhou.

Dessa vez não havia rosto de homem algum.

A imagem inteira da deusa Valkaria surgiu desenhada em luz dourada sobre sua pele — armadura, cabelos ao vento e olhar de quem empurra os mortais rumo ao impossível.

Beleg respirou fundo e pronunciou:

— Valkaria… guia meu olhar para onde a liberdade precisa nascer.

Concentração em Combate.

A flecha partiu.

Ela cruzou o ar e atingiu exatamente uma junção vulnerável do tubo principal. O impacto abriu uma rachadura profunda e fez energia azulada começar a escapar.

Os Vigias do Sangue Puro perceberam imediatamente quem era a maior ameaça.

Bestas dispararam.

Os projéteis acertaram Beleg, mas ele endureceu os músculos, suportando os impactos sem perder posição. Sangue escorreu por seu braço, porém o seteiro permaneceu firme.

Sir Finley tentou aproveitar a abertura e lançou uma chicotada envenenada contra um dos vigias.

Errou.

O chicote estalou no metal.

Gyodai então abandonou qualquer aparência de equilíbrio.

Seu corpo deformou.

Conjurou Transformação de Guerra.

Membros extras surgiram. Músculos se distorceram. Braços aberrantes cresceram enquanto o lefou avançava como uma máquina viva.

Seus golpes começaram a atingir os tubos em sequência.

Cada soco arrancava placas metálicas.

Cada impacto deformava conduítes.

Um dos canais principais explodiu em uma cascata de energia e estilhaços.

Os Kobtas viram Beleg ser alvejado.

Aquilo bastou.

Os cinco pequenos pistoleiros ficaram furiosos.

Dispararam juntos.

Uma sequência brutal de tiros acertou o Vigia do Sangue Puro no peito. O impacto foi tão violento que o corpo foi lançado para fora do navio e desapareceu nas nuvens.

Beleg pegou uma poção e despejou diretamente sobre os ferimentos para continuar lutando.

Sir Finley finalmente encontrou ritmo.

Seu chicote estalou e atingiu um dos tubos restantes.

Uma rachadura se espalhou.

Gyodai então secretou aquele muco viscoso, ácido e fedorento característico da Tormenta e o lançou sobre Beleg.

As feridas começaram a fechar.

Revigorado, o arqueiro voltou à posição.

Enquanto isso, Gyodai despedaçava o restante dos tubos com golpes sucessivos até que o sistema inteiro entrou em colapso.

Kobta correu para a região equatorial e percebeu cristais energéticos alimentando o mecanismo central.

Disparou.

O cristal explodiu.

A explosão detonou outros dois.

Beleg imediatamente entendeu.

Puxou outra flecha.

A tatuagem de Valkaria voltou a iluminar suas costas.

— Onde houver prisão… que o caminho seja aberto.

Disparou.

A flecha atravessou outro cristal.

A reação em cadeia começou.

Explosões sacudiram o casco.

Sir Finley aproveitou e disparou sua bazuca.

A explosão seguinte foi tão grande que partes inteiras do interior da Diligência Dracocérbera começaram a ruir.

Mesmo assim os canhões restantes conseguiram disparar.

Ao longe, o Mariposa foi atingido.

A embarcação estremeceu violentamente.

Kobta recarregou suas armas.

Beleg destruiu os últimos cristais restantes.

Sir Finley avançou sobre outro Vigia do Sangue Puro.

O chicote envolveu o pescoço do purista.

Num puxão brutal arrancou parte da orelha, rompeu o equilíbrio e drenou parte de seu vigor.

Gyodai abriu caminho até o núcleo principal.

Lá dentro o aguardava Vassok.

Veterano.

Arcanista de guerra.

Ele lançou uma orbe azul.

Ela explodiu em fogo.

As chamas envolveram Gyodai.

Mas o lefou já vinha em velocidade absurda.

Golpes.

Sequências.

Múltiplos punhos.

Vassok ergueu Campo de Força.

Gyodai o agarrou mesmo assim.

Vassok pronunciou:

— Que os ventos devorem sua existência! Sopro das Uivantes!

O frio sobrenatural explodiu.

Gyodai desprezou a realidade.

Continuou avançando.

Mesmo queimando.

Mesmo deformado.

Olhou diretamente para o arcanista e sorriu.

— Matei Milla. Você vai seguir o mesmo caminho.

Kobta chegou.

Disparou.

Campo de Força absorveu parte.

Não foi suficiente.

As defesas de Vassok se quebraram.

Sir Finley apareceu por trás.

Seu chicote girou.

Golpe perfeito.

Enrolou no pescoço.

Puxou.

Vassok apagou.

A orbe azul caiu.

Flutuou.

E desapareceu.

Gyodai desfez sua Transformação de Guerra.

Conjurou Salto Dimensional.

Num instante todos retornaram ao Mariposa.

Do convés observaram.

A Diligência Dracocérbera perdeu sustentação.

Primeiro inclinou.

Depois caiu.

A esfera colossal atravessou as nuvens e atingiu o solo com violência inimaginável.

Uma onda de destruição se espalhou.

Puristas morreram.

Máquinas foram esmagadas.

Mas junto deles também havia inocentes.

E enquanto o fogo subia ao horizonte de Yuvallin…

ninguém comemorou.

Porque restava apenas um navio.

E a guerra ainda não havia terminado.


Texto por Roberto Oliveira.

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Diligência Dracocérbera



Yuvallin permanecia fechada para o mundo.

Desde o ataque purista, Ezequias e toda a população da grande metrópole estavam presos dentro das muralhas. Ninguém entrava. Ninguém saía. Todas as noites, os céus eram cortados pelos navios voadores e a cidade recebia novos bombardeios. O primeiro deles havia caído — o Hidra Helicoide fora destruído — mas ainda restavam dois. A guerra estava longe do fim.

Enquanto reorganizávamos os recursos próximos às linhas avançadas, uma procissão surgiu entre as trincheiras. Eram devotos de Tanna-Toh caminhando lentamente e entoando um cântico antigo que despertava algo difícil de explicar. Não era fé, nem coragem. Era curiosidade. Cada nota parecia acender no coração o desejo de compreender, aprender e descobrir.

As órbitas escarlates de Glomer começaram a emitir um brilho mais intenso.

O osteon ficou imóvel observando os sacerdotes e apertou o Olho Dourado que carregava consigo. Havia algo naquele chamado que parecia falar diretamente com sua essência de inventor e devoto do conhecimento. Depois de alguns instantes, tomou sua decisão.

Disse que precisava seguir os sacerdotes até a Caverna do Saber.

Não abandonaria o grupo. Voltaria.

Mas aquele caminho precisava ser percorrido sozinho.

Desejou sorte aos companheiros e, quando se virou para partir, algo parecido com uma lágrima escorreu por uma de suas órbitas vazias. Prometeu retornar.

Então desapareceu acompanhando a procissão.

Pouco tempo depois, fomos içados novamente para o convés do Mariposa.

Era hora de encontrar o próximo navio purista.

Gyodai foi o primeiro a notar que havia algo escondido entre as nuvens. Não enxergava exatamente uma forma, mas um vazio estranho, uma ausência de céu. Sir Finley então esticou a língua e começou a sentir o vento como se estivesse lendo um mapa invisível. Correntes de ar, turbulências e deslocamentos entregavam a direção daquilo que tentava permanecer oculto.

Beleg fechou os olhos e buscou outro caminho.

Cheiro.

Movimento.

Presença.

Seus sentidos encontraram o rastro.

Sir Finley assumiu o leme e conduziu o Mariposa numa perseguição silenciosa até que, finalmente, o inimigo se revelou.

Uma gigantesca esfera de ferro negro rompeu as nuvens.

Não havia velas. Não havia leme.

Canhões apontavam para todas as direções e criaturas aladas carregavam grandes esferas metálicas como plataformas de ataque. Três dragões negros puxavam toda aquela construção através dos céus, enquanto o casco girava lentamente para reposicionar suas baterias.

Kobta reconheceu imediatamente.

Era a Diligência Dracocérbera.

A estratégia ficou clara quase no mesmo instante: romper as correntes que escravizavam os dragões, destruir o núcleo de comando, silenciar a Bateria Equatorial, sabotar o mecanismo de rotação, destruir tubos e conexões e derrotar o almirante antes que aquela fortaleza voadora transformasse o Mariposa em destroços.

Os dragões atacaram primeiro.

Um sopro de trevas atravessou o convés e engoliu o ar ao redor.

Kobta foi o único que conseguiu escapar completamente.

Gyodai ergueu a mão e conjurou Campo de Força, absorvendo parte da energia escura. Beleg firmou o corpo e resistiu usando toda sua resistência, enquanto Kobta o protegia com seu truque de Escudo da Fé. Sir Finley rolou pelo convés para escapar e novamente recebeu cobertura dos kobolds.

Sem perder tempo, Kobta iniciou o contra-ataque.

Bebeu uma poção de velocidade, em seguida uma poção de orientação e executou sua firula inspiradora. Suas pistolas giraram nas mãos e os disparos seguiram diretamente para as correntes que mantinham os dragões presos.

Um dos dragões respondeu imediatamente.

Conjurou Velocidade e liberou uma aura aterradora.

Sir Finley e Beleg sentiram o peso daquela presença esmagando o peito.

Mesmo assim, Beleg avançou.

Bebeu sua própria poção de velocidade, respirou fundo e ergueu o arco.

Nas costas, a tatuagem brilhou.

O corpo de Valkaria apareceu.

Beleg tensionou a corda e pronunciou:

— Minha deusa… guia meus olhos. Valkaria… guia meu disparo. Que minhas flechas encontrem o ponto onde até gigantes aprendem a cair.

A saraivada começou.

Flechas cruzaram os céus e atingiram repetidamente as correntes.

Os Vigias do Sangue Puro avançaram imediatamente para defender os dragões e concentraram seus ataques contra o arqueiro. Beleg resistiu usando Durão enquanto Kobta desviava parte dos ataques com seu Escudo da Fé.

Sir Finley ergueu sua bazuca e disparou contra as correntes, mas os dragões se moveram rápido demais.

Gyodai então abriu um rasgo na realidade.

Salto Dimensional.

Num instante, ele e seus aliados apareceram sobre a própria esfera.

Logo ao chegar, um Capelão da Esfera de Aço surgiu empunhando um enorme martelo de guerra e atacou o lefou. O primeiro golpe passou em falso porque Gyodai parecia ignorar as regras da realidade, mas o segundo o acertou em cheio. Ainda assim, o feiticeiro absorveu o impacto com Campo de Força.

Enquanto isso, os canhões começaram a disparar contra o Mariposa.

Kobta respondeu.

Mais disparos.

A primeira corrente se rompeu.

O dragão libertado rugiu e imediatamente voltou sua fúria contra a própria Diligência Dracocérbera, cobrindo partes do casco com seu sopro sombrio.

Outro dragão reagiu dissipando a velocidade dos kobolds e acelerando o próprio corpo.

Beleg continuou disparando.

Mais rachaduras.

Mais impacto.

Sir Finley avançou com o chicote, mas errou o movimento das correntes oscilando no ar. Tentou então alcançar com a língua e percebeu algo terrível.

Escudos vivos.

Criaturas não humanoides estavam presas ao redor das estruturas.

Escravos usados como proteção.

Gyodai olhou para aquilo e não hesitou.

Seu corpo se deformou.

Conjurou Punho de Mitral.

Golpes sucessivos atingiram metal e corrente até que outra prisão se rompeu.

O segundo dragão ficou livre.

Por um momento todos imaginaram que ele destruiria o navio.

Mas ele apenas olhou para o Mariposa… e avançou em nossa direção.

Gyodai abriu suas asas de barata e voou diretamente para a última corrente.

Kobta acompanhou.

No caminho, usou Tiro de Sentinela e acertou o Capelão da Esfera de Aço, lançando-o para fora da fortaleza voadora.

Então correu.

Alcançou Gyodai.

Disparou.

A última corrente se partiu.

O terceiro dragão ficou imóvel por alguns segundos.

Olhou para os céus.

Olhou para o caos.

E simplesmente foi embora.

Sem os dragões, a Diligência Dracocérbera perdeu toda sua movimentação.

Mas não caiu.

A gigantesca esfera permaneceu suspensa no ar.

Parada.

Esperando.

E agora, finalmente, estava pronta para ser invadida.



Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Passos Escuros



Após uma breve pausa nas trincheiras de Yuvallin, nos preparamos para retornar ao Mariposa. Para isso, precisaríamos atravessar parte das muralhas da cidade, uma região tomada por uma energia negativa tão intensa que parecia infiltrar-se nos ossos. O ar era pesado, carregado de morte e sofrimento acumulados por tempos de guerra.

Enquanto avançávamos entre escombros, crateras e fortificações destruídas, Gyodai percebeu uma figura emergindo lentamente de uma trincheira abandonada. Era uma Mortalha, um espectro envolto em um manto negro esfarrapado que flutuava acima do chão sem produzir qualquer som. O lefou ainda estava parcialmente absorto pelos sussurros de Aharadak e não reagiu a tempo.

A criatura atravessou a distância num instante e estendeu uma mão cadavérica. Seu toque era mais frio que gelo, carregado de energia negativa. A carne mutante de Gyodai escureceu onde foi atingida e a dor percorreu seu corpo como uma descarga de agulhas congeladas. O espectro tentou impor uma maldição ainda pior, mas o lefou resistiu. Então outra Mortalha baixou o olhar para o solo e os restos espalhados pela trincheira começaram a se mover. Fragmentos de carne putrefata, ossos quebrados e terra encharcada de sangue ergueram-se no ar e foram lançados como projéteis contra ele.

Gyodai respondeu instantaneamente. Seu corpo explodiu numa nuvem de baratas aberrantes que absorveram parte do impacto.

— A realidade é apenas uma sugestão! — rugiu enquanto conjurava Campo de Força.

A barreira translúcida absorveu o restante do ataque e finalmente despertou o lefou de sua distração.

A tatuagem de Pitágoras brilhou em seu corpo, irradiando poder sobre seus membros deformados.

— Que a tormenta fortaleça meus punhos e que o impossível se torne comum!

Velocidade envolveu seu corpo enquanto Concentração em Combate aguçava seus reflexos. Num borrão de movimentos, Gyodai avançou sobre a Mortalha. Seus múltiplos braços golpearam o espectro repetidas vezes, rasgando o tecido sobrenatural que o mantinha unido. Um dos golpes atingiu diretamente a região onde deveriam existir olhos, deixando a criatura cega.

Foi então que uma nova ameaça surgiu.

Ao longe, uma luz prateada rompeu a escuridão do campo de batalha. Cabelos prateados dançavam ao vento e olhos verdes brilhavam como esmeraldas. Era Milla.

Seu grimório flutuava ao seu lado, aberto por páginas invisíveis movidas por forças arcanas. Sem sequer pronunciar uma palavra, linhas mágicas quase imperceptíveis partiram do livro e envolveram Beleg.

A magia Marionete tentou assumir controle total de seu corpo.

No instante seguinte, o grimório avançou em direção a Gyodai e tocou sua testa.

— Obedeça.

Runas surgiram ao redor do lefou.

Milla acabara de conjurar Selo de Mana.

Se o poder da magia triunfasse, Gyodai seria incapaz de canalizar energia arcana.

Kobta reagiu imediatamente.

O conjunto de kobolds executou sua tradicional firula inspiradora, bebeu uma poção de velocidade e girou suas pistolas de adamante.

— Se é para acertar uma maga, vamos acertar bem!

As armas rugiram.

As balas encantadas cruzaram o campo de batalha e atingiram Milla com violência. O primeiro disparo a fez recuar no ar. O segundo a lançou para trás como uma boneca arremessada por uma catapulta.

Enquanto isso, Beleg lutava contra o controle mental.

Com toda sua força de vontade, ele rompeu os fios invisíveis da Marionete.

Livre novamente, sacou uma poção de velocidade e a bebeu num único gole. Sua Marca da Presa foi ativada. Emboscar, Mira Apurada, Ponto Fraco e Tiro de Abate foram preparados em sequência.

A tatuagem em suas costas brilhou intensamente.

Mas não era Benhê quem surgia naquele momento.

Era Valkaria.

O rosto da deusa apareceu na pele do arqueiro enquanto energia dourada percorria seu corpo.

— Valkaria, guie minha mão. Benhê me ensinou onde acertar. Você me ensinará por que acertar.

A corda do arco cantou.

A primeira flecha atravessou a Mortalha ao lado de Gyodai.

A segunda atingiu o mesmo alvo com ainda mais força, rasgando sua essência espectral.

Sir Finley aproveitou a abertura.

Analisou rapidamente os pontos vulneráveis da criatura e preparou sua execução.

Seu chicote mágico foi coberto por peçonha concentrada.

O tabrachi girou a arma uma única vez antes de desferir um golpe preciso.

O aço encantado atravessou a Mortalha e o veneno sobrenatural espalhou-se por sua essência, deixando-a à beira da destruição.

Mesmo cega, a criatura tentou retaliar contra Gyodai, mas seus ataques cortaram apenas o vazio.

A segunda Mortalha foi mais eficiente.

Ela alcançou Beleg e drenou parte de sua energia vital. Sombras negras penetraram sua pele e tentaram consumir sua força.

O arqueiro suportou o ataque com determinação.

Sua resistência reduziu parte do dano e ele permaneceu firme.

Kobta então marcou a Mortalha cega como sua presa.

Os disparos seguintes perfuraram a criatura repetidas vezes.

Logo depois, voltou sua atenção para a segunda Mortalha e a atingiu com uma sequência de tiros tão precisa que quase a desintegrou.

Beleg aproveitou a oportunidade.

Apontou novamente seu arco para o alvo marcado.

A flecha atravessou a escuridão e aprofundou ainda mais os ferimentos espirituais da criatura.

Enquanto isso, o veneno aplicado por Sir Finley continuava corroendo a essência da Mortalha cega.

O tabrachi preparou o golpe final.

Sua tatuagem também brilhou nas costas.

Mais uma vez o rosto de Valkaria surgiu.

— Senhora dos caminhos, conduza meu golpe até o fim.

O chicote cortou o ar e atingiu o espectro com força devastadora.

A criatura resistiu por pouco.

As duas Mortalhas fizeram suas últimas tentativas de ataque.

A cega investiu contra Beleg e errou completamente.

A outra concentrou energia negativa no solo e lançou uma tempestade de ossos, pedras e areia diretamente contra o rosto de Gyodai.

O lefou simplesmente inclinou a cabeça para o lado.

O ataque passou por ele.

Então veio o contra-ataque.

Gyodai avançou.

Seus múltiplos braços golpearam as duas criaturas simultaneamente.

Punhos revestidos pelo poder da Tormenta atravessaram os espectros como marretas esmagando vidro.

As Mortalhas explodiram em fragmentos de energia sombria.

Quando a poeira baixou, restavam apenas os mantos negros caídos sobre o chão.

Milla já havia desaparecido.

Nem mesmo seus rastros permaneceram.

Gyodai e Sir Finley recolheram os mantos espectrais.

Pelo toque, ambos perceberam que aqueles tecidos ainda carregavam poder suficiente para servir de matéria-prima para encantamentos raros.

E se Milla estava observando de longe, aquilo significava apenas uma coisa.

Os inimigos já sabiam exatamente onde eles estavam.



Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Olho Dourado



O céu de Arton rugia em meio à guerra aérea enquanto o Hidra Helicoide cortava as nuvens como uma fera metálica agonizante. Raios elétricos percorriam suas enormes hélices de mitral e o som das engrenagens parecia o uivo contínuo de uma criatura condenada.

Gyodai observou o navio purista à distância e ergueu os braços deformados pela Tormenta. Sua carne aberrante pulsava em tons rubros enquanto energia dimensional se acumulava ao redor do lefou.

— “A realidade é apenas carne esperando para ser rasgada.”

Com um movimento brusco, Gyodai conjurou Salto Dimensional e arrastou Glomer consigo.

Durante o teleporte, os dois sentiram os próprios corpos sendo desintegrados em nível molecular. Ossos, músculos e mana pareciam dissolver-se enquanto atravessavam o espaço entre os planos. Naquele breve instante fora da realidade, ambos enxergaram algo impossível: os deuses observavam o combate.

Muito acima de todos, o olhar serpentino de Sszzaas atravessava o vazio. Mais abaixo, Arsenal fitava a batalha como um general analisando um campo de guerra. Valkaria também observava em silêncio, majestosa e soberana.

Então a magia desviou.

A interferência divina alterou completamente o destino do teleporte. Em vez da cabine principal, Gyodai e Glomer surgiram violentamente em uma cabine lateral do Hidra Helicoide. Os deuses haviam impedido que chegassem facilmente ao coração do navio.

Enquanto isso, Beleg sentia uma poderosa aura de Valkaria emanando do interior da embarcação purista. Mesmo desconfiado, puxou lentamente a corda do arco e lembrou-se das palavras de Benhê, seu antigo tutor, sobre acertar exatamente onde mais dói.

A tatuagem em suas costas brilhou intensamente.

— “Benhê… guie meus olhos. Valkaria, faça este navio voar livre mais uma vez!”

A Concentração em Combate tomou conta do arqueiro.

A flecha de aço-rubi atravessou o céu como um raio dourado e atingiu diretamente uma das hélices. O impacto arrancou placas metálicas e enfraqueceu os sistemas de armas do Hidra Helicoide. A Marca da Presa transformou o próprio navio em alvo do ódio de Beleg. Madeira, aço e engrenagens eram tratados por ele como se fossem carne purista.

Partes inteiras do casco foram destruídas.

O capitão inimigo respondeu imediatamente.

O Hidra Helicoide iniciou uma manobra defensiva brutal, girando de um lado para o outro em movimentos violentos que criaram um gigantesco campo de energia estática ao redor do casco. Marinheiros foram arremessados ao vazio enquanto correntes e cordas se partiam no ar.

Kobta saltou no exato momento em que o convés inclinou. Seus quatro corpos ocultos sob a manta giraram em perfeita sincronia, evitando o impacto graças à sua evasão sobrenatural.

Gyodai simplesmente ergueu a mão.

— “A deformidade transcende o impacto.”

Seu Campo de Força absorveu a violência da colisão.

Glomer, porém, foi lançado contra as paredes da cabine. Seus ossos estremeceram e rachaduras percorreram sua estrutura osteon.

Mesmo invisível, Kobta continuava avançando furtivamente rumo à cabine principal. Pequenas ferramentas surgiam entre os dedos kobolds enquanto ele analisava engrenagens e condutores mágicos.

Então a porta da cabine lateral explodiu.

Diversos marinheiros puristas invadiram o local empunhando sabres e pistolas elétricas. Ao mesmo tempo, mais puristas surgiam próximos da cabine principal sem perceber que Kobta já estava entre eles, invisível como um fantasma.

Do lado de fora, Beleg e Sir Finley perceberam o resultado da sabotagem e dos disparos certeiros. Uma das hélices começou a despencar lentamente.

Sir Finley abriu um enorme sorriso anfíbio e girou sua bazuca improvisada.

— “Agora vai, cambada de lata voadora!”

A Power Bazuca disparou.

O projétil atingiu outra hélice em cheio, arrancando partes inteiras das engrenagens. A estrutura começou a ranger perigosamente.

Dentro da cabine, Glomer respirou fundo e ativou uma engenhoca com a velocidade de um estalar de dedos.

— “Encontrando fraquezas… pronto.”

Diagramas luminosos apareceram diante do inventor. Ele identificou os pontos exatos onde bombas causariam danos catastróficos. Em seguida, ativou outra engenhoca de Campo de Força. Bandagens metálicas envolveram seus ossos, reforçando sua estrutura.

Seu Olho de Dragão analisou o ambiente e revelou o melhor ponto para destruir o navio: o convés superior, acima da sala de máquinas.

Gyodai abriu um sorriso monstruoso.

— “Hora de alimentar a guerra.”

Sob efeito de Velocidade, o lefou avançou sobre os marinheiros puristas. Seus múltiplos braços deformados desferiram uma sequência absurda de golpes de visco rubro. Mandíbulas explodiram, costelas afundaram e dentes foram arrancados junto com pedaços de carne. Um marinheiro teve o pescoço quebrado ao contrário enquanto outro foi atravessado pelos membros aberrantes do lefou.

Logo depois, Gyodai começou a esmurrar as paredes da cabine. Rachaduras grotescas se espalharam pela estrutura metálica.

Do lado de fora, Beleg respirou fundo novamente. A tatuagem de Benhê brilhou mais uma vez.

— “Benhê… guie meu braço.”

A flecha seguinte atravessou exatamente a parte enfraquecida pela bazuca de Sir Finley.

A segunda hélice explodiu.

O Hidra Helicoide começou a perder altitude.

As defesas do navio purista dispararam seus últimos relâmpagos desesperados contra Beleg e Sir Finley. Ambos desviaram no ar com movimentos quase impossíveis.

Então veio o desastre.

A cabine onde Gyodai e Glomer estavam começou a implodir. As paredes se retorciam para dentro enquanto energia dimensional rasgava o ambiente.

Gyodai desprezou a realidade. Para um servo da Tormenta, aquilo parecia apenas mais uma deformação do mundo.

Glomer, porém, foi violentamente atingido pelos destroços. Seus ossos vibraram dolorosamente.

Luzes multicoloridas surgiram por toda parte: as mesmas luzes hipnóticas das hélices.

O olhar de Gyodai perdeu o foco.

O lefou ficou fascinado.

Foi então que Kobta concluiu sua sabotagem final.

Engrenagens explodiram. Tubulações arrebentaram. Peças metálicas voaram pelos céus.

O Hidra Helicoide começou a cair.

Enquanto bebia uma poção de Queda Suave, Kobta olhou para o lado e viu Gyodai e Glomer presos na cabine implodindo.

Sir Finley acelerou o Mariposa na direção do navio inimigo, tentando resgatar os aliados antes da queda definitiva.

Glomer, quase destruído, ativou novamente sua engenhoca de Campo de Força. Bandagens reforçadas envolveram seu corpo esquelético.

Então Beleg voou.

Usando sua Capa de Arsenal, o arqueiro avançou pelos céus até alcançar o casco do Hidra Helicoide. Ao passar por uma das janelas da cabine principal, viu algo inesperado.

Uma sacerdotisa diante de um altar de Valkaria.

Um de seus olhos era negro.

O outro, dourado.

Ela era a capitã do Hidra Helicoide.

Beleg puxou a corda do arco.

O tempo parou.

As divindades observavam novamente.

Desta vez, Valkaria estava acima de todos, soberana como líder do Panteão.

Algo mudou dentro de Beleg naquele instante, como se parte de sua antiga vida tivesse sido arrancada. Seu olhar amadureceu. Seu comportamento pareceu diferente. A barba começaria a crescer dali em diante e seus olhos passaram a enxergar o mundo de outra forma.

Então a própria Valkaria falou:

— “Estou guiando sua flecha. O que deseja que eu faça?”

Beleg respondeu sem hesitar:

— “Se ela for purista, que a flecha liberte os inocentes da opressão. Se não for, destrua meu disparo.”

A flecha partiu.

Instantaneamente atravessou a testa da sacerdotisa.

Ela caiu morta diante do altar.

Uma onda colossal de eletricidade percorreu todo o Hidra Helicoide. As máquinas morreram ao mesmo tempo.

O navio começou a despencar.

Glomer despertou Gyodai do transe e pegou o misterioso olho dourado que agora flutuava no ar. Gyodai abriu outro Salto Dimensional e ambos retornaram em segurança ao Mariposa.

Kobta, sob efeito da poção de Queda Suave, desceu lentamente dos céus até alcançar o navio aliado.

Mais tarde, já em segurança, Glomer analisou o olho dourado. Descobriu que o artefato precisava substituir um olho verdadeiro para funcionar plenamente. Como era um osteon, removeu parte da órbita e implantou o olho mágico sem hesitar.

Imediatamente começou a enxergar visões do antigo reino de Collen: ruínas, guerras e memórias perdidas.

Mas a verdadeira revelação veio depois.

O artefato despertaria totalmente apenas caso Glomer se convertesse à fé de Valkaria. Caso recusasse, precisaria buscar respostas na lendária Caverna do Saber.

Glomer permaneceu firme. Não abandonaria Tanna-Toh.

Então ofereceu o olho a Beleg.

O arqueiro segurou o artefato dourado em silêncio, sabendo o preço que precisaria pagar para utilizá-lo.

Enquanto isso, Capitã Lislah conduzia novamente o Mariposa pelos céus.

Outro navio purista os aguardava adiante.

E a guerra aérea estava longe de terminar.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 19 de maio de 2026

Raios e hélices



A grande âncora rasgou os céus escuros como um arpão lançado por um titã morto. Correntes estremeceram no ar até se prenderem ao chão onde os heróis estavam. Então ele surgiu entre as nuvens de fumaça e pólvora: o Navio Mariposa.

Seu casco negro era iluminado apenas pela luz fosforescente de fantasmas animados voando pelo convés. Zumbis carregavam lanternas de chama verdeada enquanto goblins corriam entre cordas e canhões. Anões de armaduras sombrias ajustavam mecanismos de guerra, e no centro do navio erguia-se um pequeno templo de Tenebra, onde velas negras queimavam sem produzir calor.

Sir Finley estreitou os olhos anfíbios e deslizou a língua para fora num movimento rápido.

— “Que as sombras revelem o que a luz tenta esconder.”

Usando seus truques de ladino, ele simulou uma Visão Mística. Seus olhos ganharam um brilho azulado e passaram a enxergar rastros arcanos invisíveis no céu. Entre as correntes de vento e nuvens carregadas, ele finalmente encontrou o vulto distorcido dos navios puristas espectrais.

A perseguição começou imediatamente.

Sir Finley assumiu o leme do Mariposa enquanto Beleg permanecia no alto do mastro principal, observando o horizonte com olhar de falcão. O arqueiro apertou o arco contra o peito e respirou fundo.

— “Benhê… guia minha mira mais uma vez.”

A tatuagem do rosto de seu antigo companheiro brilhou em suas costas quando ele ativou sua Concentração em Combate. Seus olhos se aguçaram como os de uma águia predadora.

Foi então que o primeiro disparo veio.

Um relâmpago colossal atravessou as nuvens e explodiu contra o ar próximo ao navio. Sir Finley girou o leme violentamente e o Mariposa inclinou quase noventa graus no céu, desviando por muito pouco da descarga elétrica.

Kobta e Gyodai observavam atentamente o rastro invisível deixado pelo inimigo. O navio purista parecia surgir e desaparecer entre distorções mágicas.

Subitamente o Mariposa balançou com violência.

Glomer e Sir Finley foram jogados contra o convés. Outro disparo elétrico atingiu o casco e rachaduras começaram a surgir na madeira negra. Energia azul percorreu todo o navio.

Gyodai ergueu um dos braços monstruosos e rugiu:

— “A carne aberrante rejeita sua destruição!”

Um Campo de Força translúcido surgiu ao redor do lefou e absorveu parte da descarga.

Glomer estava gravemente ferido. Ossos rachados apareciam sob sua pele ressecada de osteon enquanto ele tentava desesperadamente enrolar bandagens em si mesmo. Com uma engenhoca improvisada, simulou um Campo de Força para evitar ser destruído naquele bombardeio.

Outro relâmpago veio logo em seguida.

O impacto fez o convés explodir em farpas e fogo azul.

Então Capitã Lislah ergueu sua mão envolta em sombras.

— “Tenebra, marque aqueles que ousam se esconder da noite.”

Uma runa negra surgiu ao longe, revelando finalmente o contorno espectral do navio purista.

O Hidra Helicóide.

Um monstruoso navio voador purista equipado com uma gigantesca hélice de mitral girando sob o casco. Raios multicoloridos escapavam de suas engrenagens enquanto canhões elétricos carregavam nova munição arcana.

Gyodai então abriu parte de sua carne aberrante. Um muco viscoso, fedorento e quente escorreu de seu corpo. A substância grotesca foi aplicada sobre os ferimentos de Glomer e Sir Finley, fechando parcialmente suas feridas.

Sem hesitar, Gyodai estalou os dedos.

— “O espaço se curva diante da evolução do Devorador.”

O Salto Dimensional rasgou o ar.

Gyodai, Kobta e Glomer apareceram instantaneamente sobre o convés do Hidra Helicóide.

No mesmo instante, Beleg puxou a corda do arco até o limite.

— “Benhê… que minha flecha encontre o coração da máquina.”

A tatuagem brilhou novamente.

A flecha de aço-rubi atravessou o céu como um meteoro vermelho e atingiu diretamente a hélice de mitral. O impacto arrancou placas metálicas e fez as engrenagens gritarem num som agudo e desesperador.

Os puristas responderam imediatamente.

Dois canhões dispararam relâmpagos diretamente contra Beleg e Sir Finley. O tabrachi saltou para o alto usando suas patas elásticas de sapo, ficando suspenso no ar enquanto a eletricidade passava abaixo dele.

Então o verdadeiro terror começou.

Centenas de braços mecânicos surgiram das laterais do Helicóide. Hélices afiadas giravam em velocidade absurda enquanto eram disparadas como enxames assassinos.

Gyodai, Glomer e Kobta mal tiveram tempo de reagir.

Os servos mortos-vivos se sacrificaram.

O urubu cadáver de Gyodai avançou primeiro e foi triturado instantaneamente pelas lâminas. As múmias de Kobta e Glomer se jogaram na frente dos golpes seguintes. Corpos ressequidos foram dilacerados, braços arrancados e torsos reduzidos a tiras ensanguentadas antes que as hélices finalmente perdessem força.

As lâminas começaram então a emitir uma luz multicolorida hipnótica.

Sir Finley arregalou os olhos.

Glomer parou completamente.

Ambos ficaram fascinados pela rotação impossível das hélices brilhantes.

Enquanto isso, Kobta desapareceu.

O pequeno amontoado de kobolds ativou seus truques ventanistas e tornou-se invisível. Movendo-se furtivamente entre engrenagens e tubulações, começou a arquitetar uma sabotagem nas máquinas do Helicóide.

Agora o caos dominava completamente os céus.

Gyodai precisava decidir se libertaria sua Legião Aberrante para massacrar os puristas ou se ajudaria Glomer a sair do transe hipnótico.

No Mariposa, Sir Finley permanecia hipnotizado pelas luzes das hélices enquanto Beleg apertava o arco com o coração pesado, lembrando-se da distância que o separava de Benhê.

E acima de todos eles, os céus da guerra rugiam como se Arton inteira estivesse prestes a desabar.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Yuvallin sitiada



Um pouco mais cedo, Gyodai Meduzan Okelamp reapareceu após um longo hiato em um templo dedicado a Aharadak. O local estava tomado por convertidos do Devorador, muitos deles lefou marcados pela Tormenta, criaturas que jamais encontraram pertencimento em lugar algum de Arton. Diante daquela multidão silenciosa, Gyodai ergueu sua voz grave enquanto o braço grotesco de orc mutante pulsava em carne rubra e veias negras.

— “Nós não somos lefeu. Também não somos humanóides. Não temos um lar para chamar de nosso. Aqueles que não nos entendem nos chamam de monstros… mas não somos servos de Megalokk. Somos filhos de Aharadak, o Devorador. E ele está mudando. Está aprendendo com Arton. Está deixando de ser apenas um horror sem rosto.”

Os recém-convertidos observavam em absoluto silêncio.

— “Nós não precisamos agir como feras irracionais. Não precisamos ser aquilo que esperam de nós. Vamos conquistar um lugar neste mundo. Um lugar nosso.”

Gyodai então ergueu o gigantesco braço mutante.

— “Vejam. Nem precisamos ser agressivos. Eu apenas levanto este braço… e multidões caem.”

Talvez fosse o peso da presença de Aharadak. Talvez fosse o cheiro de alguém que claramente não tomava banho há uma semana. Ninguém ousou comentar. Quando Gyodai terminou de falar, um silêncio absoluto dominou o templo. Muitos juraram que naquele instante o próprio Aharadak havia enviado um sinal divino.

***

Beleg teve uma aparição com equipamentos de defesa mais robustos. Uma armadura polida doada pelo Aric e um escudo pequeno de adamante.

Atravessarmos o front de guerra próximo de Yuvallin, vimos um cenário infernal. Fumaça negra cobria muralhas destruídas. Soldados nos reconheceram e imediatamente nos conduziram pelos subterrâneos da cidade.

Lá encontramos Capitã Lislah Céu Negro, clériga de Tenebra e comandante da resistência local. A mulher tinha olhos cansados de quem já vira muitas noites de guerra.

Ela explicou que Yuvallin sofria ataques constantes. Durante a noite, o massacre era muito pior.

Seu navio voador, o Mariposa, usava tecnologia semelhante ao Vento Vasto da Capitã Alurra. Porém, o verdadeiro terror eram os três Navios Espectros Invisíveis criados pelos puristas. Máquinas furtivas impossíveis de detectar, nem mesmo por magia. Eles simplesmente surgiam do nada, despejavam destruição e desapareciam outra vez.

Não havia como invadir Yuvallin diretamente.

Precisávamos agir como guerrilheiros.

Kobta imediatamente se ofereceu para bolar estratégias contra os navios invisíveis. Os cinco kobolds escondidos sob a manta discutiam rapidamente entre si enquanto carregavam pistolas, bacamartes e engenhocas improvisadas.

Partimos rumo às zonas devastadas próximas de Yuvallin. O clima era quente, seco e sufocante. O chão batido estava rachado pelos impactos dos bombardeios e o ar cheirava a pólvora, sangue e fumaça.

Lislah enviou alguns batedores à frente. De repente, uma explosão brutal tomou o caminho. Os soldados simplesmente desapareceram em pedaços de carne, armadura e ossos espalhados pelo terreno.

Então os inimigos surgiram.

Um enorme bando gnoll acompanhado por uma Matrona monstruosa avançou contra nós.

Gyodai abriu suas asas de barata da Tormenta e levantou voo ao lado de Kobta. Disparos vieram imediatamente na direção deles.

— “A carne falha… mas a Tormenta permanece.”

Gyodai conjurou Campo de Força e os projéteis explodiram contra a barreira invisível. Kobta desviava dos tiros com movimentos absurdos, usando sua evasão para escapar como uma sombra viva.

Então Gyodai ergueu as mãos e o ar começou a se distorcer.

— “Que o caos cegue seus caminhos.”

Uma Névoa Sólida tomou o campo de batalha. Os gnolls ficaram lentos, cegos e desorientados dentro da fumaça espessa.

Kobta sacou suas pistolas de tambor de adamante e disparou múltiplas vezes contra a Matrona. Os tiros causaram impactos violentos que empurravam a criatura para trás, mas sua resistência monstruosa absorvia boa parte do dano. Mesmo assim, as balas rasgaram sua pele e fizeram sangue escorrer pelo corpo musculoso.

Ao longe, Sir Finley avançava preparando seu canhão enquanto Beleg assumia posição elevada com o arco em mãos. A tatuagem nas costas do arqueiro começou a brilhar com o rosto de Benhê.

Beleg respirou fundo e seus olhos encontraram o alvo.

— “Benhê… guia minha mira mais uma vez.”

A Concentração em Combate tomou seu corpo. A primeira flecha cruzou o campo de batalha como um trovão e atravessou o ombro de um gnoll, arrancando carne e espalhando sangue pelo chão quente. Outra flecha veio logo em seguida, perfurando um segundo inimigo no abdômen e deixando vísceras balançando para fora.

A Matrona tomou uma poção e latiu ordens furiosas para o bando atacar Kobta.

Os gnolls avançaram pela névoa tentando alvejar os kobolds, mas a fumaça atrapalhava completamente os disparos. Quando um tiro finalmente parecia inevitável, Kobta ativou um Escudo Arcano improvisado e o impacto ricocheteou violentamente para o lado.

Gyodai desapareceu no meio da névoa.

Um instante depois surgiu atrás da Matrona.

— “Aharadak devora os fortes.”

Sob efeito de Velocidade, Gyodai agarrou a criatura e começou a golpeá-la com múltiplos membros deformados. Punhos, garras e cotovelos atingiam ao mesmo tempo. Ossos estalavam. A mandíbula da gnoll rachou enquanto dentes voavam ensanguentados pelo campo de batalha.

Ela apenas rosnava enquanto sangue escorria pelos cantos da boca.

Kobta aproveitou a abertura e disparou novamente. As cinco criaturas escondidas sob a manta descarregaram uma sequência absurda de tiros. O impacto das balas era tão brutal que a Matrona foi empurrada repetidas vezes para trás, afundando no chão batido enquanto o peito e os ombros eram perfurados.

Sir Finley então abriu uma fumaça onírica diante do bando gnoll.

Os inimigos pararam.

Confusos.

Hipnotizados.

A fumaça os envolvia enquanto seus olhos perdiam o foco.

A Matrona tentou reagir e latiu furiosamente contra Gyodai, tentando atrapalhar seus movimentos.

Gyodai respondeu da mesma forma.

Um soco monstruoso atingiu a mandíbula da criatura e arrancou vários dentes de uma vez. Fragmentos de osso e sangue explodiram no ar enquanto a cabeça da gnoll girava violentamente para o lado.

Kobta terminou o serviço.

Os múltiplos tiros perfuraram a Matrona tantas vezes que seu corpo parecia uma peneira ensanguentada. Sangue jorrava dos buracos enquanto ela finalmente desabava no chão, inconsciente e completamente destruída.

O restante do bando ainda permanecia fascinado.

Então Beleg puxou novamente a corda do arco. A tatuagem de Benhê voltou a brilhar intensamente em suas costas.

“Benhê nunca errava. Eu também não.”

A flecha partiu como uma sentença de morte. O disparo atravessou um gnoll no peito, explodindo parte de suas costas em carne dilacerada. Ao verem a líder caída e aquele massacre absoluto, os restantes finalmente perderam a coragem.

Renderam-se.

Após o combate, um dos Kobtas retirou um cálice consagrado de Arsenal. Ele despejou essência de mana no recipiente e ativou suas engenhocas alquímicas. O cálice brilhou intensamente e uma onda de vigor percorreu os aliados, restaurando parte de suas energias mágicas enquanto a guerra por Yuvallin apenas começava.