Voltamos para nossa base em Yuvallin carregando a exaustão de uma guerra que parecia não ter fim. Havíamos derrotado Kor Kovith, destruído navios puristas e rompido parte do cerco que sufocava a cidade, mas a vitória estava longe de ser completa. Ezequias não havia sido encontrado. Quanto mais investigávamos, mais forte se tornava a suspeita de que ele tivesse sido sequestrado pelos puristas.
Mesmo sem seu líder, os puristas não se renderam.
A morte de Kor Kovith havia sido um golpe brutal contra suas forças, mas não fora suficiente para quebrar sua determinação. A guerra continuava, e Yuvallin ainda permanecia cercada por inimigos, segredos e desaparecimentos.
Os Cobra Nova precisavam descansar.
Foi durante esse breve período de repouso que Beleg teve um sonho.
Ou talvez não tivesse sido apenas um sonho.
Beleg se viu em um lugar onde não existia Yuvallin, guerra ou o som dos canhões. Tudo estava silencioso. Então, diante dele, surgiu uma presença conhecida.
Era Zanzertein.
O velho mago falou com a tranquilidade de alguém que continuava pesquisando os mistérios do mundo mesmo enquanto seus companheiros lutavam pela própria sobrevivência.
— Vi tuas lutas, tua dor e tuas preces a Valkaria. Venho lhe mostrar algo que pode mudar teu destino.
Beleg permaneceu em silêncio.
Zanzertein continuou:
— Venho em sonho, pois há escolhas que a alma deve fazer sozinha e porque existem verdades que só podem ser ouvidas quando o corpo descansa e o espírito escuta. Há um arco. Mas ele não é um arco comum. É uma obra de mestres perdidos, forjado com adamante e guiado pela canção da cobra que nunca errou um golpe.
A imagem começou a se formar diante de Beleg.
Um arco.
Seu corpo era feito de adamante, trabalhado com uma precisão impossível. Em sua estrutura havia uma serpente esculpida, e sua boca parecia estar aberta, como se estivesse prestes a cantar.
— Ele é a precisão em sua forma mais pura. Não falha. Não vacila. É como um tenor que alcança a nota exata no momento exato. Por isso o chamam de TENOR. Porque acerta sem falsete.
A cobra do arco começou a emitir uma melodia estranha.
Não era uma música comum.
Era uma canção que parecia encontrar seu próprio caminho através do vazio.
— Ele não é fácil de obter, Beleg, e não é destinado a qualquer seteiro. Ele escolhe aqueles que compreendem que a verdadeira liberdade vem do domínio de si mesmo e da superação dos próprios limites. A cobra em sua boca canta, e de sua canção nascem flechas que encontram o alvo onde outros enxergam apenas sombras e falhas.
Então o tom de Zanzertein mudou.
— Mas cuidado. Sszzas observa aqueles que buscam poder e precisão. Sabedoria sem virtude é veneno para a alma. Tu és seguidor de Valkaria, a deusa da liberdade, dos aventureiros e daqueles que trilham o próprio caminho. Esse arco será teu aliado apenas se tua intenção for pura, teu coração permanecer firme e tua mente continuar livre.
O arco permaneceu suspenso diante de Beleg.
Então veio a pergunta.
— Aceitarás o chamado de Tenor?
Beleg não hesitou. Ergueu a cabeça e respondeu:
— Com minha fé, com minha liberdade, com minha pontaria e com meu nome... ACEITO!
A voz ecoou pelo sonho. E, por um instante, Beleg viu a imagem de Valkaria, majestosa e livre, como se observasse aquela escolha.
Quando acordou, sabia que seu caminho havia mudado. Nos próximos dias um arco chamado Tenor seria alcançado por Beleg.
E ele agora havia respondido ao chamado.
Enquanto Beleg recebia em sonho a promessa de uma nova arma, os demais membros dos Cobra Nova aproveitavam o descanso para se preparar para os perigos que certamente viriam.
Gyodai apresentou suas novas aquisições com a satisfação de quem havia acabado de descobrir novas formas de esmagar seus inimigos.
Um Cinto da Força do Gigante, capaz de ampliar ainda mais sua já monstruosa capacidade física, e um par de Manoplas Energéticas Maciças de Aço-Rubi.
Gyodai havia dado um nome às manoplas.
Devorador Carmesim.
O aço-rubi refletia uma energia ameaçadora, e era fácil imaginar aqueles punhos atravessando armaduras, paredes e costelas quando Gyodai resolvesse partir para cima de alguém.
Sir Finley também havia se preparado.
Seu novo chicote era uma obra impressionante: equilibrado, formidável e feito de aço-rubi, uma arma digna de um assassino capaz de transformar um simples golpe em uma sentença de morte. Além disso, adquiriu Botas Velozes, um Tomo da Inteligência e um Brinco da Inteligência, expandindo ainda mais sua capacidade de analisar seus inimigos e agir antes que eles percebessem o perigo.
Kobta, por sua vez, investiu em equipamentos que combinavam perfeitamente com sua maneira imprevisível de lutar.
Adquiriu Pulseiras da Delicadeza e um novo par de Pistolas de Tambor, equipadas com miras telescópicas, além de serem pungentes, maciças e energéticas.
Era difícil saber o que assustava mais: a precisão das armas ou o fato de que, por trás delas, existiam cinco kobolds escondidos sob uma manta, discutindo entre si quem havia acertado o melhor tiro.
Beleg se apresentou já portando o arco Tenor.
Mas o descanso não duraria.
Sir Finley recebeu uma visita. Diante dele estava Sir Milton, seu antigo tutor e amigo, o homem que, no passado, havia reconhecido o talento do tabrachi e ajudado a moldar parte do guerreiro que ele se tornara.
Sir Milton tinha um pedido. Precisávamos recuperar um objeto. O Fragmento do Coração Negro. Era um pequeno cristal escuro, do tamanho da palma de uma mão, encontrado no interior das antigas Ruínas de Tyrondir.
O nome Tyrondir não era desconhecido. Aquele havia sido o nome de um antigo Lorde da Tormenta, derrotado pelo lendário herói de Arton, Sir Orion Drake, juntamente com seu exército de deuses.
A existência daquele fragmento levantava perguntas perigosas. Seria apenas uma relíquia? Um pedaço de uma criatura derrotada? Ou algo muito pior?
Sir Finley aceitou o chamado. Enquanto isso, longe dali, em Vectora, Zanzertein continuava trabalhando.
Gyodai havia providenciado uma pia de ouro para o mago, e Zanzertein utilizou aquele objeto em um de seus rituais de pesquisa. Concentrando sua energia arcana, ele conjurou uma magia destinada a encontrar respostas nas histórias esquecidas do mundo.
— “Que as memórias do mundo revelem aquilo que os séculos tentaram esconder...”
A magia Lendas e Histórias percorreu os segredos do passado.
Visões surgiram. Ruínas. Pântanos. Pedras antigas. E, finalmente, uma imagem se tornou clara. O Fragmento do Coração Negro estava escondido em uma masmorra localizada em um pântano, nas antigas Ruínas de Tyrondir.
Mas havia algo ainda mais importante. Aquela região era o local onde havia caído um meteoro conhecido como Flecha de Fogo.
Zanzertein encontrou o local. E agora nós tínhamos um novo destino. Enquanto Yuvallin continuava sofrendo com a guerra e Ezequias permanecia desaparecido, um novo mistério nos chamava.
Um cristal negro. As ruínas de Tyrondir, onde havia caído um meteoro chamado Flecha de Fogo. E eu, Gyodai Meduzan Okelamp, já tinha uma sensação muito ruim sobre tudo isso.
O que, naturalmente, significava que provavelmente seria muito divertido.
Texto por Roberto Oliveira.
Revisão por Leandro Carvalho.
Imagens geradas por IA.






