Após uma breve pausa nas trincheiras de Yuvallin, nos preparamos para retornar ao Mariposa. Para isso, precisaríamos atravessar parte das muralhas da cidade, uma região tomada por uma energia negativa tão intensa que parecia infiltrar-se nos ossos. O ar era pesado, carregado de morte e sofrimento acumulados por tempos de guerra.
Enquanto avançávamos entre escombros, crateras e fortificações destruídas, Gyodai percebeu uma figura emergindo lentamente de uma trincheira abandonada. Era uma Mortalha, um espectro envolto em um manto negro esfarrapado que flutuava acima do chão sem produzir qualquer som. O lefou ainda estava parcialmente absorto pelos sussurros de Aharadak e não reagiu a tempo.
A criatura atravessou a distância num instante e estendeu uma mão cadavérica. Seu toque era mais frio que gelo, carregado de energia negativa. A carne mutante de Gyodai escureceu onde foi atingida e a dor percorreu seu corpo como uma descarga de agulhas congeladas. O espectro tentou impor uma maldição ainda pior, mas o lefou resistiu. Então outra Mortalha baixou o olhar para o solo e os restos espalhados pela trincheira começaram a se mover. Fragmentos de carne putrefata, ossos quebrados e terra encharcada de sangue ergueram-se no ar e foram lançados como projéteis contra ele.
Gyodai respondeu instantaneamente. Seu corpo explodiu numa nuvem de baratas aberrantes que absorveram parte do impacto.
— A realidade é apenas uma sugestão! — rugiu enquanto conjurava Campo de Força.
A barreira translúcida absorveu o restante do ataque e finalmente despertou o lefou de sua distração.
A tatuagem de Pitágoras brilhou em seu corpo, irradiando poder sobre seus membros deformados.
— Que a tormenta fortaleça meus punhos e que o impossível se torne comum!
Velocidade envolveu seu corpo enquanto Concentração em Combate aguçava seus reflexos. Num borrão de movimentos, Gyodai avançou sobre a Mortalha. Seus múltiplos braços golpearam o espectro repetidas vezes, rasgando o tecido sobrenatural que o mantinha unido. Um dos golpes atingiu diretamente a região onde deveriam existir olhos, deixando a criatura cega.
Foi então que uma nova ameaça surgiu.
Ao longe, uma luz prateada rompeu a escuridão do campo de batalha. Cabelos prateados dançavam ao vento e olhos verdes brilhavam como esmeraldas. Era Milla.
Seu grimório flutuava ao seu lado, aberto por páginas invisíveis movidas por forças arcanas. Sem sequer pronunciar uma palavra, linhas mágicas quase imperceptíveis partiram do livro e envolveram Beleg.
A magia Marionete tentou assumir controle total de seu corpo.
No instante seguinte, o grimório avançou em direção a Gyodai e tocou sua testa.
— Obedeça.
Runas surgiram ao redor do lefou.
Milla acabara de conjurar Selo de Mana.
Se o poder da magia triunfasse, Gyodai seria incapaz de canalizar energia arcana.
Kobta reagiu imediatamente.
O conjunto de kobolds executou sua tradicional firula inspiradora, bebeu uma poção de velocidade e girou suas pistolas de adamante.
— Se é para acertar uma maga, vamos acertar bem!
As armas rugiram.
As balas encantadas cruzaram o campo de batalha e atingiram Milla com violência. O primeiro disparo a fez recuar no ar. O segundo a lançou para trás como uma boneca arremessada por uma catapulta.
Enquanto isso, Beleg lutava contra o controle mental.
Com toda sua força de vontade, ele rompeu os fios invisíveis da Marionete.
Livre novamente, sacou uma poção de velocidade e a bebeu num único gole. Sua Marca da Presa foi ativada. Emboscar, Mira Apurada, Ponto Fraco e Tiro de Abate foram preparados em sequência.
A tatuagem em suas costas brilhou intensamente.
Mas não era Benhê quem surgia naquele momento.
Era Valkaria.
O rosto da deusa apareceu na pele do arqueiro enquanto energia dourada percorria seu corpo.
— Valkaria, guie minha mão. Benhê me ensinou onde acertar. Você me ensinará por que acertar.
A corda do arco cantou.
A primeira flecha atravessou a Mortalha ao lado de Gyodai.
A segunda atingiu o mesmo alvo com ainda mais força, rasgando sua essência espectral.
Sir Finley aproveitou a abertura.
Analisou rapidamente os pontos vulneráveis da criatura e preparou sua execução.
Seu chicote mágico foi coberto por peçonha concentrada.
O tabrachi girou a arma uma única vez antes de desferir um golpe preciso.
O aço encantado atravessou a Mortalha e o veneno sobrenatural espalhou-se por sua essência, deixando-a à beira da destruição.
Mesmo cega, a criatura tentou retaliar contra Gyodai, mas seus ataques cortaram apenas o vazio.
A segunda Mortalha foi mais eficiente.
Ela alcançou Beleg e drenou parte de sua energia vital. Sombras negras penetraram sua pele e tentaram consumir sua força.
O arqueiro suportou o ataque com determinação.
Sua resistência reduziu parte do dano e ele permaneceu firme.
Kobta então marcou a Mortalha cega como sua presa.
Os disparos seguintes perfuraram a criatura repetidas vezes.
Logo depois, voltou sua atenção para a segunda Mortalha e a atingiu com uma sequência de tiros tão precisa que quase a desintegrou.
Beleg aproveitou a oportunidade.
Apontou novamente seu arco para o alvo marcado.
A flecha atravessou a escuridão e aprofundou ainda mais os ferimentos espirituais da criatura.
Enquanto isso, o veneno aplicado por Sir Finley continuava corroendo a essência da Mortalha cega.
O tabrachi preparou o golpe final.
Sua tatuagem também brilhou nas costas.
Mais uma vez o rosto de Valkaria surgiu.
— Senhora dos caminhos, conduza meu golpe até o fim.
O chicote cortou o ar e atingiu o espectro com força devastadora.
A criatura resistiu por pouco.
As duas Mortalhas fizeram suas últimas tentativas de ataque.
A cega investiu contra Beleg e errou completamente.
A outra concentrou energia negativa no solo e lançou uma tempestade de ossos, pedras e areia diretamente contra o rosto de Gyodai.
O lefou simplesmente inclinou a cabeça para o lado.
O ataque passou por ele.
Então veio o contra-ataque.
Gyodai avançou.
Seus múltiplos braços golpearam as duas criaturas simultaneamente.
Punhos revestidos pelo poder da Tormenta atravessaram os espectros como marretas esmagando vidro.
As Mortalhas explodiram em fragmentos de energia sombria.
Quando a poeira baixou, restavam apenas os mantos negros caídos sobre o chão.
Milla já havia desaparecido.
Nem mesmo seus rastros permaneceram.
Gyodai e Sir Finley recolheram os mantos espectrais.
Pelo toque, ambos perceberam que aqueles tecidos ainda carregavam poder suficiente para servir de matéria-prima para encantamentos raros.
E se Milla estava observando de longe, aquilo significava apenas uma coisa.
Os inimigos já sabiam exatamente onde eles estavam.
Texto por Roberto Oliveira.
Revisão por Leandro Carvalho.
Imagens geradas por IA.
