segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O Chamado de Tenor e o Fragmento do Coração Negro


Voltamos para nossa base em Yuvallin carregando a exaustão de uma guerra que parecia não ter fim. Havíamos derrotado Kor Kovith, destruído navios puristas e rompido parte do cerco que sufocava a cidade, mas a vitória estava longe de ser completa. Ezequias não havia sido encontrado. Quanto mais investigávamos, mais forte se tornava a suspeita de que ele tivesse sido sequestrado pelos puristas.

Mesmo sem seu líder, os puristas não se renderam.

A morte de Kor Kovith havia sido um golpe brutal contra suas forças, mas não fora suficiente para quebrar sua determinação. A guerra continuava, e Yuvallin ainda permanecia cercada por inimigos, segredos e desaparecimentos.

Os Cobra Nova precisavam descansar.

Foi durante esse breve período de repouso que Beleg teve um sonho.

Ou talvez não tivesse sido apenas um sonho.

Beleg se viu em um lugar onde não existia Yuvallin, guerra ou o som dos canhões. Tudo estava silencioso. Então, diante dele, surgiu uma presença conhecida.

Era Zanzertein.

O velho mago falou com a tranquilidade de alguém que continuava pesquisando os mistérios do mundo mesmo enquanto seus companheiros lutavam pela própria sobrevivência.

— Vi tuas lutas, tua dor e tuas preces a Valkaria. Venho lhe mostrar algo que pode mudar teu destino.

Beleg permaneceu em silêncio.

Zanzertein continuou:

— Venho em sonho, pois há escolhas que a alma deve fazer sozinha e porque existem verdades que só podem ser ouvidas quando o corpo descansa e o espírito escuta. Há um arco. Mas ele não é um arco comum. É uma obra de mestres perdidos, forjado com adamante e guiado pela canção da cobra que nunca errou um golpe.

A imagem começou a se formar diante de Beleg.

Um arco.

Seu corpo era feito de adamante, trabalhado com uma precisão impossível. Em sua estrutura havia uma serpente esculpida, e sua boca parecia estar aberta, como se estivesse prestes a cantar.

— Ele é a precisão em sua forma mais pura. Não falha. Não vacila. É como um tenor que alcança a nota exata no momento exato. Por isso o chamam de TENOR. Porque acerta sem falsete.

A cobra do arco começou a emitir uma melodia estranha.

Não era uma música comum.

Era uma canção que parecia encontrar seu próprio caminho através do vazio.

— Ele não é fácil de obter, Beleg, e não é destinado a qualquer seteiro. Ele escolhe aqueles que compreendem que a verdadeira liberdade vem do domínio de si mesmo e da superação dos próprios limites. A cobra em sua boca canta, e de sua canção nascem flechas que encontram o alvo onde outros enxergam apenas sombras e falhas.

Então o tom de Zanzertein mudou.

— Mas cuidado. Sszzas observa aqueles que buscam poder e precisão. Sabedoria sem virtude é veneno para a alma. Tu és seguidor de Valkaria, a deusa da liberdade, dos aventureiros e daqueles que trilham o próprio caminho. Esse arco será teu aliado apenas se tua intenção for pura, teu coração permanecer firme e tua mente continuar livre.

O arco permaneceu suspenso diante de Beleg.

Então veio a pergunta.

— Aceitarás o chamado de Tenor?

Beleg não hesitou. Ergueu a cabeça e respondeu:

— Com minha fé, com minha liberdade, com minha pontaria e com meu nome... ACEITO!

A voz ecoou pelo sonho. E, por um instante, Beleg viu a imagem de Valkaria, majestosa e livre, como se observasse aquela escolha.

Quando acordou, sabia que seu caminho havia mudado. Nos próximos dias um arco chamado Tenor seria alcançado por Beleg.

E ele agora havia respondido ao chamado.

Enquanto Beleg recebia em sonho a promessa de uma nova arma, os demais membros dos Cobra Nova aproveitavam o descanso para se preparar para os perigos que certamente viriam.

Gyodai apresentou suas novas aquisições com a satisfação de quem havia acabado de descobrir novas formas de esmagar seus inimigos.

Um Cinto da Força do Gigante, capaz de ampliar ainda mais sua já monstruosa capacidade física, e um par de Manoplas Energéticas Maciças de Aço-Rubi.

Gyodai havia dado um nome às manoplas.

Devorador Carmesim.

O aço-rubi refletia uma energia ameaçadora, e era fácil imaginar aqueles punhos atravessando armaduras, paredes e costelas quando Gyodai resolvesse partir para cima de alguém.

Sir Finley também havia se preparado.

Seu novo chicote era uma obra impressionante: equilibrado, formidável e feito de aço-rubi, uma arma digna de um assassino capaz de transformar um simples golpe em uma sentença de morte. Além disso, adquiriu Botas Velozes, um Tomo da Inteligência e um Brinco da Inteligência, expandindo ainda mais sua capacidade de analisar seus inimigos e agir antes que eles percebessem o perigo.

Kobta, por sua vez, investiu em equipamentos que combinavam perfeitamente com sua maneira imprevisível de lutar.

Adquiriu Pulseiras da Delicadeza e um novo par de Pistolas de Tambor, equipadas com miras telescópicas, além de serem pungentes, maciças e energéticas.

Era difícil saber o que assustava mais: a precisão das armas ou o fato de que, por trás delas, existiam cinco kobolds escondidos sob uma manta, discutindo entre si quem havia acertado o melhor tiro.

Beleg se apresentou já portando o arco Tenor.

Mas o descanso não duraria.

Sir Finley recebeu uma visita. Diante dele estava Sir Milton, seu antigo tutor e amigo, o homem que, no passado, havia reconhecido o talento do tabrachi e ajudado a moldar parte do guerreiro que ele se tornara.

Sir Milton tinha um pedido. Precisávamos recuperar um objeto. O Fragmento do Coração Negro. Era um pequeno cristal escuro, do tamanho da palma de uma mão, encontrado no interior das antigas Ruínas de Tyrondir.

O nome Tyrondir não era desconhecido. Aquele havia sido o nome de um antigo Lorde da Tormenta, derrotado pelo lendário herói de Arton, Sir Orion Drake, juntamente com seu exército de deuses.

A existência daquele fragmento levantava perguntas perigosas. Seria apenas uma relíquia? Um pedaço de uma criatura derrotada? Ou algo muito pior?

Sir Finley aceitou o chamado. Enquanto isso, longe dali, em Vectora, Zanzertein continuava trabalhando.

Gyodai havia providenciado uma pia de ouro para o mago, e Zanzertein utilizou aquele objeto em um de seus rituais de pesquisa. Concentrando sua energia arcana, ele conjurou uma magia destinada a encontrar respostas nas histórias esquecidas do mundo.

— “Que as memórias do mundo revelem aquilo que os séculos tentaram esconder...”

A magia Lendas e Histórias percorreu os segredos do passado.

Visões surgiram. Ruínas. Pântanos. Pedras antigas. E, finalmente, uma imagem se tornou clara. O Fragmento do Coração Negro estava escondido em uma masmorra localizada em um pântano, nas antigas Ruínas de Tyrondir.

Mas havia algo ainda mais importante. Aquela região era o local onde havia caído um meteoro conhecido como Flecha de Fogo.

Zanzertein encontrou o local. E agora nós tínhamos um novo destino. Enquanto Yuvallin continuava sofrendo com a guerra e Ezequias permanecia desaparecido, um novo mistério nos chamava.

Um cristal negro. As ruínas de Tyrondir, onde havia caído um meteoro chamado Flecha de Fogo. E eu, Gyodai Meduzan Okelamp, já tinha uma sensação muito ruim sobre tudo isso.

O que, naturalmente, significava que provavelmente seria muito divertido.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Príncipe Conrad




Depois de um longo hiato, voltei a sentir aquela velha sensação de estar exatamente onde deveria estar: no meio de uma carnificina. A manada de Berbarans ainda rugia diante de nós, coberta de fogo e ódio, mas já estava enfraquecida. Meus múltiplos membros avançaram como uma tempestade de golpes, enquanto o vampiro que havia invocado descia sobre as criaturas com sua espada longa e suas garras. Cada corte arrancava jorros de sangue incandescente dos monstros, e o chão começava a se transformar em uma mistura de terra, sangue e chamas.

Os Berbarans responderam com seus poderosos sopros. Finley desapareceu em um rolamento e simplesmente deixou as chamas passarem por onde estava. Eu não tive a mesma sorte. Ergui um Campo de Força no último instante, mas o fogo atravessou parcialmente minha defesa e envolveu meu corpo aberrante. Continuei queimando enquanto avançava. Quando aquelas bestas se prepararam para investir novamente contra mim, simplesmente desprezei a realidade. O ataque veio, mas o mundo decidiu que aquela violência não precisava acontecer comigo.

Finley, por sua vez, fez o que sabe fazer melhor. Seu chicote cortou o ar e encontrou a carne dos Berbarans, levando consigo uma dose generosa de seu veneno. Em seguida, lançou uma granada no meio da manada. A explosão fez os monstros gritarem, e o fogo de seus próprios corpos se misturou às chamas provocadas pela explosão. No fim, não havia mais uma manada. Havia apenas cadáveres queimados espalhados pelo chão.

Abri minhas asas de barata, agarrei Finley e saímos voando daquele inferno antes que alguma outra criatura resolvesse nos transformar em churrasco.

Finalmente, o grupo Cobra Nova estava reunido novamente. Bebemos poções, utilizamos o muco para fechar ferimentos e recuperamos o fôlego antes de seguir até os portões da Fundição Central de Yuvallin. O problema era que soldados Puristas patrulhavam a região. Não estávamos interessados em descobrir quantos soldados seriam necessários para nos transformar em peneiras, então preferimos a discrição.

Salto Dimensional.

Num instante estávamos diante dos portões e, no seguinte, já havíamos passado pela guarnição sem que percebessem nossa presença. Continuamos avançando pela parte de dentro da Fundição, até que começamos a ouvir gargalhadas. O ar ficou cada vez mais quente. O calor aumentava a cada passo, até que percebemos que estávamos nos aproximando da área principal da Fundição Central.

Uma sirene começou a tocar. Pessoas corriam desesperadas pelas ruas, tentando escapar daquele lugar. Kobta rapidamente percebeu que o sistema de alerta também interferia na conjuração de magias e tratou de sabotá-lo. Como sempre, quatro kobolds enrolados em uma manta conseguem fazer coisas que deveriam exigir uma equipe inteira de engenheiros.

Com o alarme comprometido, conjurei novamente o Salto Dimensional e transportei o grupo diretamente para dentro da Fundição Central.

Foi então que o encontramos.

O príncipe Conrad Kor Kovith nos aguardava.

Um Osteon completamente deformado pelas próprias convicções, cercado por escravos que trabalhavam sob um calor quase insuportável. As chamas da fundição iluminavam seus ossos enquanto ele nos observava como se tivéssemos acabado de entrar voluntariamente em uma armadilha.

E então ele começou a falar:

- “Minha mente não consegue compreender porque pequenos passarinhos saltitantes entraram de tão bom grado nesta gaiola. Por que desceram do céu ao inferno? Teriam se apaixonado por mim, o Príncipe? Sou tão puro, o mais puro de todos! Purguei minha própria carne nas chamas. Agora cantem, passarinhos. Cantem pela débil Kor Kovith e pela esplenderosa Supremacia. Cantem seus gritos de dor! O Príncipe irá dançar a música de vocês.”

Foi quando percebi que aquele maluco não estava apenas protegendo a fundição. Ele acreditava que aquele lugar era seu palco.

As Correntes de Labaredas de Ódio surgiram e avançaram contra Beleg. O arqueiro tentou escapar, mas Kobta ergueu seu truque de Escudo da Fé e conseguiu impedir que as chamas o ferissem gravemente. Ainda assim, as correntes envolveram Beleg e o prenderam.

Os soldados da fundição começaram a surgir de todos os lados.

Kobta bebeu uma poção de velocidade e realizou sua tradicional firula inspiradora antes de sacar a pistola. O primeiro disparo contra Kor Kovith passou longe do alvo, mas o segundo encontrou um soldado e o impacto do tiro lançou Kobta contra uma parede. Então eu ergui meus braços, e provei que sou um verdadeiro discípulo e filho de Anastácia, conjurando um poderoso feitiço de quarto círculo: "A Tormenta nos mantenham livres - LIBERTAÇÃO!"

Beleg não perdeu tempo. Bebeu sua poção de velocidade e ativou sua Concentração em Combate. A tatuagem em suas costas brilhou, revelando o rosto e o corpo de Valkaria, a deusa dos aventureiros. O arqueiro desapareceu em meio ao caos, emboscou um dos soldados e disparou uma flecha que atravessou sua testa. O homem caiu morto antes mesmo de compreender de onde havia vindo o ataque.

Enquanto isso, Sir Finley avançava na direção dos escravos. Em meio à batalha, ele não havia esquecido o verdadeiro motivo pelo qual estávamos naquela fundição.

Libertá-los.

Kor Kovith, porém, decidiu concentrar sua atenção em Kobta.

O Osteon surgiu diante dos kobolds e disparou contra eles em uma velocidade impressionante. O impacto atingiu seus ossos e os lançou para longe. Antes que pudessem se recuperar, Kor Kovith apareceu novamente diante deles e desferiu um golpe de espada envolto em trevas e chamas. A lâmina atingiu os kobolds e espalhou faíscas pelo chão.

Kobta respondeu.

Dessa vez, o disparo acertou em cheio o tórax do príncipe. A bala penetrou entre as costelas ósseas e o coice da pistola lançou Kor Kovith contra o outro lado da fundição.

Foi nesse momento que a arma amaldiçoada de Kobta tentou sussurrar seu veneno. Queria que os kobolds voltassem suas armas contra mim.

Mas Kobta resistiu.

Os quatro permaneceram unidos e, em vez de obedecer à arma, apontaram novamente suas pistolas para Kor Kovith. Uma sequência de disparos atingiu o Osteon e o lançou contra a parede, quebrando parte de seus ossos.

Eu também entrei na batalha.

Ativei meus poderes da Tormenta e conjurei Velocidade. Minha tatuagem de Pitágoras brilhou enquanto o Armamento da Natureza reforçava meus membros. Aquele combate já havia deixado de ser uma batalha comum. Era uma disputa entre tudo aquilo que Kor Kovith acreditava representar e tudo aquilo que nós havíamos vindo destruir.

Beleg encontrou uma abertura.

Sua flecha atravessou Kor Kovith com precisão brutal, deixando o príncipe ainda mais debilitado. O Osteon cambaleou, seus ossos rachados e seu corpo tomado pelos impactos.

Então Kobta terminou o serviço.

As quatro pistolas foram apontadas simultaneamente.

Os disparos ecoaram pela Fundição Central.

Uma vez.

Duas.

Várias vezes.

As balas atravessaram o corpo de Kor Kovith, quebrando costelas, destruindo articulações e despedaçando aquilo que restava de sua carne. O príncipe tentou permanecer de pé, mas seus ossos já não obedeciam.

Kor Kovith parou.

Completamente.

O grande líder purista da Fundição Central finalmente estava morto e destruído. 

E nós permanecíamos de pé.

A gaiola havia recebido seus primeiros pássaros.

Agora era a vez de Yuvallin cantar.

Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Portões



Enquanto o restante do grupo enfrentava seus próprios desafios pelas ruas devastadas de Yuvallin, Gyodai assumiu a dianteira diante da enorme manada de Berbarams que bloqueava o acesso ao grande portão.

Sem hesitar, o lefou despertou todo o poder da Tormenta que corria por suas veias. Seus punhos foram revestidos pela Empunhadura Rubra, o Visco Rubro escorreu por seus múltiplos membros, sua mente passou a ignorar as limitações da realidade e, por fim, ele ergueu a voz.

— Que a Tormenta rompa os limites da carne! Velocidade em Massa!

Uma onda de energia acelerou seu companheiro anfíbio.

Logo em seguida, seus olhos fixaram-se na manada.

— Nenhum golpe será desperdiçado. Concentração em Combate!

Transformado em um borrão rubro, Gyodai mergulhou entre os elementais e desferiu uma sequência quase impossível de acompanhar. Seus inúmeros braços golpeavam sem cessar, atingindo pescoços, costelas e cabeças flamejantes. No entanto, para sua surpresa, as criaturas suportaram o ataque muito melhor do que imaginava. Apesar da violência dos golpes, a manada permanecia praticamente inteira.

Pela primeira vez naquele confronto, Gyodai percebeu o vigor extraordinário dos Berbarams.

Atrás dele, Sir Finley permaneceu calmo.

Enquanto o lefou mantinha os monstros ocupados, o tabrachi retirou frascos, ervas e venenos de sua bolsa alquímica. Cada substância era aplicada cuidadosamente sobre o Chicote Doutrinador da Cobra Crescente, preparando uma combinação letal para o momento em que os elementais finalmente se aproximassem.

A resposta da manada veio imediatamente.

Os Berbarams abaixaram suas enormes cabeças incandescentes e investiram juntos, transformando o solo numa avalanche de fogo e impacto.

Gyodai apenas sorriu.

Seu corpo tornou-se intocável.

As criaturas atravessaram sua posição enquanto ele simplesmente desprezava a realidade, fazendo a gigantesca investida fracassar completamente.

Muito distante dali, outro combate acontecia sobre os telhados de Yuvallin.

Assim que Nove Dedos surgiu entre as construções, Kobta reagiu sem pensar duas vezes. A pistola de adamante rugiu, mas, para o completo espanto dos cinco kobolds, a bala desacelerou poucos centímetros antes do demônio, perdeu completamente sua força e caiu no chão.

Por alguns instantes, todos permaneceram de boca aberta.

Aquilo simplesmente não fazia sentido.

Nove Dedos abriu um sorriso debochado.

Sacou sua pistola e respondeu imediatamente.

O primeiro disparo voou em direção a Beleg, mas a armadura polida do arqueiro refletiu intensamente a luz ao mesmo tempo em que sua Capa de Arsenal liberava um poderoso Escudo Arcano, desviando completamente o projétil.

O segundo tiro encontrou seu alvo.

Entretanto, antes que a bala pudesse atravessar Beleg, Kobta estendeu a mão.

Seu truque ventanista ergueu um Escudo da Fé, reduzindo drasticamente o impacto, enquanto o próprio arqueiro endurecia seu corpo utilizando seu lendário Durão.

Mesmo ferido, permaneceu firme.

Kobta então respirou fundo.

Executou sua tradicional Firula Inspiradora, ingeriu uma poção de velocidade e utilizou seus conhecimentos para analisar o inimigo.

Após poucos segundos de observação, finalmente compreendeu o motivo daquilo.

— Ele é imune a armas de fogo... também é imune a venenos... e ainda reduz quase todo o dano recebido...

Os cinco kobolds se entreolharam.

Então Kobta virou-se para Beleg.

— Me empresta um arco.

Sem dizer uma palavra, Beleg entregou sua arma reserva ao companheiro.

Em seguida, bebeu sua própria poção de velocidade.

Marcou Nove Dedos como sua presa.

A tatuagem em suas costas irradiou uma intensa luz dourada. A imagem completa de Valkaria, deusa dos aventureiros, surgiu como uma manifestação divina.

Beleg respirou profundamente.

— Valkaria, guia minha mira. Que cada flecha seja um passo rumo à liberdade!

A concentração tornou-se absoluta.

A primeira flecha atravessou o peito do demônio.

Utilizando Emboscar, Beleg disparou novamente antes mesmo que o inimigo pudesse reagir. O segundo disparo foi ainda mais devastador.

Nove Dedos soltou um grito de dor.

A terceira flecha rasgou novamente seu peito.

O demônio recuou cambaleando enquanto lançava uma sequência de impropérios contra o arqueiro.

Nesse instante, novos inimigos surgiram.

Constructos defensivos da cidade abriram fogo.

Um dos enormes canhões disparou contra Kobta.

Os cinco kobolds rolaram pelo chão quase como uma única criatura, reduzindo o impacto a um simples arranhão.

Outro constructo apontou seu canhão para Beleg.

O disparo atingiu violentamente seu flanco, acertando a região do rim. O arqueiro sentiu o sangue escorrer sob a armadura, mas permaneceu de pé.

Quando o segundo tiro veio em sua direção, a Capa de Arsenal respondeu mais uma vez, criando um poderoso Escudo Arcano que bloqueou completamente o impacto.

Enquanto isso, no jardim incendiado, Gyodai concentrou novamente suas energias.

— Que o aço responda ao chamado da Tormenta! Punho de Mitral!

Seu braço transformou-se no metal prateado de fio perfeito.

Logo depois, a tatuagem de Pitágoras brilhou intensamente.

— A própria natureza será minha arma! Armamento da Natureza!

Por um breve instante, porém, o lefou perdeu o ritmo do combate. Seus inúmeros membros se desencontraram e ele acabou ficando momentaneamente desprevenido.

Sir Finley aproveitou para agir.

Analisou cuidadosamente os Berbarams e encontrou seus pontos vulneráveis.

Seu chicote serpenteou pelo ar.

A Peçonha Anciã penetrou profundamente na essência flamejante da manada.

Outra chicotada atingiu novas criaturas, espalhando o veneno entre elas.

Os Berbarams responderam com outra investida devastadora.

A explosão da colisão seria suficiente para atingir tanto Gyodai quanto Sir Finley.

Mas, antes que isso acontecesse, um vulto mergulhou diante deles.

A múmia-urubu que acompanhava Gyodai lançou-se contra a manada, sacrificando completamente seu corpo para absorver a violência do impacto.

Graças ao fiel servo morto-vivo, seu mestre permaneceu ileso.

Nos telhados, as balas explosivas disparadas anteriormente finalmente detonaram no corpo de Beleg.

Mesmo suportando a dor, o arqueiro continuou firme.

Nove Dedos tentou aproveitar a oportunidade.

Abaixou-se para mirar novamente.

Mas o brilho refletido pela armadura de Beleg ofuscou sua visão, fazendo o disparo errar completamente.

Kobta largou o arco por um instante.

Sacou novamente suas pistolas.

Um disparo lançou um dos constructos para longe.

Outro tiro atingiu a máquina antes mesmo que ela pudesse se levantar, destruindo-a completamente.

Beleg voltou a disparar.

Inspirado pela luz de Valkaria, suas flechas atravessaram o corpo de Nove Dedos repetidas vezes.

Outro constructo revelou sua verdadeira natureza.

Tratava-se de uma gigantesca Bateria de Artilharia.

Antes mesmo que conseguisse carregar seu enorme canhão, Kobta foi mais rápido.

Seu disparo arrancou a máquina do chão e a lançou vários metros para trás.

No jardim, Gyodai continuava distribuindo golpes contra toda a manada de Berbarams.

Sir Finley então retirou um pequeno cilindro metálico.

Arremessou-o entre os elementais.

A granada explodiu silenciosamente.

Uma espessa Fumaça Onírica espalhou-se pela região.

Os Berbarams interromperam completamente seus movimentos, ficando fascinados pelas ilusões produzidas pela névoa.

Nove Dedos voltou a atirar.

Mais uma vez Kobta ergueu seu Escudo da Fé, reduzindo o impacto antes que Beleg utilizasse novamente seu Durão para suportar o restante do dano.

Em seguida, Kobta destruiu completamente a Bateria de Artilharia com mais dois disparos precisos.

Guardou então suas pistolas.

Apanhou novamente o arco emprestado por Beleg.

Respirou fundo.

Disparou.

A flecha encontrou o peito de Nove Dedos.

O demônio gritou de dor.

Beleg sorriu discretamente.

Sem lhe dar qualquer oportunidade de reação, disparou uma sequência devastadora de flechas. Os projéteis atravessaram coxas, quadris e glúteos do demônio, obrigando-o a cambalear sob a violência dos impactos.

Do outro lado da cidade, Gyodai retirou uma poção de orientação e bebeu seu conteúdo.

Logo depois abriu um pergaminho antigo.

— Que o sangue antigo desperte. Assobio Perigoso!

Das sombras surgiu um imponente vampiro.

Empunhando uma espada longa, a criatura avançou imediatamente contra a manada de Berbarams, alternando cortes precisos com ataques de suas garras.

Sir Finley acompanhou o ataque.

Seu chicote voltou a estalar enquanto pequenas esporas de cogumelos venenosos eram lançadas entre os elementais, tornando seus movimentos cada vez mais lentos.

Os Berbarams voltaram toda sua atenção para o vampiro invocado.

Conseguiram feri-lo levemente, mas sua postura imponente parecia intimidar até mesmo criaturas feitas de fogo.

Logo depois, lançaram uma gigantesca baforada flamejante contra Gyodai e Sir Finley.

Gyodai simplesmente ignorou o ataque.

Desprezar Realidade fez com que as chamas sequer o alcançassem.

Sir Finley atravessou a explosão com um elegante salto, escapando completamente graças à sua evasão.

Enquanto isso, Kobta finalmente encontrou a abertura perfeita.

Empunhando o arco, disparou uma sequência de flechas cada vez mais precisa.

A última delas atravessou o coração de Nove Dedos.

O demônio cambaleou.

Tentou erguer novamente sua pistola.

Mas seu corpo já não respondia.

Com um último grito de ódio, tombou definitivamente sobre os telhados de Yuvallin.

Gyodai tinha sua atenção para os Berbarams.

Concentrou novamente sua mente.

— Um golpe perfeito encerra qualquer batalha. Concentração em Combate!

Ele e o vampiro atacaram em perfeita sincronia, enquanto Sir Finley surgia pelas sombras para desferir um devastador golpe furtivo de chicote, seguido por mais uma granada alquímica.

A manada continuava sendo consumida lentamente por venenos, cortes e sucessivos impactos.

Quando tentaram reagir, voltaram-se contra o vampiro.

Entretanto, a imponência sobrenatural da criatura drenou completamente sua coragem.

Os Berbarams hesitaram.

E essa pequena hesitação talvez fosse exatamente o que os heróis precisavam para vencer aquele combate.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA.