Yuvallin permanecia fechada para o mundo.
Desde o ataque purista, Ezequias e toda a população da grande metrópole estavam presos dentro das muralhas. Ninguém entrava. Ninguém saía. Todas as noites, os céus eram cortados pelos navios voadores e a cidade recebia novos bombardeios. O primeiro deles havia caído — o Hidra Helicoide fora destruído — mas ainda restavam dois. A guerra estava longe do fim.
Enquanto reorganizávamos os recursos próximos às linhas avançadas, uma procissão surgiu entre as trincheiras. Eram devotos de Tanna-Toh caminhando lentamente e entoando um cântico antigo que despertava algo difícil de explicar. Não era fé, nem coragem. Era curiosidade. Cada nota parecia acender no coração o desejo de compreender, aprender e descobrir.
As órbitas escarlates de Glomer começaram a emitir um brilho mais intenso.
O osteon ficou imóvel observando os sacerdotes e apertou o Olho Dourado que carregava consigo. Havia algo naquele chamado que parecia falar diretamente com sua essência de inventor e devoto do conhecimento. Depois de alguns instantes, tomou sua decisão.
Disse que precisava seguir os sacerdotes até a Caverna do Saber.
Não abandonaria o grupo. Voltaria.
Mas aquele caminho precisava ser percorrido sozinho.
Desejou sorte aos companheiros e, quando se virou para partir, algo parecido com uma lágrima escorreu por uma de suas órbitas vazias. Prometeu retornar.
Então desapareceu acompanhando a procissão.
Pouco tempo depois, fomos içados novamente para o convés do Mariposa.
Era hora de encontrar o próximo navio purista.
Gyodai foi o primeiro a notar que havia algo escondido entre as nuvens. Não enxergava exatamente uma forma, mas um vazio estranho, uma ausência de céu. Sir Finley então esticou a língua e começou a sentir o vento como se estivesse lendo um mapa invisível. Correntes de ar, turbulências e deslocamentos entregavam a direção daquilo que tentava permanecer oculto.
Beleg fechou os olhos e buscou outro caminho.
Cheiro.
Movimento.
Presença.
Seus sentidos encontraram o rastro.
Sir Finley assumiu o leme e conduziu o Mariposa numa perseguição silenciosa até que, finalmente, o inimigo se revelou.
Uma gigantesca esfera de ferro negro rompeu as nuvens.
Não havia velas. Não havia leme.
Canhões apontavam para todas as direções e criaturas aladas carregavam grandes esferas metálicas como plataformas de ataque. Três dragões negros puxavam toda aquela construção através dos céus, enquanto o casco girava lentamente para reposicionar suas baterias.
Kobta reconheceu imediatamente.
Era a Diligência Dracocérbera.
A estratégia ficou clara quase no mesmo instante: romper as correntes que escravizavam os dragões, destruir o núcleo de comando, silenciar a Bateria Equatorial, sabotar o mecanismo de rotação, destruir tubos e conexões e derrotar o almirante antes que aquela fortaleza voadora transformasse o Mariposa em destroços.
Os dragões atacaram primeiro.
Um sopro de trevas atravessou o convés e engoliu o ar ao redor.
Kobta foi o único que conseguiu escapar completamente.
Gyodai ergueu a mão e conjurou Campo de Força, absorvendo parte da energia escura. Beleg firmou o corpo e resistiu usando toda sua resistência, enquanto Kobta o protegia com seu truque de Escudo da Fé. Sir Finley rolou pelo convés para escapar e novamente recebeu cobertura dos kobolds.
Sem perder tempo, Kobta iniciou o contra-ataque.
Bebeu uma poção de velocidade, em seguida uma poção de orientação e executou sua firula inspiradora. Suas pistolas giraram nas mãos e os disparos seguiram diretamente para as correntes que mantinham os dragões presos.
Um dos dragões respondeu imediatamente.
Conjurou Velocidade e liberou uma aura aterradora.
Sir Finley e Beleg sentiram o peso daquela presença esmagando o peito.
Mesmo assim, Beleg avançou.
Bebeu sua própria poção de velocidade, respirou fundo e ergueu o arco.
Nas costas, a tatuagem brilhou.
O corpo de Valkaria apareceu.
Beleg tensionou a corda e pronunciou:
— Minha deusa… guia meus olhos. Valkaria… guia meu disparo. Que minhas flechas encontrem o ponto onde até gigantes aprendem a cair.
A saraivada começou.
Flechas cruzaram os céus e atingiram repetidamente as correntes.
Os Vigias do Sangue Puro avançaram imediatamente para defender os dragões e concentraram seus ataques contra o arqueiro. Beleg resistiu usando Durão enquanto Kobta desviava parte dos ataques com seu Escudo da Fé.
Sir Finley ergueu sua bazuca e disparou contra as correntes, mas os dragões se moveram rápido demais.
Gyodai então abriu um rasgo na realidade.
Salto Dimensional.
Num instante, ele e seus aliados apareceram sobre a própria esfera.
Logo ao chegar, um Capelão da Esfera de Aço surgiu empunhando um enorme martelo de guerra e atacou o lefou. O primeiro golpe passou em falso porque Gyodai parecia ignorar as regras da realidade, mas o segundo o acertou em cheio. Ainda assim, o feiticeiro absorveu o impacto com Campo de Força.
Enquanto isso, os canhões começaram a disparar contra o Mariposa.
Kobta respondeu.
Mais disparos.
A primeira corrente se rompeu.
O dragão libertado rugiu e imediatamente voltou sua fúria contra a própria Diligência Dracocérbera, cobrindo partes do casco com seu sopro sombrio.
Outro dragão reagiu dissipando a velocidade dos kobolds e acelerando o próprio corpo.
Beleg continuou disparando.
Mais rachaduras.
Mais impacto.
Sir Finley avançou com o chicote, mas errou o movimento das correntes oscilando no ar. Tentou então alcançar com a língua e percebeu algo terrível.
Escudos vivos.
Criaturas não humanoides estavam presas ao redor das estruturas.
Escravos usados como proteção.
Gyodai olhou para aquilo e não hesitou.
Seu corpo se deformou.
Conjurou Punho de Mitral.
Golpes sucessivos atingiram metal e corrente até que outra prisão se rompeu.
O segundo dragão ficou livre.
Por um momento todos imaginaram que ele destruiria o navio.
Mas ele apenas olhou para o Mariposa… e avançou em nossa direção.
Gyodai abriu suas asas de barata e voou diretamente para a última corrente.
Kobta acompanhou.
No caminho, usou Tiro de Sentinela e acertou o Capelão da Esfera de Aço, lançando-o para fora da fortaleza voadora.
Então correu.
Alcançou Gyodai.
Disparou.
A última corrente se partiu.
O terceiro dragão ficou imóvel por alguns segundos.
Olhou para os céus.
Olhou para o caos.
E simplesmente foi embora.
Sem os dragões, a Diligência Dracocérbera perdeu toda sua movimentação.
Mas não caiu.
A gigantesca esfera permaneceu suspensa no ar.
Parada.
Esperando.
E agora, finalmente, estava pronta para ser invadida.
Texto por Roberto Oliveira.
Revisão por Leandro Carvalho.
Imagens geradas por IA.


O verdadeiro nome deste título era: Para sempre um Cobra véia: o adeus de Glomer parte II.
ResponderExcluirAs garras da censura e ditadura já alcançaram este Blog. Se lançarem a magia silêncio vou fazer contramágica.