segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O Chamado de Tenor e o Fragmento do Coração Negro


Voltamos para nossa base em Yuvallin carregando a exaustão de uma guerra que parecia não ter fim. Havíamos derrotado Kor Kovith, destruído navios puristas e rompido parte do cerco que sufocava a cidade, mas a vitória estava longe de ser completa. Ezequias não havia sido encontrado. Quanto mais investigávamos, mais forte se tornava a suspeita de que ele tivesse sido sequestrado pelos puristas.

Mesmo sem seu líder, os puristas não se renderam.

A morte de Kor Kovith havia sido um golpe brutal contra suas forças, mas não fora suficiente para quebrar sua determinação. A guerra continuava, e Yuvallin ainda permanecia cercada por inimigos, segredos e desaparecimentos.

Os Cobra Nova precisavam descansar.

Foi durante esse breve período de repouso que Beleg teve um sonho.

Ou talvez não tivesse sido apenas um sonho.

Beleg se viu em um lugar onde não existia Yuvallin, guerra ou o som dos canhões. Tudo estava silencioso. Então, diante dele, surgiu uma presença conhecida.

Era Zanzertein.

O velho mago falou com a tranquilidade de alguém que continuava pesquisando os mistérios do mundo mesmo enquanto seus companheiros lutavam pela própria sobrevivência.

— Vi tuas lutas, tua dor e tuas preces a Valkaria. Venho lhe mostrar algo que pode mudar teu destino.

Beleg permaneceu em silêncio.

Zanzertein continuou:

— Venho em sonho, pois há escolhas que a alma deve fazer sozinha e porque existem verdades que só podem ser ouvidas quando o corpo descansa e o espírito escuta. Há um arco. Mas ele não é um arco comum. É uma obra de mestres perdidos, forjado com adamante e guiado pela canção da cobra que nunca errou um golpe.

A imagem começou a se formar diante de Beleg.

Um arco.

Seu corpo era feito de adamante, trabalhado com uma precisão impossível. Em sua estrutura havia uma serpente esculpida, e sua boca parecia estar aberta, como se estivesse prestes a cantar.

— Ele é a precisão em sua forma mais pura. Não falha. Não vacila. É como um tenor que alcança a nota exata no momento exato. Por isso o chamam de TENOR. Porque acerta sem falsete.

A cobra do arco começou a emitir uma melodia estranha.

Não era uma música comum.

Era uma canção que parecia encontrar seu próprio caminho através do vazio.

— Ele não é fácil de obter, Beleg, e não é destinado a qualquer seteiro. Ele escolhe aqueles que compreendem que a verdadeira liberdade vem do domínio de si mesmo e da superação dos próprios limites. A cobra em sua boca canta, e de sua canção nascem flechas que encontram o alvo onde outros enxergam apenas sombras e falhas.

Então o tom de Zanzertein mudou.

— Mas cuidado. Sszzas observa aqueles que buscam poder e precisão. Sabedoria sem virtude é veneno para a alma. Tu és seguidor de Valkaria, a deusa da liberdade, dos aventureiros e daqueles que trilham o próprio caminho. Esse arco será teu aliado apenas se tua intenção for pura, teu coração permanecer firme e tua mente continuar livre.

O arco permaneceu suspenso diante de Beleg.

Então veio a pergunta.

— Aceitarás o chamado de Tenor?

Beleg não hesitou. Ergueu a cabeça e respondeu:

— Com minha fé, com minha liberdade, com minha pontaria e com meu nome... ACEITO!

A voz ecoou pelo sonho. E, por um instante, Beleg viu a imagem de Valkaria, majestosa e livre, como se observasse aquela escolha.

Quando acordou, sabia que seu caminho havia mudado. Nos próximos dias um arco chamado Tenor seria alcançado por Beleg.

E ele agora havia respondido ao chamado.

Enquanto Beleg recebia em sonho a promessa de uma nova arma, os demais membros dos Cobra Nova aproveitavam o descanso para se preparar para os perigos que certamente viriam.

Gyodai apresentou suas novas aquisições com a satisfação de quem havia acabado de descobrir novas formas de esmagar seus inimigos.

Um Cinto da Força do Gigante, capaz de ampliar ainda mais sua já monstruosa capacidade física, e um par de Manoplas Energéticas Maciças de Aço-Rubi.

Gyodai havia dado um nome às manoplas.

Devorador Carmesim.

O aço-rubi refletia uma energia ameaçadora, e era fácil imaginar aqueles punhos atravessando armaduras, paredes e costelas quando Gyodai resolvesse partir para cima de alguém.

Sir Finley também havia se preparado.

Seu novo chicote era uma obra impressionante: equilibrado, formidável e feito de aço-rubi, uma arma digna de um assassino capaz de transformar um simples golpe em uma sentença de morte. Além disso, adquiriu Botas Velozes, um Tomo da Inteligência e um Brinco da Inteligência, expandindo ainda mais sua capacidade de analisar seus inimigos e agir antes que eles percebessem o perigo.

Kobta, por sua vez, investiu em equipamentos que combinavam perfeitamente com sua maneira imprevisível de lutar.

Adquiriu Pulseiras da Delicadeza e um novo par de Pistolas de Tambor, equipadas com miras telescópicas, além de serem pungentes, maciças e energéticas.

Era difícil saber o que assustava mais: a precisão das armas ou o fato de que, por trás delas, existiam cinco kobolds escondidos sob uma manta, discutindo entre si quem havia acertado o melhor tiro.

Beleg se apresentou já portando o arco Tenor.

Mas o descanso não duraria.

Sir Finley recebeu uma visita. Diante dele estava Sir Milton, seu antigo tutor e amigo, o homem que, no passado, havia reconhecido o talento do tabrachi e ajudado a moldar parte do guerreiro que ele se tornara.

Sir Milton tinha um pedido. Precisávamos recuperar um objeto. O Fragmento do Coração Negro. Era um pequeno cristal escuro, do tamanho da palma de uma mão, encontrado no interior das antigas Ruínas de Tyrondir.

O nome Tyrondir não era desconhecido. Aquele havia sido o nome de um antigo Lorde da Tormenta, derrotado pelo lendário herói de Arton, Sir Orion Drake, juntamente com seu exército de deuses.

A existência daquele fragmento levantava perguntas perigosas. Seria apenas uma relíquia? Um pedaço de uma criatura derrotada? Ou algo muito pior?

Sir Finley aceitou o chamado. Enquanto isso, longe dali, em Vectora, Zanzertein continuava trabalhando.

Gyodai havia providenciado uma pia de ouro para o mago, e Zanzertein utilizou aquele objeto em um de seus rituais de pesquisa. Concentrando sua energia arcana, ele conjurou uma magia destinada a encontrar respostas nas histórias esquecidas do mundo.

— “Que as memórias do mundo revelem aquilo que os séculos tentaram esconder...”

A magia Lendas e Histórias percorreu os segredos do passado.

Visões surgiram. Ruínas. Pântanos. Pedras antigas. E, finalmente, uma imagem se tornou clara. O Fragmento do Coração Negro estava escondido em uma masmorra localizada em um pântano, nas antigas Ruínas de Tyrondir.

Mas havia algo ainda mais importante. Aquela região era o local onde havia caído um meteoro conhecido como Flecha de Fogo.

Zanzertein encontrou o local. E agora nós tínhamos um novo destino. Enquanto Yuvallin continuava sofrendo com a guerra e Ezequias permanecia desaparecido, um novo mistério nos chamava.

Um cristal negro. As ruínas de Tyrondir, onde havia caído um meteoro chamado Flecha de Fogo. E eu, Gyodai Meduzan Okelamp, já tinha uma sensação muito ruim sobre tudo isso.

O que, naturalmente, significava que provavelmente seria muito divertido.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Príncipe Conrad




Depois de um longo hiato, voltei a sentir aquela velha sensação de estar exatamente onde deveria estar: no meio de uma carnificina. A manada de Berbarans ainda rugia diante de nós, coberta de fogo e ódio, mas já estava enfraquecida. Meus múltiplos membros avançaram como uma tempestade de golpes, enquanto o vampiro que havia invocado descia sobre as criaturas com sua espada longa e suas garras. Cada corte arrancava jorros de sangue incandescente dos monstros, e o chão começava a se transformar em uma mistura de terra, sangue e chamas.

Os Berbarans responderam com seus poderosos sopros. Finley desapareceu em um rolamento e simplesmente deixou as chamas passarem por onde estava. Eu não tive a mesma sorte. Ergui um Campo de Força no último instante, mas o fogo atravessou parcialmente minha defesa e envolveu meu corpo aberrante. Continuei queimando enquanto avançava. Quando aquelas bestas se prepararam para investir novamente contra mim, simplesmente desprezei a realidade. O ataque veio, mas o mundo decidiu que aquela violência não precisava acontecer comigo.

Finley, por sua vez, fez o que sabe fazer melhor. Seu chicote cortou o ar e encontrou a carne dos Berbarans, levando consigo uma dose generosa de seu veneno. Em seguida, lançou uma granada no meio da manada. A explosão fez os monstros gritarem, e o fogo de seus próprios corpos se misturou às chamas provocadas pela explosão. No fim, não havia mais uma manada. Havia apenas cadáveres queimados espalhados pelo chão.

Abri minhas asas de barata, agarrei Finley e saímos voando daquele inferno antes que alguma outra criatura resolvesse nos transformar em churrasco.

Finalmente, o grupo Cobra Nova estava reunido novamente. Bebemos poções, utilizamos o muco para fechar ferimentos e recuperamos o fôlego antes de seguir até os portões da Fundição Central de Yuvallin. O problema era que soldados Puristas patrulhavam a região. Não estávamos interessados em descobrir quantos soldados seriam necessários para nos transformar em peneiras, então preferimos a discrição.

Salto Dimensional.

Num instante estávamos diante dos portões e, no seguinte, já havíamos passado pela guarnição sem que percebessem nossa presença. Continuamos avançando pela parte de dentro da Fundição, até que começamos a ouvir gargalhadas. O ar ficou cada vez mais quente. O calor aumentava a cada passo, até que percebemos que estávamos nos aproximando da área principal da Fundição Central.

Uma sirene começou a tocar. Pessoas corriam desesperadas pelas ruas, tentando escapar daquele lugar. Kobta rapidamente percebeu que o sistema de alerta também interferia na conjuração de magias e tratou de sabotá-lo. Como sempre, quatro kobolds enrolados em uma manta conseguem fazer coisas que deveriam exigir uma equipe inteira de engenheiros.

Com o alarme comprometido, conjurei novamente o Salto Dimensional e transportei o grupo diretamente para dentro da Fundição Central.

Foi então que o encontramos.

O príncipe Conrad Kor Kovith nos aguardava.

Um Osteon completamente deformado pelas próprias convicções, cercado por escravos que trabalhavam sob um calor quase insuportável. As chamas da fundição iluminavam seus ossos enquanto ele nos observava como se tivéssemos acabado de entrar voluntariamente em uma armadilha.

E então ele começou a falar:

- “Minha mente não consegue compreender porque pequenos passarinhos saltitantes entraram de tão bom grado nesta gaiola. Por que desceram do céu ao inferno? Teriam se apaixonado por mim, o Príncipe? Sou tão puro, o mais puro de todos! Purguei minha própria carne nas chamas. Agora cantem, passarinhos. Cantem pela débil Kor Kovith e pela esplenderosa Supremacia. Cantem seus gritos de dor! O Príncipe irá dançar a música de vocês.”

Foi quando percebi que aquele maluco não estava apenas protegendo a fundição. Ele acreditava que aquele lugar era seu palco.

As Correntes de Labaredas de Ódio surgiram e avançaram contra Beleg. O arqueiro tentou escapar, mas Kobta ergueu seu truque de Escudo da Fé e conseguiu impedir que as chamas o ferissem gravemente. Ainda assim, as correntes envolveram Beleg e o prenderam.

Os soldados da fundição começaram a surgir de todos os lados.

Kobta bebeu uma poção de velocidade e realizou sua tradicional firula inspiradora antes de sacar a pistola. O primeiro disparo contra Kor Kovith passou longe do alvo, mas o segundo encontrou um soldado e o impacto do tiro lançou Kobta contra uma parede. Então eu ergui meus braços, e provei que sou um verdadeiro discípulo e filho de Anastácia, conjurando um poderoso feitiço de quarto círculo: "A Tormenta nos mantenham livres - LIBERTAÇÃO!"

Beleg não perdeu tempo. Bebeu sua poção de velocidade e ativou sua Concentração em Combate. A tatuagem em suas costas brilhou, revelando o rosto e o corpo de Valkaria, a deusa dos aventureiros. O arqueiro desapareceu em meio ao caos, emboscou um dos soldados e disparou uma flecha que atravessou sua testa. O homem caiu morto antes mesmo de compreender de onde havia vindo o ataque.

Enquanto isso, Sir Finley avançava na direção dos escravos. Em meio à batalha, ele não havia esquecido o verdadeiro motivo pelo qual estávamos naquela fundição.

Libertá-los.

Kor Kovith, porém, decidiu concentrar sua atenção em Kobta.

O Osteon surgiu diante dos kobolds e disparou contra eles em uma velocidade impressionante. O impacto atingiu seus ossos e os lançou para longe. Antes que pudessem se recuperar, Kor Kovith apareceu novamente diante deles e desferiu um golpe de espada envolto em trevas e chamas. A lâmina atingiu os kobolds e espalhou faíscas pelo chão.

Kobta respondeu.

Dessa vez, o disparo acertou em cheio o tórax do príncipe. A bala penetrou entre as costelas ósseas e o coice da pistola lançou Kor Kovith contra o outro lado da fundição.

Foi nesse momento que a arma amaldiçoada de Kobta tentou sussurrar seu veneno. Queria que os kobolds voltassem suas armas contra mim.

Mas Kobta resistiu.

Os quatro permaneceram unidos e, em vez de obedecer à arma, apontaram novamente suas pistolas para Kor Kovith. Uma sequência de disparos atingiu o Osteon e o lançou contra a parede, quebrando parte de seus ossos.

Eu também entrei na batalha.

Ativei meus poderes da Tormenta e conjurei Velocidade. Minha tatuagem de Pitágoras brilhou enquanto o Armamento da Natureza reforçava meus membros. Aquele combate já havia deixado de ser uma batalha comum. Era uma disputa entre tudo aquilo que Kor Kovith acreditava representar e tudo aquilo que nós havíamos vindo destruir.

Beleg encontrou uma abertura.

Sua flecha atravessou Kor Kovith com precisão brutal, deixando o príncipe ainda mais debilitado. O Osteon cambaleou, seus ossos rachados e seu corpo tomado pelos impactos.

Então Kobta terminou o serviço.

As quatro pistolas foram apontadas simultaneamente.

Os disparos ecoaram pela Fundição Central.

Uma vez.

Duas.

Várias vezes.

As balas atravessaram o corpo de Kor Kovith, quebrando costelas, destruindo articulações e despedaçando aquilo que restava de sua carne. O príncipe tentou permanecer de pé, mas seus ossos já não obedeciam.

Kor Kovith parou.

Completamente.

O grande líder purista da Fundição Central finalmente estava morto e destruído. 

E nós permanecíamos de pé.

A gaiola havia recebido seus primeiros pássaros.

Agora era a vez de Yuvallin cantar.

Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Portões



Enquanto o restante do grupo enfrentava seus próprios desafios pelas ruas devastadas de Yuvallin, Gyodai assumiu a dianteira diante da enorme manada de Berbarams que bloqueava o acesso ao grande portão.

Sem hesitar, o lefou despertou todo o poder da Tormenta que corria por suas veias. Seus punhos foram revestidos pela Empunhadura Rubra, o Visco Rubro escorreu por seus múltiplos membros, sua mente passou a ignorar as limitações da realidade e, por fim, ele ergueu a voz.

— Que a Tormenta rompa os limites da carne! Velocidade em Massa!

Uma onda de energia acelerou seu companheiro anfíbio.

Logo em seguida, seus olhos fixaram-se na manada.

— Nenhum golpe será desperdiçado. Concentração em Combate!

Transformado em um borrão rubro, Gyodai mergulhou entre os elementais e desferiu uma sequência quase impossível de acompanhar. Seus inúmeros braços golpeavam sem cessar, atingindo pescoços, costelas e cabeças flamejantes. No entanto, para sua surpresa, as criaturas suportaram o ataque muito melhor do que imaginava. Apesar da violência dos golpes, a manada permanecia praticamente inteira.

Pela primeira vez naquele confronto, Gyodai percebeu o vigor extraordinário dos Berbarams.

Atrás dele, Sir Finley permaneceu calmo.

Enquanto o lefou mantinha os monstros ocupados, o tabrachi retirou frascos, ervas e venenos de sua bolsa alquímica. Cada substância era aplicada cuidadosamente sobre o Chicote Doutrinador da Cobra Crescente, preparando uma combinação letal para o momento em que os elementais finalmente se aproximassem.

A resposta da manada veio imediatamente.

Os Berbarams abaixaram suas enormes cabeças incandescentes e investiram juntos, transformando o solo numa avalanche de fogo e impacto.

Gyodai apenas sorriu.

Seu corpo tornou-se intocável.

As criaturas atravessaram sua posição enquanto ele simplesmente desprezava a realidade, fazendo a gigantesca investida fracassar completamente.

Muito distante dali, outro combate acontecia sobre os telhados de Yuvallin.

Assim que Nove Dedos surgiu entre as construções, Kobta reagiu sem pensar duas vezes. A pistola de adamante rugiu, mas, para o completo espanto dos cinco kobolds, a bala desacelerou poucos centímetros antes do demônio, perdeu completamente sua força e caiu no chão.

Por alguns instantes, todos permaneceram de boca aberta.

Aquilo simplesmente não fazia sentido.

Nove Dedos abriu um sorriso debochado.

Sacou sua pistola e respondeu imediatamente.

O primeiro disparo voou em direção a Beleg, mas a armadura polida do arqueiro refletiu intensamente a luz ao mesmo tempo em que sua Capa de Arsenal liberava um poderoso Escudo Arcano, desviando completamente o projétil.

O segundo tiro encontrou seu alvo.

Entretanto, antes que a bala pudesse atravessar Beleg, Kobta estendeu a mão.

Seu truque ventanista ergueu um Escudo da Fé, reduzindo drasticamente o impacto, enquanto o próprio arqueiro endurecia seu corpo utilizando seu lendário Durão.

Mesmo ferido, permaneceu firme.

Kobta então respirou fundo.

Executou sua tradicional Firula Inspiradora, ingeriu uma poção de velocidade e utilizou seus conhecimentos para analisar o inimigo.

Após poucos segundos de observação, finalmente compreendeu o motivo daquilo.

— Ele é imune a armas de fogo... também é imune a venenos... e ainda reduz quase todo o dano recebido...

Os cinco kobolds se entreolharam.

Então Kobta virou-se para Beleg.

— Me empresta um arco.

Sem dizer uma palavra, Beleg entregou sua arma reserva ao companheiro.

Em seguida, bebeu sua própria poção de velocidade.

Marcou Nove Dedos como sua presa.

A tatuagem em suas costas irradiou uma intensa luz dourada. A imagem completa de Valkaria, deusa dos aventureiros, surgiu como uma manifestação divina.

Beleg respirou profundamente.

— Valkaria, guia minha mira. Que cada flecha seja um passo rumo à liberdade!

A concentração tornou-se absoluta.

A primeira flecha atravessou o peito do demônio.

Utilizando Emboscar, Beleg disparou novamente antes mesmo que o inimigo pudesse reagir. O segundo disparo foi ainda mais devastador.

Nove Dedos soltou um grito de dor.

A terceira flecha rasgou novamente seu peito.

O demônio recuou cambaleando enquanto lançava uma sequência de impropérios contra o arqueiro.

Nesse instante, novos inimigos surgiram.

Constructos defensivos da cidade abriram fogo.

Um dos enormes canhões disparou contra Kobta.

Os cinco kobolds rolaram pelo chão quase como uma única criatura, reduzindo o impacto a um simples arranhão.

Outro constructo apontou seu canhão para Beleg.

O disparo atingiu violentamente seu flanco, acertando a região do rim. O arqueiro sentiu o sangue escorrer sob a armadura, mas permaneceu de pé.

Quando o segundo tiro veio em sua direção, a Capa de Arsenal respondeu mais uma vez, criando um poderoso Escudo Arcano que bloqueou completamente o impacto.

Enquanto isso, no jardim incendiado, Gyodai concentrou novamente suas energias.

— Que o aço responda ao chamado da Tormenta! Punho de Mitral!

Seu braço transformou-se no metal prateado de fio perfeito.

Logo depois, a tatuagem de Pitágoras brilhou intensamente.

— A própria natureza será minha arma! Armamento da Natureza!

Por um breve instante, porém, o lefou perdeu o ritmo do combate. Seus inúmeros membros se desencontraram e ele acabou ficando momentaneamente desprevenido.

Sir Finley aproveitou para agir.

Analisou cuidadosamente os Berbarams e encontrou seus pontos vulneráveis.

Seu chicote serpenteou pelo ar.

A Peçonha Anciã penetrou profundamente na essência flamejante da manada.

Outra chicotada atingiu novas criaturas, espalhando o veneno entre elas.

Os Berbarams responderam com outra investida devastadora.

A explosão da colisão seria suficiente para atingir tanto Gyodai quanto Sir Finley.

Mas, antes que isso acontecesse, um vulto mergulhou diante deles.

A múmia-urubu que acompanhava Gyodai lançou-se contra a manada, sacrificando completamente seu corpo para absorver a violência do impacto.

Graças ao fiel servo morto-vivo, seu mestre permaneceu ileso.

Nos telhados, as balas explosivas disparadas anteriormente finalmente detonaram no corpo de Beleg.

Mesmo suportando a dor, o arqueiro continuou firme.

Nove Dedos tentou aproveitar a oportunidade.

Abaixou-se para mirar novamente.

Mas o brilho refletido pela armadura de Beleg ofuscou sua visão, fazendo o disparo errar completamente.

Kobta largou o arco por um instante.

Sacou novamente suas pistolas.

Um disparo lançou um dos constructos para longe.

Outro tiro atingiu a máquina antes mesmo que ela pudesse se levantar, destruindo-a completamente.

Beleg voltou a disparar.

Inspirado pela luz de Valkaria, suas flechas atravessaram o corpo de Nove Dedos repetidas vezes.

Outro constructo revelou sua verdadeira natureza.

Tratava-se de uma gigantesca Bateria de Artilharia.

Antes mesmo que conseguisse carregar seu enorme canhão, Kobta foi mais rápido.

Seu disparo arrancou a máquina do chão e a lançou vários metros para trás.

No jardim, Gyodai continuava distribuindo golpes contra toda a manada de Berbarams.

Sir Finley então retirou um pequeno cilindro metálico.

Arremessou-o entre os elementais.

A granada explodiu silenciosamente.

Uma espessa Fumaça Onírica espalhou-se pela região.

Os Berbarams interromperam completamente seus movimentos, ficando fascinados pelas ilusões produzidas pela névoa.

Nove Dedos voltou a atirar.

Mais uma vez Kobta ergueu seu Escudo da Fé, reduzindo o impacto antes que Beleg utilizasse novamente seu Durão para suportar o restante do dano.

Em seguida, Kobta destruiu completamente a Bateria de Artilharia com mais dois disparos precisos.

Guardou então suas pistolas.

Apanhou novamente o arco emprestado por Beleg.

Respirou fundo.

Disparou.

A flecha encontrou o peito de Nove Dedos.

O demônio gritou de dor.

Beleg sorriu discretamente.

Sem lhe dar qualquer oportunidade de reação, disparou uma sequência devastadora de flechas. Os projéteis atravessaram coxas, quadris e glúteos do demônio, obrigando-o a cambalear sob a violência dos impactos.

Do outro lado da cidade, Gyodai retirou uma poção de orientação e bebeu seu conteúdo.

Logo depois abriu um pergaminho antigo.

— Que o sangue antigo desperte. Assobio Perigoso!

Das sombras surgiu um imponente vampiro.

Empunhando uma espada longa, a criatura avançou imediatamente contra a manada de Berbarams, alternando cortes precisos com ataques de suas garras.

Sir Finley acompanhou o ataque.

Seu chicote voltou a estalar enquanto pequenas esporas de cogumelos venenosos eram lançadas entre os elementais, tornando seus movimentos cada vez mais lentos.

Os Berbarams voltaram toda sua atenção para o vampiro invocado.

Conseguiram feri-lo levemente, mas sua postura imponente parecia intimidar até mesmo criaturas feitas de fogo.

Logo depois, lançaram uma gigantesca baforada flamejante contra Gyodai e Sir Finley.

Gyodai simplesmente ignorou o ataque.

Desprezar Realidade fez com que as chamas sequer o alcançassem.

Sir Finley atravessou a explosão com um elegante salto, escapando completamente graças à sua evasão.

Enquanto isso, Kobta finalmente encontrou a abertura perfeita.

Empunhando o arco, disparou uma sequência de flechas cada vez mais precisa.

A última delas atravessou o coração de Nove Dedos.

O demônio cambaleou.

Tentou erguer novamente sua pistola.

Mas seu corpo já não respondia.

Com um último grito de ódio, tombou definitivamente sobre os telhados de Yuvallin.

Gyodai tinha sua atenção para os Berbarams.

Concentrou novamente sua mente.

— Um golpe perfeito encerra qualquer batalha. Concentração em Combate!

Ele e o vampiro atacaram em perfeita sincronia, enquanto Sir Finley surgia pelas sombras para desferir um devastador golpe furtivo de chicote, seguido por mais uma granada alquímica.

A manada continuava sendo consumida lentamente por venenos, cortes e sucessivos impactos.

Quando tentaram reagir, voltaram-se contra o vampiro.

Entretanto, a imponência sobrenatural da criatura drenou completamente sua coragem.

Os Berbarams hesitaram.

E essa pequena hesitação talvez fosse exatamente o que os heróis precisavam para vencer aquele combate.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Fuga e Fogo



Os Kobta oculto sob a manta caíram no Distrito do Carvão, uma vasta região de fazendas, pastagens e depósitos de lenha que alimentavam os fornos de Yuvallin. O plano inicial era atravessar as estufas, mas, ao perceberem a intensa movimentação de patrulhas, decidiram contornar toda a área para permanecerem invisíveis.

Mesmo escondidos pelo truque ventanista que simulava invisibilidade, um constructo de vigilância interrompeu sua ronda. Seus olhos metálicos percorreram lentamente os campos, procurando qualquer anomalia. Kobta buscou rapidamente algum animal do pasto para provocar uma distração, mas encontrou apenas currais vazios e cercas destruídas pela guerra. Sem outra alternativa, conduziu silenciosamente seus quatro irmãos entre montes de carvão e carroças abandonadas. Cada passo era calculado com precisão absoluta. O constructo passou a poucos metros deles, mas os kobolds permaneceram completamente despercebidos, desaparecendo nas sombras do distrito sem deixar qualquer vestígio.

Enquanto isso, Gyodai e Sir Finley caíram em outra região da cidade. O lugar um dia fora um belo jardim público, mas agora restavam apenas árvores carbonizadas, estátuas quebradas e canteiros consumidos pelas chamas. Atrás deles, um incêndio gigantesco devorava tudo, tornando impossível qualquer retirada. Restava apenas seguir em frente.

Sir Finley aproveitou aqueles breves instantes para preparar sua arma. Espalhou cuidadosamente sua peçonha concentrada sobre o chicote, deixando cada elo impregnado com um veneno mortal.

Logo adiante, um touro completamente envolto em fogo atravessou o jardim em disparada. A criatura sequer olhou para eles, fugindo desesperadamente das próprias labaredas que consumiam a região. No entanto, seu aparecimento foi apenas o prenúncio do verdadeiro perigo.

Das tubulações rompidas do sistema de aquecimento começaram a emergir enormes elementais de fogo. Durante décadas, aquelas criaturas haviam alimentado os fornos subterrâneos de Yuvallin. Agora, com todo o mecanismo destruído pelos combates, vagavam livres e enfurecidas.

O primeiro deles assumia a forma de um gigantesco boi flamejante.

Berbaram abaixou a cabeça e investiu violentamente contra Sir Finley. A marrada incendiária explodiu ao atingir o solo, levantando uma onda de fogo. O tabrachi executou um rolamento defensivo para absorver parte do impacto e, antes que as chamas o envolvessem, saltou para o lado com sua extraordinária evasão, escapando praticamente ileso.

Gyodai abriu um largo sorriso.

As marcas da Tormenta espalharam-se por seu corpo, seus punhos adquiriram o característico tom rubro e seus inúmeros membros começaram a se mover em perfeita sincronia.

— A Tormenta não conhece limites. Que o impossível seja apenas mais uma ilusão!

Sob o efeito de Velocidade em Massa, Concentração em Combate e Desprezar Realidade, o lefou desapareceu diante dos olhos dos elementais e surgiu sobre Berbaram. Uma sequência devastadora de golpes caiu sobre o corpo ígneo da criatura, espalhando brasas e lava líquida pelo jardim destruído.

Sir Finley estudou cuidadosamente os movimentos do elemental.

Com a serenidade de um verdadeiro assassino, analisou seus pontos vulneráveis e concentrou sua mente.

— Valkaria, conduza minhas mãos. Onde houver um caminho para a vitória, meu golpe o encontrará.

A tatuagem em suas costas irradiou a imagem completa de Valkaria enquanto sua concentração atingia o máximo.

Seu chicote serpenteou pelo ar e atingiu Berbaram em cheio.

O impacto fez jorrar sangue de lava sobre o tabrachi, mas, com uma rápida cambalhota, ele evitou ser atingido. O veneno especial começou imediatamente a percorrer a essência elemental da criatura, corroendo seu núcleo de energia.

Sem perder tempo, Sir Finley espalhou parte daquela toxina sobre a manopla de Gyodai.

Berbaram rugiu.

Uma torrente de fogo saiu de sua boca, varrendo o campo de batalha. Sir Finley escapou novamente graças à sua evasão, enquanto Gyodai suportou parte das chamas. Aproveitando o impulso do sopro, o elemental avançou e acertou violentamente a lateral da cabeça do tabrachi. O golpe atingiu seu ouvido, deixando-o temporariamente surdo.

Gyodai respondeu imediatamente.

Seus múltiplos braços desferiram uma chuva de socos sobre o Berbaram responsável pelo ataque. Os impactos rasgaram o corpo flamejante da criatura até que ela finalmente se dissipou em cinzas incandescentes.

Outro Berbaram avançou em seguida.

Gyodai ergueu uma barreira mágica.

— A realidade não me alcança. Campo de Força!

A investida explodiu contra a barreira invisível sem conseguir atravessá-la.

Sir Finley aproveitou a abertura. Seu chicote da Cobra Crescente envolveu o elemental enquanto o veneno penetrava novamente em sua essência ardente.

Com a velocidade ampliada pela magia, Gyodai tornou-se praticamente impossível de acompanhar. Seus punhos envenenados atingiram Berbaram dezenas de vezes em poucos segundos. A criatura enfraquecia a cada impacto.

Ainda assim, o elemental lançou outra explosão de fogo.

Gyodai ergueu novamente sua proteção mágica.

— Que a Tormenta esmague as leis do mundo! Campo de Força!

A barreira absorveu toda a explosão.

Sir Finley atravessou as chamas com um salto acrobático, escapando mais uma vez graças à sua evasão.

Berbaram tentou sua última marrada desesperada.

Outra vez encontrou apenas a barreira invisível criada pelo lefou.

Logo depois, Gyodai e Sir Finley avançaram juntos.

Os socos monstruosos do filho da Tormenta e o chicote venenoso do tabrachi atingiram o elemental simultaneamente. O núcleo de fogo da criatura se rompeu, espalhando uma chuva de brasas pelo antigo jardim.

O silêncio voltou ao campo de batalha.

Muito distante dali, Beleg enfrentava um adversário completamente diferente.

Das sombras surgiu um demônio conhecido como Nove Dedos, uma criatura famosa por negociar destinos e corromper guerreiros.

Com um sorriso debochado, ele ergueu sua pistola.

— Ainda há tempo de abandonar esse arco. A pólvora é o futuro.

Beleg respondeu apenas esticando lentamente a corda de seu arco.

O duelo começou.

Três disparos ecoaram quase ao mesmo tempo.

As balas atingiram o arqueiro com violência, mas Beleg endureceu todo o corpo utilizando sua resistência sobre-humana. Mesmo ferido, permaneceu firme.

Então respirou profundamente.

A tatuagem em suas costas brilhou intensamente, revelando a imagem completa de Valkaria, deusa dos aventureiros, irradiando luz dourada.

Beleg declarou:

— Valkaria, que minha flecha atravesse o medo e abra o caminho da liberdade!

Sua concentração tornou-se absoluta.

A primeira flecha atravessou o peito do demônio, marcando-o como sua presa.

Usando a técnica Emboscar, disparou uma segunda flecha antes que o inimigo pudesse reagir.

A terceira veio logo em seguida, rasgando novamente a carne demoníaca e obrigando Nove Dedos a recuar.

Mas havia uma armadilha.

As balas que haviam atingido Beleg explodiram repentinamente em seu corpo.

No mesmo instante, Nove Dedos realizou outro disparo, destinado a matá-lo.

Antes que o projétil o alcançasse, porém, a múmia mestra lançou-se diante do arqueiro.

O disparo atravessou o morto-vivo, poupando Beleg de um golpe fatal.

Sem perder tempo, o arqueiro escalou rapidamente uma construção usando sua agilidade. Lá do alto encontrou uma porta entreaberta que conduzia a um abrigo improvisado.

Diversos moradores de Yuvallin permaneciam escondidos ali, tentando sobreviver ao domínio purista.

Beleg ingeriu uma poção de Campo de Força, reforçando suas defesas.

Percebendo que Nove Dedos continuava em seu encalço, abandonou imediatamente aquele esconderijo, atravessou outra passagem estreita e desapareceu entre as construções.

O demônio vasculhou a região por vários minutos.

Sem conseguir encontrá-lo, desistiu da perseguição e foi embora.

Pouco depois, os caminhos finalmente voltaram a se cruzar.

Gyodai e Sir Finley chegaram diante de um gigantesco portão de ferro que parecia proteger uma das áreas centrais de Yuvallin.

Instantes depois, Beleg surgiu pelo lado oposto.

Kobta também emergiu silenciosamente das sombras do Distrito do Carvão.

No entanto, eles não estavam sozinhos.

À frente do grande portão aguardava uma verdadeira manada de Berbarams, espalhando calor sufocante por toda a praça. Entre eles, Nove Dedos reapareceu girando lentamente sua pistola enquanto sorria para Beleg.

O silêncio que se instalou durou apenas alguns segundos.

Todos perceberam a mesma coisa.

Aquele portão era importante demais para estar protegido apenas por aqueles inimigos.

Se a lógica dos puristas permanecesse a mesma, havia grandes chances de que um adversário muito mais poderoso estivesse esperando do outro lado.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Al Mirante



Antes de qualquer retirada, Kobta avistou o almirante voando a quase trinta metros de distância. Os cinco kobolds respiraram em uníssono enquanto seus olhos acompanhavam a trajetória do inimigo. Então, o ventanista marcou seu alvo.

O primeiro disparo encontrou exatamente o ponto vulnerável da armadura. O projétil de adamante atravessou a proteção metálica, arrancando um urro de dor que ecoou pelos céus. Enquanto o oficial tentava recuperar o equilíbrio, Kobta percebeu o broche preso ao peito de sua armadura.

Não era um simples capitão.

Era um almirante purista.

Sem desperdiçar um único instante, Kobta disparou novamente. A segunda bala o lançou para trás como se tivesse sido atingido por um aríete invisível. Antes mesmo que pudesse reagir, vieram o terceiro e o quarto tiros. Cada impacto empurrava o almirante cada vez mais para longe, até que o último projétil atravessou seu corpo e encerrou definitivamente sua vida. O cadáver despencou do céu enquanto a armadura fumegava, derrotada pela precisão quase sobrenatural do pistoleiro kobold.

Enquanto isso, isolado na Área de Tormenta, Gyodai continuava seu duelo contra Exarca.

O lefou encarou a criatura e, mesmo cercado pela influência de Aharadak, abriu um sorriso estranho antes de falar:

— Exarca... na minha última noite de sono eu tive um sonho. Vi um druida transformado em um louva-a-deus metálico, atacando com enormes pinças em forma de navalha. Não faço ideia do que isso significa... mas D.A.I.L.E.O.N., me ajude!

Logo após a estranha invocação, seus inúmeros membros aberrantes envolveram Exarca. Os braços extras prenderam a criatura com força suficiente para esmagar aço, enquanto seus punhos deformados desferiam uma sequência brutal de golpes. Exarca resistia como poucas criaturas conseguiam, suportando cada impacto graças à sua natureza lefeu.

A resposta veio imediatamente.

A criatura golpeou com sua adaga envenenada, mas Gyodai ergueu a mão envolta em energia e bradou:

— Que a própria realidade se curve diante da Tormenta! Campo de Força!

A lâmina ricocheteou na barreira mágica.

Exarca então tentou rasgar o lefou com suas garras, mas perdeu o equilíbrio durante o movimento. O erro foi suficiente para comprometer toda a sequência de ataques, desperdiçando a oportunidade de inverter o combate.

Do lado de fora do templo, Sir Finley continuava sabotando o gigantesco encouraçado voador. Observando cuidadosamente a estrutura interna do Corvo de Krauser, encontrou outra tubulação responsável por alimentar os mecanismos do navio.

Seu chicote de aço-rubi serpenteou pelo ar.

— Vamos ver se vocês gostam de um pouco de disciplina...

O Chicote Doutrinador da Cobra Crescente estalou violentamente, abrindo uma longa rachadura na tubulação.

Beleg percebeu imediatamente a abertura criada pelo companheiro. Ergueu seu arco de aço-rubi enquanto a tatuagem em suas costas irradiava luz dourada. A imagem completa de Valkaria, deusa dos aventureiros, manifestou-se como se observasse o arqueiro.

Beleg respirou fundo e declarou:

— Valkaria, guia minha mira. Que minha flecha abra o caminho daqueles que jamais deixam de avançar!

Sua concentração tornou-se absoluta.

A flecha atravessou exatamente a rachadura criada por Sir Finley e destruiu completamente a tubulação, fazendo energia mágica escapar em violentas explosões.

Kobta não desperdiçou a oportunidade. Assim que encontrou outra conexão estrutural, descarregou suas pistolas de adamante contra ela. As engrenagens explodiram, pedaços de metal voaram em todas as direções e outra parte vital do encouraçado foi destruída.

Dentro do templo de Aharadak, Gyodai aproveitou o desequilíbrio do adversário.

Mantendo Exarca firmemente agarrado com seus membros aberrantes, o lefou desferiu uma sequência devastadora de socos. Ossos se partiram, quitina rachou e, por fim, a criatura tombou sem vida.

Quando o manto negro escorregou de seu corpo, sua verdadeira forma foi revelada.

Exarca era um Reishid, uma criatura de aspecto insetoide, dotada de grandes asas membranosas e deformações típicas da Tormenta. Ainda assim, aos olhos de Gyodai, não era nem de longe tão monstruoso quanto ele próprio.

O lefou recolheu os espólios com calma.

Uma adaga da Tormenta.

Uma bolsa corrompida pelas energias lefeu.

Dentro dela, encontrou uma valiosa tornozeleira encantada.

Além disso, Exarca utilizava uma armadura completa reforçada, perfeitamente ajustada ao seu corpo, cuidadosamente polida e cravejada de gemas.

Todos aqueles equipamentos seriam levados para venda após o término da campanha militar.

Com o Corvo de Krauser agora reduzido a uma distração, Capitã Lislah apresentou a etapa seguinte da operação.

Não era possível utilizar teleporte para atravessar as barreiras mágicas que protegiam Yuvallin.

A única alternativa seria uma infiltração.

Enquanto o Corvo de Krauser atraísse a atenção das forças puristas, o Mariposa faria uma aproximação silenciosa. Dali, o grupo saltaria diretamente sobre a Fundição Central, a fonte de calor que mantinha toda a cidade funcionando.

Segundo a rede de inteligência de Lislah, um único homem coordenava toda a resistência purista dentro da cidade.

Seu nome era Príncipe Conrad Kor Kovith.

Um adversário cuja reputação bastava para preocupar até os veteranos mais experientes.

Sem hesitação, Beleg, Gyodai, Kobta e Sir Finley saltaram do convés do Mariposa.

Durante a queda, Kobta executou um de seus famosos truques de ventanista. Os cinco kobolds ocultos sob a manta desapareceram da vista de todos, criando a perfeita ilusão de invisibilidade enquanto desciam silenciosamente sobre a cidade.

Kobta pousou numa região conhecida como Jardim Estufa, onde enormes estruturas de vidro protegiam plantações cultivadas sob intenso calor artificial. O ambiente era abafado, tomado pelo vapor e pelo cheiro de terra úmida.

Fora das estufas caminhava um gigantesco constructo armado com diversos canhões, responsável por proteger toda aquela área estratégica.

Enquanto Kobta avaliava a situação, percebeu algo inquietante.

Não existia apenas um.

Outros constructos patrulhavam a região, realizando varreduras constantes entre as plantações.

Mesmo ocultos por sua invisibilidade ilusória, um dos autômatos interrompeu a patrulha.

Seus olhos artificiais brilharam em vermelho.

A cabeça metálica girou lentamente na direção exata onde Kobta se encontrava.

Os cinco kobolds trocaram olhares sob a manta.

Pela primeira vez naquela missão, alguém... ou alguma coisa... havia conseguido enxergá-los.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Corvo de Krauser


Após a destruição da Diligência Dracocérbera e um breve período de recuperação, o grupo finalmente conseguiu alguns momentos para reorganizar equipamentos, tratar ferimentos e recuperar parte do poder mágico consumido nas batalhas anteriores. O descanso foi curto, porque todos sabiam que ainda havia um último alvo nos céus de Yuvallin.

Sir Finley assumiu novamente o comando do Mariposa e conduziu o navio através das correntes de vento e das nuvens escuras que cobriam a região. Depois de algum tempo de perseguição silenciosa, ele finalmente localizou o último navio purista.

O Corvo de Krauser.

Diferente dos anteriores, ele não parecia apenas uma fortaleza voadora — parecia uma plataforma de guerra construída para esmagar cidades inteiras. Sua estrutura cilíndrica era envolta por dezenas de canhões distribuídos em todas as direções, além de dois hyper canhões que dominavam sua silhueta como presas gigantescas apontadas para o horizonte.

Kobta, Sir Finley e Beleg passaram alguns instantes estudando a embarcação e rapidamente definiram os objetivos necessários para derrubá-la: romper o invólucro mágico do balão, silenciar as baterias de canhões, destruir tubos e conexões que alimentavam os sistemas internos, profanar o templo de Aharadak escondido em seu interior e derrotar o Capitão Krauser.

Enquanto os outros planejavam, Gyodai permaneceu imóvel. Havia algo ali. Uma sensação familiar.

Seu olhar atravessou as estruturas metálicas do navio como se enxergasse além do aço e encontrou o que procurava.

Um templo dedicado a Aharadak.

Por um instante ele sentiu como se o próprio deus o observasse. Como se estivesse sendo chamado.

Kobta foi o primeiro a agir. Fez sua firula inspiradora para reforçar os próprios reflexos, bebeu uma poção de orientação, girou suas pistolas e disparou. A bala acertou diretamente um dos canhões do Corvo de Krauser e a explosão arrancou placas metálicas que caíram pelos céus.

Sir Finley tentou acompanhar o ataque usando sua pistola, mas o disparo passou raspando.

Beleg então deu um passo à frente. Ele ergueu seu arco de aço-rubi e puxou lentamente a corda. Nas suas costas, a tatuagem começou a brilhar.

A figura completa de Valkaria apareceu em luz dourada sobre sua pele — não apenas o rosto, mas o corpo inteiro da deusa dos aventureiros, imponente, como se guiasse seu braço.

Beleg murmurou:

— Valkaria… mostra onde devo abrir caminho. Concentração em Combate.

As flechas partiram numa sequência precisa e atingiram o canhão já danificado. O impacto quase o destruiu completamente.

A resposta veio imediatamente. O Corvo de Krauser abriu fogo. Sir Finley desviou com habilidade.

Beleg girou no ar e evitou os disparos.

Gyodai conjurou Campo de Força e absorveu quase toda a explosão, embora um fragmento ainda conseguisse atravessar sua defesa e abrir um corte superficial em seu rosto.

Kobta recebeu um impacto muito mais perigoso e precisou improvisar um Escudo da Fé através dos seus truques para sobreviver.

Sem perder ritmo, Kobta respondeu com novos disparos e destruiu outro canhão. Beleg acompanhou o ataque com novas flechas de aço-rubi.

Então o Corvo de Krauser executou uma manobra defensiva.

Toda sua estrutura girou lentamente, revelando uma segunda linha inteira de canhões preparados para disparar.

Kobta sorriu. Mirou. Atirou. Um dos hyper canhões explodiu.

Nesse momento, Gyodai abriu um portal dimensional e levou todos diretamente para dentro da embarcação.

Assim que surgiram, Sir Finley analisou rapidamente um dos mecanismos internos, encontrou um ponto vulnerável e atacou com o Chicote da Cobra Crescente. O golpe abriu rachaduras profundas na estrutura e permitiu que Beleg complementasse o dano com uma sequência de flechas.

Mesmo assim, os canhões restantes continuavam disparando. Lá fora, o Mariposa recebeu impactos violentos e começou a sofrer danos severos.

Kobta recarregou e continuou desativando baterias.

Gyodai conjurou Velocidade, abriu suas asas de barata e avançou como um projétil vivo. Seus múltiplos membros golpearam os mecanismos sem parar até destruir dois canhões praticamente sozinho.

Sir Finley avançou pelo convés usando seu chicote de aço-rubi da cobra crescente para romper mais estruturas.

Beleg ativou sua capa de Arsenal, ganhou altitude e destruiu outro canhão.

Foi então que Gyodai parou. Seus olhos se fixaram numa porta. Ele começou a caminhar. Nenhum dos outros conseguiu impedi-lo.

Entrou. Do outro lado havia Tormenta. Um templo pulsando como carne viva. Paredes que respiravam. Ar contaminado. E alguém esperando.

Exarca. O Arauto atacou imediatamente. O combate começou sem palavras. Exarca ergueu a mão e lançou Marca da Obediência.

Gyodai desprezou a realidade. Nada aconteceu. Exarca avançou com adaga, mordida e garras.

Gyodai respondeu conjurando Campo de Força e absorvendo os impactos. Kobta alcançou a entrada e tentou falar com ele.

Sem olhar para trás, Gyodai respondeu:

— Não entra. Isso aqui é comigo.

Então conjurou Punho de Mitral. Seu braço de ogro se revestiu de metal prateado. Ele atacou. Golpes rápidos. Sequências brutais.

Exarca foi atingido várias vezes, mas resistiu. Gyodai percebeu. Sorriu. Ao lado dos seus urubus mortos-vivos, encarou a criatura com entusiasmo.

Aquilo era um desafio digno. Lá fora, o combate continuava. Sir Finley e Beleg destruíram os últimos canhões. Foi quando a cabine principal se abriu.

O Capitão do Corvo de Krauser apareceu.

Um homem alto, cabelos longos, bigode branco e uma cicatriz atravessando o rosto. Vestia uma armadura tecnológica equipada com dois enormes canhões acoplados.

Ele apontou para Kobta. Mas Kobta foi mais rápido. Disparou. A bala de aço-rubi acertou em cheio e lançou Krauser para trás.

O capitão ativou propulsores e respondeu imediatamente. Um disparo foi interceptado por uma múmia sacrificada. O outro Kobta evitou rolando e usando Escudo Arcano.

Enquanto isso, dentro do templo, Exarca lançou Anular a Luz. Gyodai ignorou. A mordida falhou. Mas uma garra e a adaga encontraram espaço.

Campo de Força absorveu parte. Veneno entrou. Gyodai resistiu. Ainda assim sentiu seus músculos desacelerando. Exarca sorriu.

Gyodai sorriu de volta. Do lado de fora, Krauser preparava seus canhões. Do lado de dentro, Exarca mostrava as presas. 

Os dois confrontos épicos tinham apenas começado.



segunda-feira, 22 de junho de 2026

Apenas um Navio



O combate sobre a Diligência Dracocérbera continuava enquanto o navio purista, mesmo sem os dragões escravizados, permanecia suspenso por mecanismos internos e energia acumulada. O objetivo agora era claro: desmontar aquela monstruosidade peça por peça antes que ela pudesse voltar a disparar contra Yuvallin.

Beleg observou rapidamente as estruturas internas e percebeu que os tubos e conexões que serpenteavam pela embarcação eram o verdadeiro sistema circulatório do navio. Não bastava destruir canhões — era preciso cortar o fluxo de energia e munição.

Firmando os pés sobre a estrutura metálica, o arqueiro puxou a corda do arco de aço-rubi.

A tatuagem em suas costas brilhou.

Dessa vez não havia rosto de homem algum.

A imagem inteira da deusa Valkaria surgiu desenhada em luz dourada sobre sua pele — armadura, cabelos ao vento e olhar de quem empurra os mortais rumo ao impossível.

Beleg respirou fundo e pronunciou:

— Valkaria… guia meu olhar para onde a liberdade precisa nascer.

Concentração em Combate.

A flecha partiu.

Ela cruzou o ar e atingiu exatamente uma junção vulnerável do tubo principal. O impacto abriu uma rachadura profunda e fez energia azulada começar a escapar.

Os Vigias do Sangue Puro perceberam imediatamente quem era a maior ameaça.

Bestas dispararam.

Os projéteis acertaram Beleg, mas ele endureceu os músculos, suportando os impactos sem perder posição. Sangue escorreu por seu braço, porém o seteiro permaneceu firme.

Sir Finley tentou aproveitar a abertura e lançou uma chicotada envenenada contra um dos vigias.

Errou.

O chicote estalou no metal.

Gyodai então abandonou qualquer aparência de equilíbrio.

Seu corpo deformou.

Conjurou Transformação de Guerra.

Membros extras surgiram. Músculos se distorceram. Braços aberrantes cresceram enquanto o lefou avançava como uma máquina viva.

Seus golpes começaram a atingir os tubos em sequência.

Cada soco arrancava placas metálicas.

Cada impacto deformava conduítes.

Um dos canais principais explodiu em uma cascata de energia e estilhaços.

Os Kobtas viram Beleg ser alvejado.

Aquilo bastou.

Os cinco pequenos pistoleiros ficaram furiosos.

Dispararam juntos.

Uma sequência brutal de tiros acertou o Vigia do Sangue Puro no peito. O impacto foi tão violento que o corpo foi lançado para fora do navio e desapareceu nas nuvens.

Beleg pegou uma poção e despejou diretamente sobre os ferimentos para continuar lutando.

Sir Finley finalmente encontrou ritmo.

Seu chicote estalou e atingiu um dos tubos restantes.

Uma rachadura se espalhou.

Gyodai então secretou aquele muco viscoso, ácido e fedorento característico da Tormenta e o lançou sobre Beleg.

As feridas começaram a fechar.

Revigorado, o arqueiro voltou à posição.

Enquanto isso, Gyodai despedaçava o restante dos tubos com golpes sucessivos até que o sistema inteiro entrou em colapso.

Kobta correu para a região equatorial e percebeu cristais energéticos alimentando o mecanismo central.

Disparou.

O cristal explodiu.

A explosão detonou outros dois.

Beleg imediatamente entendeu.

Puxou outra flecha.

A tatuagem de Valkaria voltou a iluminar suas costas.

— Onde houver prisão… que o caminho seja aberto.

Disparou.

A flecha atravessou outro cristal.

A reação em cadeia começou.

Explosões sacudiram o casco.

Sir Finley aproveitou e disparou sua bazuca.

A explosão seguinte foi tão grande que partes inteiras do interior da Diligência Dracocérbera começaram a ruir.

Mesmo assim os canhões restantes conseguiram disparar.

Ao longe, o Mariposa foi atingido.

A embarcação estremeceu violentamente.

Kobta recarregou suas armas.

Beleg destruiu os últimos cristais restantes.

Sir Finley avançou sobre outro Vigia do Sangue Puro.

O chicote envolveu o pescoço do purista.

Num puxão brutal arrancou parte da orelha, rompeu o equilíbrio e drenou parte de seu vigor.

Gyodai abriu caminho até o núcleo principal.

Lá dentro o aguardava Vassok.

Veterano.

Arcanista de guerra.

Ele lançou uma orbe azul.

Ela explodiu em fogo.

As chamas envolveram Gyodai.

Mas o lefou já vinha em velocidade absurda.

Golpes.

Sequências.

Múltiplos punhos.

Vassok ergueu Campo de Força.

Gyodai o agarrou mesmo assim.

Vassok pronunciou:

— Que os ventos devorem sua existência! Sopro das Uivantes!

O frio sobrenatural explodiu.

Gyodai desprezou a realidade.

Continuou avançando.

Mesmo queimando.

Mesmo deformado.

Olhou diretamente para o arcanista e sorriu.

— Matei Milla. Você vai seguir o mesmo caminho.

Kobta chegou.

Disparou.

Campo de Força absorveu parte.

Não foi suficiente.

As defesas de Vassok se quebraram.

Sir Finley apareceu por trás.

Seu chicote girou.

Golpe perfeito.

Enrolou no pescoço.

Puxou.

Vassok apagou.

A orbe azul caiu.

Flutuou.

E desapareceu.

Gyodai desfez sua Transformação de Guerra.

Conjurou Salto Dimensional.

Num instante todos retornaram ao Mariposa.

Do convés observaram.

A Diligência Dracocérbera perdeu sustentação.

Primeiro inclinou.

Depois caiu.

A esfera colossal atravessou as nuvens e atingiu o solo com violência inimaginável.

Uma onda de destruição se espalhou.

Puristas morreram.

Máquinas foram esmagadas.

Mas junto deles também havia inocentes.

E enquanto o fogo subia ao horizonte de Yuvallin…

ninguém comemorou.

Porque restava apenas um navio.

E a guerra ainda não havia terminado.


Texto por Roberto Oliveira.

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Diligência Dracocérbera



Yuvallin permanecia fechada para o mundo.

Desde o ataque purista, Ezequias e toda a população da grande metrópole estavam presos dentro das muralhas. Ninguém entrava. Ninguém saía. Todas as noites, os céus eram cortados pelos navios voadores e a cidade recebia novos bombardeios. O primeiro deles havia caído — o Hidra Helicoide fora destruído — mas ainda restavam dois. A guerra estava longe do fim.

Enquanto reorganizávamos os recursos próximos às linhas avançadas, uma procissão surgiu entre as trincheiras. Eram devotos de Tanna-Toh caminhando lentamente e entoando um cântico antigo que despertava algo difícil de explicar. Não era fé, nem coragem. Era curiosidade. Cada nota parecia acender no coração o desejo de compreender, aprender e descobrir.

As órbitas escarlates de Glomer começaram a emitir um brilho mais intenso.

O osteon ficou imóvel observando os sacerdotes e apertou o Olho Dourado que carregava consigo. Havia algo naquele chamado que parecia falar diretamente com sua essência de inventor e devoto do conhecimento. Depois de alguns instantes, tomou sua decisão.

Disse que precisava seguir os sacerdotes até a Caverna do Saber.

Não abandonaria o grupo. Voltaria.

Mas aquele caminho precisava ser percorrido sozinho.

Desejou sorte aos companheiros e, quando se virou para partir, algo parecido com uma lágrima escorreu por uma de suas órbitas vazias. Prometeu retornar.

Então desapareceu acompanhando a procissão.

Pouco tempo depois, fomos içados novamente para o convés do Mariposa.

Era hora de encontrar o próximo navio purista.

Gyodai foi o primeiro a notar que havia algo escondido entre as nuvens. Não enxergava exatamente uma forma, mas um vazio estranho, uma ausência de céu. Sir Finley então esticou a língua e começou a sentir o vento como se estivesse lendo um mapa invisível. Correntes de ar, turbulências e deslocamentos entregavam a direção daquilo que tentava permanecer oculto.

Beleg fechou os olhos e buscou outro caminho.

Cheiro.

Movimento.

Presença.

Seus sentidos encontraram o rastro.

Sir Finley assumiu o leme e conduziu o Mariposa numa perseguição silenciosa até que, finalmente, o inimigo se revelou.

Uma gigantesca esfera de ferro negro rompeu as nuvens.

Não havia velas. Não havia leme.

Canhões apontavam para todas as direções e criaturas aladas carregavam grandes esferas metálicas como plataformas de ataque. Três dragões negros puxavam toda aquela construção através dos céus, enquanto o casco girava lentamente para reposicionar suas baterias.

Kobta reconheceu imediatamente.

Era a Diligência Dracocérbera.

A estratégia ficou clara quase no mesmo instante: romper as correntes que escravizavam os dragões, destruir o núcleo de comando, silenciar a Bateria Equatorial, sabotar o mecanismo de rotação, destruir tubos e conexões e derrotar o almirante antes que aquela fortaleza voadora transformasse o Mariposa em destroços.

Os dragões atacaram primeiro.

Um sopro de trevas atravessou o convés e engoliu o ar ao redor.

Kobta foi o único que conseguiu escapar completamente.

Gyodai ergueu a mão e conjurou Campo de Força, absorvendo parte da energia escura. Beleg firmou o corpo e resistiu usando toda sua resistência, enquanto Kobta o protegia com seu truque de Escudo da Fé. Sir Finley rolou pelo convés para escapar e novamente recebeu cobertura dos kobolds.

Sem perder tempo, Kobta iniciou o contra-ataque.

Bebeu uma poção de velocidade, em seguida uma poção de orientação e executou sua firula inspiradora. Suas pistolas giraram nas mãos e os disparos seguiram diretamente para as correntes que mantinham os dragões presos.

Um dos dragões respondeu imediatamente.

Conjurou Velocidade e liberou uma aura aterradora.

Sir Finley e Beleg sentiram o peso daquela presença esmagando o peito.

Mesmo assim, Beleg avançou.

Bebeu sua própria poção de velocidade, respirou fundo e ergueu o arco.

Nas costas, a tatuagem brilhou.

O corpo de Valkaria apareceu.

Beleg tensionou a corda e pronunciou:

— Minha deusa… guia meus olhos. Valkaria… guia meu disparo. Que minhas flechas encontrem o ponto onde até gigantes aprendem a cair.

A saraivada começou.

Flechas cruzaram os céus e atingiram repetidamente as correntes.

Os Vigias do Sangue Puro avançaram imediatamente para defender os dragões e concentraram seus ataques contra o arqueiro. Beleg resistiu usando Durão enquanto Kobta desviava parte dos ataques com seu Escudo da Fé.

Sir Finley ergueu sua bazuca e disparou contra as correntes, mas os dragões se moveram rápido demais.

Gyodai então abriu um rasgo na realidade.

Salto Dimensional.

Num instante, ele e seus aliados apareceram sobre a própria esfera.

Logo ao chegar, um Capelão da Esfera de Aço surgiu empunhando um enorme martelo de guerra e atacou o lefou. O primeiro golpe passou em falso porque Gyodai parecia ignorar as regras da realidade, mas o segundo o acertou em cheio. Ainda assim, o feiticeiro absorveu o impacto com Campo de Força.

Enquanto isso, os canhões começaram a disparar contra o Mariposa.

Kobta respondeu.

Mais disparos.

A primeira corrente se rompeu.

O dragão libertado rugiu e imediatamente voltou sua fúria contra a própria Diligência Dracocérbera, cobrindo partes do casco com seu sopro sombrio.

Outro dragão reagiu dissipando a velocidade dos kobolds e acelerando o próprio corpo.

Beleg continuou disparando.

Mais rachaduras.

Mais impacto.

Sir Finley avançou com o chicote, mas errou o movimento das correntes oscilando no ar. Tentou então alcançar com a língua e percebeu algo terrível.

Escudos vivos.

Criaturas não humanoides estavam presas ao redor das estruturas.

Escravos usados como proteção.

Gyodai olhou para aquilo e não hesitou.

Seu corpo se deformou.

Conjurou Punho de Mitral.

Golpes sucessivos atingiram metal e corrente até que outra prisão se rompeu.

O segundo dragão ficou livre.

Por um momento todos imaginaram que ele destruiria o navio.

Mas ele apenas olhou para o Mariposa… e avançou em nossa direção.

Gyodai abriu suas asas de barata e voou diretamente para a última corrente.

Kobta acompanhou.

No caminho, usou Tiro de Sentinela e acertou o Capelão da Esfera de Aço, lançando-o para fora da fortaleza voadora.

Então correu.

Alcançou Gyodai.

Disparou.

A última corrente se partiu.

O terceiro dragão ficou imóvel por alguns segundos.

Olhou para os céus.

Olhou para o caos.

E simplesmente foi embora.

Sem os dragões, a Diligência Dracocérbera perdeu toda sua movimentação.

Mas não caiu.

A gigantesca esfera permaneceu suspensa no ar.

Parada.

Esperando.

E agora, finalmente, estava pronta para ser invadida.



Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Passos Escuros



Após uma breve pausa nas trincheiras de Yuvallin, nos preparamos para retornar ao Mariposa. Para isso, precisaríamos atravessar parte das muralhas da cidade, uma região tomada por uma energia negativa tão intensa que parecia infiltrar-se nos ossos. O ar era pesado, carregado de morte e sofrimento acumulados por tempos de guerra.

Enquanto avançávamos entre escombros, crateras e fortificações destruídas, Gyodai percebeu uma figura emergindo lentamente de uma trincheira abandonada. Era uma Mortalha, um espectro envolto em um manto negro esfarrapado que flutuava acima do chão sem produzir qualquer som. O lefou ainda estava parcialmente absorto pelos sussurros de Aharadak e não reagiu a tempo.

A criatura atravessou a distância num instante e estendeu uma mão cadavérica. Seu toque era mais frio que gelo, carregado de energia negativa. A carne mutante de Gyodai escureceu onde foi atingida e a dor percorreu seu corpo como uma descarga de agulhas congeladas. O espectro tentou impor uma maldição ainda pior, mas o lefou resistiu. Então outra Mortalha baixou o olhar para o solo e os restos espalhados pela trincheira começaram a se mover. Fragmentos de carne putrefata, ossos quebrados e terra encharcada de sangue ergueram-se no ar e foram lançados como projéteis contra ele.

Gyodai respondeu instantaneamente. Seu corpo explodiu numa nuvem de baratas aberrantes que absorveram parte do impacto.

— A realidade é apenas uma sugestão! — rugiu enquanto conjurava Campo de Força.

A barreira translúcida absorveu o restante do ataque e finalmente despertou o lefou de sua distração.

A tatuagem de Pitágoras brilhou em seu corpo, irradiando poder sobre seus membros deformados.

— Que a tormenta fortaleça meus punhos e que o impossível se torne comum!

Velocidade envolveu seu corpo enquanto Concentração em Combate aguçava seus reflexos. Num borrão de movimentos, Gyodai avançou sobre a Mortalha. Seus múltiplos braços golpearam o espectro repetidas vezes, rasgando o tecido sobrenatural que o mantinha unido. Um dos golpes atingiu diretamente a região onde deveriam existir olhos, deixando a criatura cega.

Foi então que uma nova ameaça surgiu.

Ao longe, uma luz prateada rompeu a escuridão do campo de batalha. Cabelos prateados dançavam ao vento e olhos verdes brilhavam como esmeraldas. Era Milla.

Seu grimório flutuava ao seu lado, aberto por páginas invisíveis movidas por forças arcanas. Sem sequer pronunciar uma palavra, linhas mágicas quase imperceptíveis partiram do livro e envolveram Beleg.

A magia Marionete tentou assumir controle total de seu corpo.

No instante seguinte, o grimório avançou em direção a Gyodai e tocou sua testa.

— Obedeça.

Runas surgiram ao redor do lefou.

Milla acabara de conjurar Selo de Mana.

Se o poder da magia triunfasse, Gyodai seria incapaz de canalizar energia arcana.

Kobta reagiu imediatamente.

O conjunto de kobolds executou sua tradicional firula inspiradora, bebeu uma poção de velocidade e girou suas pistolas de adamante.

— Se é para acertar uma maga, vamos acertar bem!

As armas rugiram.

As balas encantadas cruzaram o campo de batalha e atingiram Milla com violência. O primeiro disparo a fez recuar no ar. O segundo a lançou para trás como uma boneca arremessada por uma catapulta.

Enquanto isso, Beleg lutava contra o controle mental.

Com toda sua força de vontade, ele rompeu os fios invisíveis da Marionete.

Livre novamente, sacou uma poção de velocidade e a bebeu num único gole. Sua Marca da Presa foi ativada. Emboscar, Mira Apurada, Ponto Fraco e Tiro de Abate foram preparados em sequência.

A tatuagem em suas costas brilhou intensamente.

Mas não era Benhê quem surgia naquele momento.

Era Valkaria.

O rosto da deusa apareceu na pele do arqueiro enquanto energia dourada percorria seu corpo.

— Valkaria, guie minha mão. Benhê me ensinou onde acertar. Você me ensinará por que acertar.

A corda do arco cantou.

A primeira flecha atravessou a Mortalha ao lado de Gyodai.

A segunda atingiu o mesmo alvo com ainda mais força, rasgando sua essência espectral.

Sir Finley aproveitou a abertura.

Analisou rapidamente os pontos vulneráveis da criatura e preparou sua execução.

Seu chicote mágico foi coberto por peçonha concentrada.

O tabrachi girou a arma uma única vez antes de desferir um golpe preciso.

O aço encantado atravessou a Mortalha e o veneno sobrenatural espalhou-se por sua essência, deixando-a à beira da destruição.

Mesmo cega, a criatura tentou retaliar contra Gyodai, mas seus ataques cortaram apenas o vazio.

A segunda Mortalha foi mais eficiente.

Ela alcançou Beleg e drenou parte de sua energia vital. Sombras negras penetraram sua pele e tentaram consumir sua força.

O arqueiro suportou o ataque com determinação.

Sua resistência reduziu parte do dano e ele permaneceu firme.

Kobta então marcou a Mortalha cega como sua presa.

Os disparos seguintes perfuraram a criatura repetidas vezes.

Logo depois, voltou sua atenção para a segunda Mortalha e a atingiu com uma sequência de tiros tão precisa que quase a desintegrou.

Beleg aproveitou a oportunidade.

Apontou novamente seu arco para o alvo marcado.

A flecha atravessou a escuridão e aprofundou ainda mais os ferimentos espirituais da criatura.

Enquanto isso, o veneno aplicado por Sir Finley continuava corroendo a essência da Mortalha cega.

O tabrachi preparou o golpe final.

Sua tatuagem também brilhou nas costas.

Mais uma vez o rosto de Valkaria surgiu.

— Senhora dos caminhos, conduza meu golpe até o fim.

O chicote cortou o ar e atingiu o espectro com força devastadora.

A criatura resistiu por pouco.

As duas Mortalhas fizeram suas últimas tentativas de ataque.

A cega investiu contra Beleg e errou completamente.

A outra concentrou energia negativa no solo e lançou uma tempestade de ossos, pedras e areia diretamente contra o rosto de Gyodai.

O lefou simplesmente inclinou a cabeça para o lado.

O ataque passou por ele.

Então veio o contra-ataque.

Gyodai avançou.

Seus múltiplos braços golpearam as duas criaturas simultaneamente.

Punhos revestidos pelo poder da Tormenta atravessaram os espectros como marretas esmagando vidro.

As Mortalhas explodiram em fragmentos de energia sombria.

Quando a poeira baixou, restavam apenas os mantos negros caídos sobre o chão.

Milla já havia desaparecido.

Nem mesmo seus rastros permaneceram.

Gyodai e Sir Finley recolheram os mantos espectrais.

Pelo toque, ambos perceberam que aqueles tecidos ainda carregavam poder suficiente para servir de matéria-prima para encantamentos raros.

E se Milla estava observando de longe, aquilo significava apenas uma coisa.

Os inimigos já sabiam exatamente onde eles estavam.



Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Olho Dourado



O céu de Arton rugia em meio à guerra aérea enquanto o Hidra Helicoide cortava as nuvens como uma fera metálica agonizante. Raios elétricos percorriam suas enormes hélices de mitral e o som das engrenagens parecia o uivo contínuo de uma criatura condenada.

Gyodai observou o navio purista à distância e ergueu os braços deformados pela Tormenta. Sua carne aberrante pulsava em tons rubros enquanto energia dimensional se acumulava ao redor do lefou.

— “A realidade é apenas carne esperando para ser rasgada.”

Com um movimento brusco, Gyodai conjurou Salto Dimensional e arrastou Glomer consigo.

Durante o teleporte, os dois sentiram os próprios corpos sendo desintegrados em nível molecular. Ossos, músculos e mana pareciam dissolver-se enquanto atravessavam o espaço entre os planos. Naquele breve instante fora da realidade, ambos enxergaram algo impossível: os deuses observavam o combate.

Muito acima de todos, o olhar serpentino de Sszzaas atravessava o vazio. Mais abaixo, Arsenal fitava a batalha como um general analisando um campo de guerra. Valkaria também observava em silêncio, majestosa e soberana.

Então a magia desviou.

A interferência divina alterou completamente o destino do teleporte. Em vez da cabine principal, Gyodai e Glomer surgiram violentamente em uma cabine lateral do Hidra Helicoide. Os deuses haviam impedido que chegassem facilmente ao coração do navio.

Enquanto isso, Beleg sentia uma poderosa aura de Valkaria emanando do interior da embarcação purista. Mesmo desconfiado, puxou lentamente a corda do arco e lembrou-se das palavras de Benhê, seu antigo tutor, sobre acertar exatamente onde mais dói.

A tatuagem em suas costas brilhou intensamente.

— “Benhê… guie meus olhos. Valkaria, faça este navio voar livre mais uma vez!”

A Concentração em Combate tomou conta do arqueiro.

A flecha de aço-rubi atravessou o céu como um raio dourado e atingiu diretamente uma das hélices. O impacto arrancou placas metálicas e enfraqueceu os sistemas de armas do Hidra Helicoide. A Marca da Presa transformou o próprio navio em alvo do ódio de Beleg. Madeira, aço e engrenagens eram tratados por ele como se fossem carne purista.

Partes inteiras do casco foram destruídas.

O capitão inimigo respondeu imediatamente.

O Hidra Helicoide iniciou uma manobra defensiva brutal, girando de um lado para o outro em movimentos violentos que criaram um gigantesco campo de energia estática ao redor do casco. Marinheiros foram arremessados ao vazio enquanto correntes e cordas se partiam no ar.

Kobta saltou no exato momento em que o convés inclinou. Seus quatro corpos ocultos sob a manta giraram em perfeita sincronia, evitando o impacto graças à sua evasão sobrenatural.

Gyodai simplesmente ergueu a mão.

— “A deformidade transcende o impacto.”

Seu Campo de Força absorveu a violência da colisão.

Glomer, porém, foi lançado contra as paredes da cabine. Seus ossos estremeceram e rachaduras percorreram sua estrutura osteon.

Mesmo invisível, Kobta continuava avançando furtivamente rumo à cabine principal. Pequenas ferramentas surgiam entre os dedos kobolds enquanto ele analisava engrenagens e condutores mágicos.

Então a porta da cabine lateral explodiu.

Diversos marinheiros puristas invadiram o local empunhando sabres e pistolas elétricas. Ao mesmo tempo, mais puristas surgiam próximos da cabine principal sem perceber que Kobta já estava entre eles, invisível como um fantasma.

Do lado de fora, Beleg e Sir Finley perceberam o resultado da sabotagem e dos disparos certeiros. Uma das hélices começou a despencar lentamente.

Sir Finley abriu um enorme sorriso anfíbio e girou sua bazuca improvisada.

— “Agora vai, cambada de lata voadora!”

A Power Bazuca disparou.

O projétil atingiu outra hélice em cheio, arrancando partes inteiras das engrenagens. A estrutura começou a ranger perigosamente.

Dentro da cabine, Glomer respirou fundo e ativou uma engenhoca com a velocidade de um estalar de dedos.

— “Encontrando fraquezas… pronto.”

Diagramas luminosos apareceram diante do inventor. Ele identificou os pontos exatos onde bombas causariam danos catastróficos. Em seguida, ativou outra engenhoca de Campo de Força. Bandagens metálicas envolveram seus ossos, reforçando sua estrutura.

Seu Olho de Dragão analisou o ambiente e revelou o melhor ponto para destruir o navio: o convés superior, acima da sala de máquinas.

Gyodai abriu um sorriso monstruoso.

— “Hora de alimentar a guerra.”

Sob efeito de Velocidade, o lefou avançou sobre os marinheiros puristas. Seus múltiplos braços deformados desferiram uma sequência absurda de golpes de visco rubro. Mandíbulas explodiram, costelas afundaram e dentes foram arrancados junto com pedaços de carne. Um marinheiro teve o pescoço quebrado ao contrário enquanto outro foi atravessado pelos membros aberrantes do lefou.

Logo depois, Gyodai começou a esmurrar as paredes da cabine. Rachaduras grotescas se espalharam pela estrutura metálica.

Do lado de fora, Beleg respirou fundo novamente. A tatuagem de Benhê brilhou mais uma vez.

— “Benhê… guie meu braço.”

A flecha seguinte atravessou exatamente a parte enfraquecida pela bazuca de Sir Finley.

A segunda hélice explodiu.

O Hidra Helicoide começou a perder altitude.

As defesas do navio purista dispararam seus últimos relâmpagos desesperados contra Beleg e Sir Finley. Ambos desviaram no ar com movimentos quase impossíveis.

Então veio o desastre.

A cabine onde Gyodai e Glomer estavam começou a implodir. As paredes se retorciam para dentro enquanto energia dimensional rasgava o ambiente.

Gyodai desprezou a realidade. Para um servo da Tormenta, aquilo parecia apenas mais uma deformação do mundo.

Glomer, porém, foi violentamente atingido pelos destroços. Seus ossos vibraram dolorosamente.

Luzes multicoloridas surgiram por toda parte: as mesmas luzes hipnóticas das hélices.

O olhar de Gyodai perdeu o foco.

O lefou ficou fascinado.

Foi então que Kobta concluiu sua sabotagem final.

Engrenagens explodiram. Tubulações arrebentaram. Peças metálicas voaram pelos céus.

O Hidra Helicoide começou a cair.

Enquanto bebia uma poção de Queda Suave, Kobta olhou para o lado e viu Gyodai e Glomer presos na cabine implodindo.

Sir Finley acelerou o Mariposa na direção do navio inimigo, tentando resgatar os aliados antes da queda definitiva.

Glomer, quase destruído, ativou novamente sua engenhoca de Campo de Força. Bandagens reforçadas envolveram seu corpo esquelético.

Então Beleg voou.

Usando sua Capa de Arsenal, o arqueiro avançou pelos céus até alcançar o casco do Hidra Helicoide. Ao passar por uma das janelas da cabine principal, viu algo inesperado.

Uma sacerdotisa diante de um altar de Valkaria.

Um de seus olhos era negro.

O outro, dourado.

Ela era a capitã do Hidra Helicoide.

Beleg puxou a corda do arco.

O tempo parou.

As divindades observavam novamente.

Desta vez, Valkaria estava acima de todos, soberana como líder do Panteão.

Algo mudou dentro de Beleg naquele instante, como se parte de sua antiga vida tivesse sido arrancada. Seu olhar amadureceu. Seu comportamento pareceu diferente. A barba começaria a crescer dali em diante e seus olhos passaram a enxergar o mundo de outra forma.

Então a própria Valkaria falou:

— “Estou guiando sua flecha. O que deseja que eu faça?”

Beleg respondeu sem hesitar:

— “Se ela for purista, que a flecha liberte os inocentes da opressão. Se não for, destrua meu disparo.”

A flecha partiu.

Instantaneamente atravessou a testa da sacerdotisa.

Ela caiu morta diante do altar.

Uma onda colossal de eletricidade percorreu todo o Hidra Helicoide. As máquinas morreram ao mesmo tempo.

O navio começou a despencar.

Glomer despertou Gyodai do transe e pegou o misterioso olho dourado que agora flutuava no ar. Gyodai abriu outro Salto Dimensional e ambos retornaram em segurança ao Mariposa.

Kobta, sob efeito da poção de Queda Suave, desceu lentamente dos céus até alcançar o navio aliado.

Mais tarde, já em segurança, Glomer analisou o olho dourado. Descobriu que o artefato precisava substituir um olho verdadeiro para funcionar plenamente. Como era um osteon, removeu parte da órbita e implantou o olho mágico sem hesitar.

Imediatamente começou a enxergar visões do antigo reino de Collen: ruínas, guerras e memórias perdidas.

Mas a verdadeira revelação veio depois.

O artefato despertaria totalmente apenas caso Glomer se convertesse à fé de Valkaria. Caso recusasse, precisaria buscar respostas na lendária Caverna do Saber.

Glomer permaneceu firme. Não abandonaria Tanna-Toh.

Então ofereceu o olho a Beleg.

O arqueiro segurou o artefato dourado em silêncio, sabendo o preço que precisaria pagar para utilizá-lo.

Enquanto isso, Capitã Lislah conduzia novamente o Mariposa pelos céus.

Outro navio purista os aguardava adiante.

E a guerra aérea estava longe de terminar.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 19 de maio de 2026

Raios e hélices



A grande âncora rasgou os céus escuros como um arpão lançado por um titã morto. Correntes estremeceram no ar até se prenderem ao chão onde os heróis estavam. Então ele surgiu entre as nuvens de fumaça e pólvora: o Navio Mariposa.

Seu casco negro era iluminado apenas pela luz fosforescente de fantasmas animados voando pelo convés. Zumbis carregavam lanternas de chama verdeada enquanto goblins corriam entre cordas e canhões. Anões de armaduras sombrias ajustavam mecanismos de guerra, e no centro do navio erguia-se um pequeno templo de Tenebra, onde velas negras queimavam sem produzir calor.

Sir Finley estreitou os olhos anfíbios e deslizou a língua para fora num movimento rápido.

— “Que as sombras revelem o que a luz tenta esconder.”

Usando seus truques de ladino, ele simulou uma Visão Mística. Seus olhos ganharam um brilho azulado e passaram a enxergar rastros arcanos invisíveis no céu. Entre as correntes de vento e nuvens carregadas, ele finalmente encontrou o vulto distorcido dos navios puristas espectrais.

A perseguição começou imediatamente.

Sir Finley assumiu o leme do Mariposa enquanto Beleg permanecia no alto do mastro principal, observando o horizonte com olhar de falcão. O arqueiro apertou o arco contra o peito e respirou fundo.

— “Benhê… guia minha mira mais uma vez.”

A tatuagem do rosto de seu antigo companheiro brilhou em suas costas quando ele ativou sua Concentração em Combate. Seus olhos se aguçaram como os de uma águia predadora.

Foi então que o primeiro disparo veio.

Um relâmpago colossal atravessou as nuvens e explodiu contra o ar próximo ao navio. Sir Finley girou o leme violentamente e o Mariposa inclinou quase noventa graus no céu, desviando por muito pouco da descarga elétrica.

Kobta e Gyodai observavam atentamente o rastro invisível deixado pelo inimigo. O navio purista parecia surgir e desaparecer entre distorções mágicas.

Subitamente o Mariposa balançou com violência.

Glomer e Sir Finley foram jogados contra o convés. Outro disparo elétrico atingiu o casco e rachaduras começaram a surgir na madeira negra. Energia azul percorreu todo o navio.

Gyodai ergueu um dos braços monstruosos e rugiu:

— “A carne aberrante rejeita sua destruição!”

Um Campo de Força translúcido surgiu ao redor do lefou e absorveu parte da descarga.

Glomer estava gravemente ferido. Ossos rachados apareciam sob sua pele ressecada de osteon enquanto ele tentava desesperadamente enrolar bandagens em si mesmo. Com uma engenhoca improvisada, simulou um Campo de Força para evitar ser destruído naquele bombardeio.

Outro relâmpago veio logo em seguida.

O impacto fez o convés explodir em farpas e fogo azul.

Então Capitã Lislah ergueu sua mão envolta em sombras.

— “Tenebra, marque aqueles que ousam se esconder da noite.”

Uma runa negra surgiu ao longe, revelando finalmente o contorno espectral do navio purista.

O Hidra Helicóide.

Um monstruoso navio voador purista equipado com uma gigantesca hélice de mitral girando sob o casco. Raios multicoloridos escapavam de suas engrenagens enquanto canhões elétricos carregavam nova munição arcana.

Gyodai então abriu parte de sua carne aberrante. Um muco viscoso, fedorento e quente escorreu de seu corpo. A substância grotesca foi aplicada sobre os ferimentos de Glomer e Sir Finley, fechando parcialmente suas feridas.

Sem hesitar, Gyodai estalou os dedos.

— “O espaço se curva diante da evolução do Devorador.”

O Salto Dimensional rasgou o ar.

Gyodai, Kobta e Glomer apareceram instantaneamente sobre o convés do Hidra Helicóide.

No mesmo instante, Beleg puxou a corda do arco até o limite.

— “Benhê… que minha flecha encontre o coração da máquina.”

A tatuagem brilhou novamente.

A flecha de aço-rubi atravessou o céu como um meteoro vermelho e atingiu diretamente a hélice de mitral. O impacto arrancou placas metálicas e fez as engrenagens gritarem num som agudo e desesperador.

Os puristas responderam imediatamente.

Dois canhões dispararam relâmpagos diretamente contra Beleg e Sir Finley. O tabrachi saltou para o alto usando suas patas elásticas de sapo, ficando suspenso no ar enquanto a eletricidade passava abaixo dele.

Então o verdadeiro terror começou.

Centenas de braços mecânicos surgiram das laterais do Helicóide. Hélices afiadas giravam em velocidade absurda enquanto eram disparadas como enxames assassinos.

Gyodai, Glomer e Kobta mal tiveram tempo de reagir.

Os servos mortos-vivos se sacrificaram.

O urubu cadáver de Gyodai avançou primeiro e foi triturado instantaneamente pelas lâminas. As múmias de Kobta e Glomer se jogaram na frente dos golpes seguintes. Corpos ressequidos foram dilacerados, braços arrancados e torsos reduzidos a tiras ensanguentadas antes que as hélices finalmente perdessem força.

As lâminas começaram então a emitir uma luz multicolorida hipnótica.

Sir Finley arregalou os olhos.

Glomer parou completamente.

Ambos ficaram fascinados pela rotação impossível das hélices brilhantes.

Enquanto isso, Kobta desapareceu.

O pequeno amontoado de kobolds ativou seus truques ventanistas e tornou-se invisível. Movendo-se furtivamente entre engrenagens e tubulações, começou a arquitetar uma sabotagem nas máquinas do Helicóide.

Agora o caos dominava completamente os céus.

Gyodai precisava decidir se libertaria sua Legião Aberrante para massacrar os puristas ou se ajudaria Glomer a sair do transe hipnótico.

No Mariposa, Sir Finley permanecia hipnotizado pelas luzes das hélices enquanto Beleg apertava o arco com o coração pesado, lembrando-se da distância que o separava de Benhê.

E acima de todos eles, os céus da guerra rugiam como se Arton inteira estivesse prestes a desabar.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Yuvallin sitiada



Um pouco mais cedo, Gyodai Meduzan Okelamp reapareceu após um longo hiato em um templo dedicado a Aharadak. O local estava tomado por convertidos do Devorador, muitos deles lefou marcados pela Tormenta, criaturas que jamais encontraram pertencimento em lugar algum de Arton. Diante daquela multidão silenciosa, Gyodai ergueu sua voz grave enquanto o braço grotesco de orc mutante pulsava em carne rubra e veias negras.

— “Nós não somos lefeu. Também não somos humanóides. Não temos um lar para chamar de nosso. Aqueles que não nos entendem nos chamam de monstros… mas não somos servos de Megalokk. Somos filhos de Aharadak, o Devorador. E ele está mudando. Está aprendendo com Arton. Está deixando de ser apenas um horror sem rosto.”

Os recém-convertidos observavam em absoluto silêncio.

— “Nós não precisamos agir como feras irracionais. Não precisamos ser aquilo que esperam de nós. Vamos conquistar um lugar neste mundo. Um lugar nosso.”

Gyodai então ergueu o gigantesco braço mutante.

— “Vejam. Nem precisamos ser agressivos. Eu apenas levanto este braço… e multidões caem.”

Talvez fosse o peso da presença de Aharadak. Talvez fosse o cheiro de alguém que claramente não tomava banho há uma semana. Ninguém ousou comentar. Quando Gyodai terminou de falar, um silêncio absoluto dominou o templo. Muitos juraram que naquele instante o próprio Aharadak havia enviado um sinal divino.

***

Beleg teve uma aparição com equipamentos de defesa mais robustos. Uma armadura polida doada pelo Aric e um escudo pequeno de adamante.

Atravessarmos o front de guerra próximo de Yuvallin, vimos um cenário infernal. Fumaça negra cobria muralhas destruídas. Soldados nos reconheceram e imediatamente nos conduziram pelos subterrâneos da cidade.

Lá encontramos Capitã Lislah Céu Negro, clériga de Tenebra e comandante da resistência local. A mulher tinha olhos cansados de quem já vira muitas noites de guerra.

Ela explicou que Yuvallin sofria ataques constantes. Durante a noite, o massacre era muito pior.

Seu navio voador, o Mariposa, usava tecnologia semelhante ao Vento Vasto da Capitã Alurra. Porém, o verdadeiro terror eram os três Navios Espectros Invisíveis criados pelos puristas. Máquinas furtivas impossíveis de detectar, nem mesmo por magia. Eles simplesmente surgiam do nada, despejavam destruição e desapareciam outra vez.

Não havia como invadir Yuvallin diretamente.

Precisávamos agir como guerrilheiros.

Kobta imediatamente se ofereceu para bolar estratégias contra os navios invisíveis. Os cinco kobolds escondidos sob a manta discutiam rapidamente entre si enquanto carregavam pistolas, bacamartes e engenhocas improvisadas.

Partimos rumo às zonas devastadas próximas de Yuvallin. O clima era quente, seco e sufocante. O chão batido estava rachado pelos impactos dos bombardeios e o ar cheirava a pólvora, sangue e fumaça.

Lislah enviou alguns batedores à frente. De repente, uma explosão brutal tomou o caminho. Os soldados simplesmente desapareceram em pedaços de carne, armadura e ossos espalhados pelo terreno.

Então os inimigos surgiram.

Um enorme bando gnoll acompanhado por uma Matrona monstruosa avançou contra nós.

Gyodai abriu suas asas de barata da Tormenta e levantou voo ao lado de Kobta. Disparos vieram imediatamente na direção deles.

— “A carne falha… mas a Tormenta permanece.”

Gyodai conjurou Campo de Força e os projéteis explodiram contra a barreira invisível. Kobta desviava dos tiros com movimentos absurdos, usando sua evasão para escapar como uma sombra viva.

Então Gyodai ergueu as mãos e o ar começou a se distorcer.

— “Que o caos cegue seus caminhos.”

Uma Névoa Sólida tomou o campo de batalha. Os gnolls ficaram lentos, cegos e desorientados dentro da fumaça espessa.

Kobta sacou suas pistolas de tambor de adamante e disparou múltiplas vezes contra a Matrona. Os tiros causaram impactos violentos que empurravam a criatura para trás, mas sua resistência monstruosa absorvia boa parte do dano. Mesmo assim, as balas rasgaram sua pele e fizeram sangue escorrer pelo corpo musculoso.

Ao longe, Sir Finley avançava preparando seu canhão enquanto Beleg assumia posição elevada com o arco em mãos. A tatuagem nas costas do arqueiro começou a brilhar com o rosto de Benhê.

Beleg respirou fundo e seus olhos encontraram o alvo.

— “Benhê… guia minha mira mais uma vez.”

A Concentração em Combate tomou seu corpo. A primeira flecha cruzou o campo de batalha como um trovão e atravessou o ombro de um gnoll, arrancando carne e espalhando sangue pelo chão quente. Outra flecha veio logo em seguida, perfurando um segundo inimigo no abdômen e deixando vísceras balançando para fora.

A Matrona tomou uma poção e latiu ordens furiosas para o bando atacar Kobta.

Os gnolls avançaram pela névoa tentando alvejar os kobolds, mas a fumaça atrapalhava completamente os disparos. Quando um tiro finalmente parecia inevitável, Kobta ativou um Escudo Arcano improvisado e o impacto ricocheteou violentamente para o lado.

Gyodai desapareceu no meio da névoa.

Um instante depois surgiu atrás da Matrona.

— “Aharadak devora os fortes.”

Sob efeito de Velocidade, Gyodai agarrou a criatura e começou a golpeá-la com múltiplos membros deformados. Punhos, garras e cotovelos atingiam ao mesmo tempo. Ossos estalavam. A mandíbula da gnoll rachou enquanto dentes voavam ensanguentados pelo campo de batalha.

Ela apenas rosnava enquanto sangue escorria pelos cantos da boca.

Kobta aproveitou a abertura e disparou novamente. As cinco criaturas escondidas sob a manta descarregaram uma sequência absurda de tiros. O impacto das balas era tão brutal que a Matrona foi empurrada repetidas vezes para trás, afundando no chão batido enquanto o peito e os ombros eram perfurados.

Sir Finley então abriu uma fumaça onírica diante do bando gnoll.

Os inimigos pararam.

Confusos.

Hipnotizados.

A fumaça os envolvia enquanto seus olhos perdiam o foco.

A Matrona tentou reagir e latiu furiosamente contra Gyodai, tentando atrapalhar seus movimentos.

Gyodai respondeu da mesma forma.

Um soco monstruoso atingiu a mandíbula da criatura e arrancou vários dentes de uma vez. Fragmentos de osso e sangue explodiram no ar enquanto a cabeça da gnoll girava violentamente para o lado.

Kobta terminou o serviço.

Os múltiplos tiros perfuraram a Matrona tantas vezes que seu corpo parecia uma peneira ensanguentada. Sangue jorrava dos buracos enquanto ela finalmente desabava no chão, inconsciente e completamente destruída.

O restante do bando ainda permanecia fascinado.

Então Beleg puxou novamente a corda do arco. A tatuagem de Benhê voltou a brilhar intensamente em suas costas.

“Benhê nunca errava. Eu também não.”

A flecha partiu como uma sentença de morte. O disparo atravessou um gnoll no peito, explodindo parte de suas costas em carne dilacerada. Ao verem a líder caída e aquele massacre absoluto, os restantes finalmente perderam a coragem.

Renderam-se.

Após o combate, um dos Kobtas retirou um cálice consagrado de Arsenal. Ele despejou essência de mana no recipiente e ativou suas engenhocas alquímicas. O cálice brilhou intensamente e uma onda de vigor percorreu os aliados, restaurando parte de suas energias mágicas enquanto a guerra por Yuvallin apenas começava.