segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Arquemis B



Zanzertein,

Existe algo particularmente desagradável no cheiro da Tormenta pela manhã. Sangue, enxofre, metal derretido e aquela fumaça que parece ter saído diretamente das entranhas de Aharadak. Foi esse o perfume que nos recebeu quando avistamos Arquemis B espalhando sua fumaça densa pelo horizonte, uma monstruosidade mecânica que ameaçava Yuvalin. Lislah Céu Negro nos aguardava, pronta para conduzir o ataque. Antes de avançarmos, brindamos com nossas poções de Contato Extraplanar. Afinal, se iríamos enfrentar uma máquina capaz de destruir uma cidade, era melhor garantir que os planos de emergência incluíssem conversar com alguma coisa de outro mundo.

E então vimos o colosso de perto.

Arquemis B era extraordinário, no pior sentido possível. Seu corpo esquelético de adamante sustentava quatro braços monstruosos, repletos de espadas titânicas, canhões arcanos e armas suficientes para equipar um exército inteiro. Cada movimento fazia o metal ranger, enquanto fumaça e energia mágica escapavam de sua estrutura. Não parecia uma máquina construída para vencer batalhas. Parecia uma máquina construída para fazer com que não sobrasse ninguém para contar como elas terminaram.

Eu não pretendia facilitar o trabalho dela.

Liberei o máximo que podia de meus poderes da Tormenta e conjurei Concentração em Combate em Massa e Libertação em Massa, reforçando nossos corpos e preparando a Cobra Nova para resistir às atrocidades que estavam por vir. A energia rubra percorreu minha carapaça, e meus membros se agitaram, ansiosos por quebrar alguma coisa. Preferencialmente, alguma coisa enorme e muito difícil de consertar.

Kobta foi o primeiro a transformar aquela ansiedade em violência. Com suas pistolas em punho, executou suas firulas inspiradoras e eliminou três Inquisidores que cercavam o colosso. Em seguida, disparou uma bala de adamante diretamente contra o peito de Arquemis B. O projétil atingiu o alvo, mas o gigante sequer pareceu se importar.

Foi um péssimo sinal.

Sir Finley, sempre preparado para tornar a vida dos outros mais desagradável, envenenou as flechas de Beleg e bebeu uma poção de heroísmo para afastar o medo. Depois, ativou seu anel de invisibilidade. Enquanto isso, Arquemis B começou a avançar, e o chão pareceu reclamar a cada passo de sua estrutura colossal.

Beleg disparou com o Tenor, enquanto Kobta abriu fogo com seus Tiros de Sentinela. As flechas e balas atingiram pontos vitais do construto, mas o adamante absorveu os impactos sem que o colosso recuasse um único passo. Era como tentar empurrar uma montanha usando pedras e argumentos.

A resposta veio de seus canhões.

Arquemis B disparou Setas Infalíveis de Talude contra Beleg, mas Kobta ergueu seu Escudo da Fé e reduziu o impacto do ataque. Outro canhão se voltou para Sir Finley e lançou uma Flecha Ácida. O tabrachi esquivou-se com sua Evasão, escapando por pouco da substância corrosiva. Um segundo canhão disparou uma Lança Ígnea de Aleph, e um terceiro preparou uma Flecha Ácida e por fim um Raio Polar, lançando contra nós uma gigantesca esfera de gelo.

Por um instante, pareceu que o campo de batalha inteiro seria engolido por fogo, ácido e gelo.

Sir Finley, porém, foi favorecido pela mão de Valkaria. A deusa parecia conduzir seus movimentos, e a sorte o acompanhou de maneira quase absurda. Beleg tentou escapar da esfera congelante, mas falhou. A magia Libertação que eu havia conjurado impediu que ficasse preso, enquanto sua habilidade Durão e minha Resistência à Energia reduziram parte dos efeitos devastadores do impacto. Ainda assim, a explosão gelada nos atingiu com força suficiente para nos lembrar que nossos preparativos não nos tornavam invulneráveis.

Apenas um pouco mais difíceis de matar.

Beleg encontrou uma oportunidade entre os ataques e marcou o último Inquisidor que ainda permanecia à vista. A primeira flecha do Tenor rasgou o ombro do inimigo. A segunda atravessou sua cabeça, perfurando o crânio e encerrando sua participação na batalha. Pelo menos aquele desgraçado não precisaria assistir ao que viria depois.

Avancei contra Arquemis B e golpeei com meu Punho de Mitral. O resultado foi decepcionante: o colosso reduziu quase todo o dano causado pela energia mágica do ataque. Mas, quando passei a usar meus membros extras e golpeá-lo com as mãos nuas, consegui finalmente ferir sua estrutura. Aparentemente, até uma máquina de adamante tinha problemas para lidar com a maneira particular como a Tormenta reorganizou meu corpo.

Kobta recarregou suas pistolas e voltou a disparar. Sua bala de essência energética foi completamente ignorada pelo colosso, mas o segundo projétil de adamante atingiu seu ombro e explodiu contra a estrutura metálica. Pela primeira vez, conseguimos arrancar uma reação mais evidente da máquina.

Lislah e seus arcanistas aproveitaram a oportunidade. Sob uma chuva de ataques, concentraram seus esforços em um dos canhões arcanos e conseguiram destruí-lo. Sir Finley renovou os venenos nas flechas de Beleg e no meu Punho de Mitral, tentando também roubar a mana do construto, mas a tentativa falhou. Arquemis B não parecia disposto a compartilhar absolutamente nada conosco, nem mesmo sua energia.

Então o colosso ergueu sua espada titânica contra Beleg.

O golpe desceu com força suficiente para esmagar qualquer aventureiro comum. Beleg suportou o impacto graças à sua habilidade Durão e à proteção de sua armadura de adamante, mas o choque foi brutal. Antes que pudéssemos reagir, Arquemis B voltou sua atenção para Kobta e desferiu dois ataques violentos. Um deles acertou em cheio, fazendo os pequenos kobolds sofrerem sob o impacto, mas o Escudo da Fé amorteceu parte da força.

A máquina continuou disparando.

Setas Infalíveis de Talude e Flechas Ácidas foram lançadas contra Kobta, seguidas por outra Lança Ígnea de Aleph. Ele escapou do fogo com sua Evasão, mas mal teve tempo de recuperar o equilíbrio antes que o canhão do Raio Polar voltasse a disparar. A esfera de gelo explodiu contra nós, envolvendo o campo de batalha em uma onda de frio e destruição.

Não havia descanso. Não havia espaço para respirar. Cada vez que acreditávamos ter encontrado uma abertura, outra arma do colosso entrava em ação.

Arquemis B avançou para nos esmagar.

Seu corpo gigantesco desabou sobre nós como uma muralha de metal em movimento. Beleg e eu fomos atingidos pela força devastadora do ataque. Senti o impacto atravessar minha carapaça e sacudir todos os meus ossos. Meu corpo foi comprimido contra o chão, e o sangue escorreu pela minha boca enquanto a dor se espalhava por meus membros. Por um instante, tudo o que consegui sentir foi o peso absurdo daquela máquina tentando transformar meu corpo em mais uma mancha no campo de batalha.

Beleg também sofreu com o impacto. Seu corpo foi castigado pela força do colosso, e seus ferimentos ameaçavam comprometer sua capacidade de continuar lutando. Ainda assim, nenhum de nós desistiu. Não depois de tudo o que havíamos enfrentado. Não com Yuvalin dependendo de nossa vitória.

Enquanto nos recuperávamos, Lislah e os arcanistas conseguiram desabilitar outro canhão, desta vez o que disparava as Lanças Ígneas de Aleph. A cada arma destruída, Arquemis B perdia parte de sua capacidade de nos aniquilar, mas ainda continuava de pé, ameaçador e terrivelmente resistente.

Foi quando Beleg percebeu a oportunidade.

O seteiro posicionou o Tenor e apontou para o núcleo principal do colosso. Não disparou imediatamente. Esperou por mim.

Eu compreendi o que ele precisava.

Retirei minha manopla mágica, preparando-me para desferir mais um ataque com o Punho de Mitral. Mesmo sabendo que o adamante reduziria o efeito mágico do golpe, avancei com toda a força que ainda me restava. Eu precisava manter a atenção da máquina, abrir uma brecha e dar a Beleg a oportunidade de atingir seu verdadeiro ponto fraco.

Golpeei.

Arquemis B suportou o impacto, e meu ataque mágico foi novamente reduzido. Mas aquele golpe não precisava destruí-lo. Precisava apenas criar o instante de que Beleg necessitava.

O Tenor cantou.

A flecha de Beleg cruzou o campo de batalha e atingiu o núcleo principal de Arquemis B. O disparo penetrou sua estrutura e provocou uma reação imediata. Os mecanismos do colosso começaram a falhar, a energia acumulada em seu interior escapou pelas fissuras e seus quatro braços estremeceram. Por um instante, a máquina colossal pareceu hesitar, como se não pudesse compreender que algo tão pequeno fosse capaz de ameaçar sua existência.

Então o núcleo explodiu.

Uma onda de energia devastadora irrompeu de dentro de Arquemis B, envolvendo o colosso em uma explosão gigantesca. O metal se rompeu, as armas foram arremessadas e fragmentos de adamante voaram em todas as direções. A luz da detonação engoliu o campo de batalha, e o estrondo foi tão violento que perdi completamente a noção do que acontecia ao meu redor.

Eu havia enfrentado monstros, venenos, demônios e horrores da Tormenta. Já tinha sentido meu corpo ser rasgado e reconstruído vezes demais para contar. Mas, enquanto aquela explosão nos envolvia, uma única pergunta atravessou minha mente:

Será que a Cobra Nova sobreviveria à própria vitória?

Zanzertein, ainda não sei responder.

A última coisa de que me lembro é a luz consumindo tudo ao nosso redor. Arquemis B estava destruído, mas o preço daquela vitória ainda precisava ser revelado.

E, se existe uma coisa que aprendi em minha vida, é que destruir uma máquina capaz de arrasar uma cidade costuma ser a parte fácil.

Sobreviver à explosão é outra história.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Carta aos que esperam


Zanzertein,


Depois de destruirmos o Golem de Pedra, finalmente recuperamos o Fragmento do Coração Negro. Porém, ao deixarmos a câmara, percebemos algo inquietante: a presença do cristal provocava uma reação no Lodo Negro. Seus veios avermelhados começaram a pulsar, como se reconhecessem o fragmento. Aquilo confirmava que havia uma ligação entre os dois, embora ainda não soubéssemos qual era sua verdadeira natureza.

Antes de abandonarmos as ruínas, encontramos outra descoberta: as Tabuletas Mutagênicas. Kobta demonstrou um interesse instintivo pelo objeto, mesmo sem compreender sua finalidade ou o que ele poderia representar para seu futuro. Parecia que aquelas tabuletas despertavam algo nele.

Com o objetivo principal concluído, retornamos a Vectora para entregar o fragmento a Sir Milton. Mal tivemos tempo de pensar em descanso, entretanto, uma mensagem urgente de nossa aliada Lislah Céu Negro chegou até nós. Não era um pedido de ajuda pessoal, mas um alerta: Yuvalin estava novamente em perigo, e precisávamos retornar imediatamente para auxiliar na defesa da cidade.

Lislah também nos entregou algo importante: o diário pessoal de Ezequias.

Reunimo-nos ao redor de uma mesa e começamos a investigar os manuscritos. Eu, naturalmente, resolvi dar uma olhada em algumas páginas aleatórias e acabei me arrependendo. Certas palavras continham um efeito lefeu que invadiu minha mente, deixando-me momentaneamente ainda mais enlouquecido. Kobta, Sir Finley e Beleg ficaram alarmados ao me ver naquele estado. Para evitar que o mesmo acontecesse com eles, decidiram começar a leitura desde o início, tentando se habituar gradualmente à influência perturbadora dos escritos.

Após analisarem o diário, conseguiram decifrar o que Ezequias havia previsto: um ataque contra Yuvalin, realizado por uma poderosa máquina de combate, semelhante ao Kishin, o monstruoso artefato mecânico que Arsenal utilizava para destruir cidades.

A notícia mudou completamente nossos planos. Havíamos acabado de sobreviver aos horrores de Tyrondir, mas não teríamos tempo para comemorar a vitória. Yuvalin precisava de nós outra vez, e uma máquina capaz de devastar cidades estava prestes a ameaçar tudo o que ainda tentávamos proteger.


**A Cobra Nova teria de voltar à guerra.**


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Golem de Pedra


Para Zanzertein,

Kobta finalmente encontrou a entrada da masmorra escondida entre as ruínas, e entramos. Não demorou para que os primeiros Andarilhos do Pântano viessem nos recepcionar. As criaturas exalavam uma aura corrosiva, mas eu já havia preparado a Cobra Nova com Resistência a Energia, reduzindo os efeitos daquele ácido.

Beleg foi o primeiro a reagir. O Tenor cantou em suas mãos e uma flecha atravessou um dos Andarilhos com violência. A criatura, porém, avançou contra ele e atingiu seu braço com força suficiente para deixá-lo gravemente ferido. Outro tentou me atacar, mas Kobta ergueu seu Escudo da Fé e absorveu parte do impacto. Quando um terceiro avançou sobre Sir Finley, Kobta respondeu com um Tiro de Sentinela, lançando o monstro contra uma parede, que se despedaçou com o impacto. Finley aproveitou a oportunidade para envenenar as armas de Kobta.

Enquanto explorávamos a masmorra, Kobta avistou uma enorme estátua adiante, posicionada de maneira ameaçadora. Ainda não sabíamos o que era aquilo.

Os Andarilhos continuavam surgindo, mas Beleg transformou o corredor em um campo de execução. Uma flecha do Tenor atravessou um deles e o destruiu completamente. Outra flecha, outra criatura morta. Eu entrei na luta com meus poderes da Tormenta: Desprezar Realidade, Empunhadura Rubra, Visco Rubro, Velocidade em Massa e Concentração em Combate. Reforcei meus golpes com Punho de Mitral e destruí mais um dos monstros já enfraquecido pelas flechas de Beleg.

Mais criaturas apareceram. Kobta as arremessava contra as paredes com seus tiros, enquanto Sir Finley lutava mesmo depois de receber um golpe que quase o derrubou. O ladino levantou-se e respondeu com seu chicote, usando seu ataque furtivo para enfraquecer um dos Andarilhos. Em seguida, espalhou Peçonha Irritante pelas flechas de Beleg.

Foi então que decidimos descobrir o que aquela estátua realmente era.

Kobta disparou contra ela, fazendo-a recuar alguns metros. Aproveitei o momento para envolver Sir Finley com minha secreção cicatrizante, cobrindo seus ferimentos com o muco amarelado que rapidamente fechou suas lesões. Depois, invoquei Armamento da Natureza, abri minhas asas de barata e voei diretamente contra a estátua.

Agarrei a criatura.

Ela tentou resistir, mas eu a prendi com meus múltiplos membros e comecei a golpeá-la. Seus ataques mágicos pouco adiantavam contra mim. Outros Andarilhos tentaram me alcançar, mas Kobta os repeliu com seus disparos, enquanto Beleg interceptava aqueles que avançavam contra Finley.

Kobta recarregou suas pistolas e preparou um disparo especial. Finley continuou golpeando e envenenando os Andarilhos, enquanto Beleg fazia o Tenor cantar novamente, destruindo mais um inimigo com suas flechas.

Então tirei minha manopla, saquei minha orbe cristalina e deixei a Transformação de Guerra tomar conta do meu corpo.

Foi nesse momento que descobrimos a verdade.

Aquela não era uma estátua.

Era um Golem de Pedra.

E ele era muito mais forte do que parecia.

O monstro me atingiu com violência. No primeiro golpe, usei Desprezar Realidade para negar o impacto. No segundo, porém, sua força foi suficiente para destruir completamente a proteção que minha Transformação de Guerra me concedia. Mesmo assim, continuei de pé.

Sir Finley preparou sua Essência de Sombra e a aplicou ao meu Punho de Mitral. Depois, lançou esporos de cogumelo sobre o golem, usando sua habilidade de veneno persistente para afetá-lo apesar de sua resistência. A criatura ficou mais lenta.

E então o corredor se encheu de Andarilhos.

Vieram dezenas deles.

Não importava.

Kobta transformou suas pistolas energéticas em uma tempestade de projéteis. Beleg disparava flechas do Tenor sem dar aos monstros sequer tempo para respirar. Sir Finley fazia seu chicote cantar, espalhando veneno a cada golpe. As criaturas caíam umas sobre as outras, enquanto sangue e pedaços de carne se espalhavam pelo chão da masmorra.

Eu, porém, tinha apenas um alvo.

O Golem.

Reuni tudo o que ainda possuía: minha magia, minha força e a fúria da Tormenta. Avancei contra ele e descarreguei uma sequência brutal de golpes. Meus múltiplos braços golpearam a pedra repetidamente, cada impacto abrindo novas rachaduras.

Primeiro, uma fissura atravessou seu peito.

Depois outra.

Então a estrutura inteira começou a tremer.

Continuei golpeando até que o corpo do Golem finalmente não suportou mais. A pedra se rompeu em uma explosão violenta, espalhando centenas de fragmentos pelo corredor.

Quando a poeira baixou, encontramos aquilo que havíamos atravessado toda aquela maldita masmorra para buscar.

A rocha negra, o Fragmento do Coração Negro, estava diante de nós.

Depois de venenos, monstros, escuridão, Andarilhos e um Golem de Pedra, finalmente havíamos encontrado o que procurávamos.

Missão cumprida.




Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Estátuas no caminho



Zanzertein,

Depois da batalha contra o Elemental do Veneno, Sir Finley aproveitou os restos das criaturas e dos cogumelos para extrair suas essências venenosas, guardando tudo para usar em futuros combates. Seguimos pelas ruínas até encontrar algo ainda mais estranho: uma substância negra, semelhante a um redemoinho, escorrendo de uma árvore e exalando um forte cheiro de enxofre.

Beleg disparou uma flecha contra aquilo, mas ela simplesmente atravessou a escuridão. Kobta tentou descobrir uma possível fraqueza, mas percebeu que aquilo não era uma criatura. Quando me aproximei, a substância tentou sugar minha própria energia vital, causando uma forte dor. Por sorte, um pássaro que sobrevoava o local acabou sendo atingido pela escuridão e se desintegrou instantaneamente. Não precisamos de mais explicações: desviamos do caminho.

O problema é que encontramos outras poças semelhantes quilômetros adiante. E depois mais algumas. Aquele pântano estava literalmente espalhado de manchas de escuridão capazes de matar qualquer coisa que se aproximasse.

Seguimos com cuidado, enquanto Kobta usava seu truque de invisibilidade para reconhecer o terreno. Beleg avistou uma estátua segurando uma lança e destruiu-a com suas flechas. Sir Finley, sempre pensando no próximo combate, aplicou Peçonha Concentrada nas minhas manoplas e nas balas de Kobta.

Pouco depois, figuras encapuzadas surgiram. Kobta abriu fogo contra uma delas, mas o inimigo rebateu o disparo com uma cimitarra, utilizando uma técnica que chamou de Barreira de Lâminas. Beleg respondeu imediatamente com um Tiro de Sentinela, acertando o encapuzado e empurrando-o para trás. Kobta atingiu outro com seus disparos, enquanto eu avancei usando meus poderes da Tormenta, Velocidade e Punho de Mitral. Curiosamente, o veneno aplicado por Finley parecia causar mais estrago do que meus próprios socos.

Beleg acertou outro encapuzado e o lançou diretamente no lodo negro. A criatura foi consumida instantaneamente pela escuridão. Finley então preparou seu chicote com mais veneno e, quando outro inimigo se aproximou, uma única chicotada o deixou bastante ferido. Kobta completou o serviço com seus disparos, empurrando-o para dentro da poça negra.

Avancei voando com Kobta para reconhecer o caminho e foi então que uma Górgona invisível surgiu diante de nós. Kobta reagiu primeiro e seus disparos a lançaram para longe. Quando finalmente conseguimos enxergá-la, sentimos seu poder de petrificação tentando nos dominar, mas resistimos.

Beleg, voando e carregando Sir Finley, finalmente entendeu a origem das inúmeras estátuas que encontrávamos pelo caminho.

Enquanto Beleg e Kobta mantinham a Górgona sob uma chuva de disparos, eu e Finley eliminamos o último encapuzado. Depois, concentramos nossos ataques na criatura. Flechas e balas a mantiveram afastada até que, finalmente, a Górgona tombou desfalecida.

O caminho estava novamente livre, mas aquele lugar continuava ficando cada vez mais estranho. Entre o lodo negro, as estátuas petrificadas e aquelas criaturas encapuzadas, começávamos a perceber que as Ruínas de Tyrondir escondiam algo muito mais perigoso do que apenas monstros.

Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Carta de Gyodai para Zanzertein

 


Zanzertein,

Viajamos na nuvem voadora até as Ruínas de Tyrondir, onde uma colossal cratera denuncia o local da queda da Flecha de Fogo. Seguimos por um pântano repleto de árvores secas, cogumelos venenosos e vinhas traiçoeiras, enquanto o cheiro de enxofre tomava o ar.

Avancei como batedor e, após escapar de algumas vinhas, lancei Velocidade em Massa, deixando toda a Cobra Nova mais rápida. Um colugmelo gigante ainda tentou me envenenar com seus esporos, mas resisti, apesar de ficar mais lento. Logo encontramos os repugnantes Andarilhos do Pântano. Kobta destruiu um deles com seus disparos e, usando minhas asas de barata, carreguei-o para reconhecer o terreno.

Sir Finley preparou sua Peçonha Irritante, certeza que arrancaria de Sir Milton um olhar emocionado ao perceber como seu antigo discípulo havia se tornado habilidoso. Então Beleg sacou pela primeira vez o lendário Tenor. A serpente na extremidade do arco emitiu um chiado ameaçador, e sua aura parecia digna de um artefato divino. Seus primeiros disparos destruíram completamente dois Andarilhos.

Mais adiante, novos cogumelos nos atingiram com esporos, deixando-nos novamente lentos. Esmaguei um Andarilho com meus punhos da Tormenta, enquanto Sir Finley disparou sua bazuca contra outro, deixando apenas as pernas. Kobta terminou o último com uma sequência de disparos energéticos que abriu enormes feridas em seu corpo.

Foi então que Kobta percebeu algo terrível: o sangue verde, ácido e venenoso dos mortos começou a se juntar, formando uma criatura. Um Elemental do Veneno, semelhante às criaturas encontradas em Venomia, surgiu diante de nós.

A criatura nos engolfou. Tentei desprezar a realidade, mas seu veneno era tão poderoso que começou a corroer minha carapaça. Kobta conseguiu reduzir os efeitos com seu truque de Escudo da Fé. Mesmo feridos, reagimos. Usei o Devorador Carmesim para golpear o elemental, enquanto Kobta disparava sem parar. Beleg voou com sua Capa de Arsenal e transformou o Tenor em uma chuva de flechas contra a criatura. Sir Finley analisou o inimigo com a lembrança de Sir Milton e realizou seu ataque assassino, aplicando veneno até mesmo em uma criatura feita daquela mesma substância.

O elemental ainda conseguiu nos atingir novamente, atravessando nossas defesas e causando ferimentos graves. Mas a Cobra Nova não recua diante de um pouco de veneno.

Reunimos nossas forças para o ataque final. Meus punhos esmagaram a criatura, Beleg disparou várias flechas do Tenor, Sir Finley aplicou sua peçonha e Kobta descarregou suas pistolas energéticas. Finalmente, o elemental perdeu sua forma e desabou no chão, transformando-se em uma enorme poça de veneno.

O caminho estava novamente livre.

E, pelo que já havíamos encontrado, eu tinha a impressão de que as Ruínas de Tyrondir ainda guardavam coisas muito piores.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O Chamado de Tenor e o Fragmento do Coração Negro


Voltamos para nossa base em Yuvallin carregando a exaustão de uma guerra que parecia não ter fim. Havíamos derrotado Kor Kovith, destruído navios puristas e rompido parte do cerco que sufocava a cidade, mas a vitória estava longe de ser completa. Ezequias não havia sido encontrado. Quanto mais investigávamos, mais forte se tornava a suspeita de que ele tivesse sido sequestrado pelos puristas.

Mesmo sem seu líder, os puristas não se renderam.

A morte de Kor Kovith havia sido um golpe brutal contra suas forças, mas não fora suficiente para quebrar sua determinação. A guerra continuava, e Yuvallin ainda permanecia cercada por inimigos, segredos e desaparecimentos.

Os Cobra Nova precisavam descansar.

Foi durante esse breve período de repouso que Beleg teve um sonho.

Ou talvez não tivesse sido apenas um sonho.

Beleg se viu em um lugar onde não existia Yuvallin, guerra ou o som dos canhões. Tudo estava silencioso. Então, diante dele, surgiu uma presença conhecida.

Era Zanzertein.

O velho mago falou com a tranquilidade de alguém que continuava pesquisando os mistérios do mundo mesmo enquanto seus companheiros lutavam pela própria sobrevivência.

— Vi tuas lutas, tua dor e tuas preces a Valkaria. Venho lhe mostrar algo que pode mudar teu destino.

Beleg permaneceu em silêncio.

Zanzertein continuou:

— Venho em sonho, pois há escolhas que a alma deve fazer sozinha e porque existem verdades que só podem ser ouvidas quando o corpo descansa e o espírito escuta. Há um arco. Mas ele não é um arco comum. É uma obra de mestres perdidos, forjado com adamante e guiado pela canção da cobra que nunca errou um golpe.

A imagem começou a se formar diante de Beleg.

Um arco.

Seu corpo era feito de adamante, trabalhado com uma precisão impossível. Em sua estrutura havia uma serpente esculpida, e sua boca parecia estar aberta, como se estivesse prestes a cantar.

— Ele é a precisão em sua forma mais pura. Não falha. Não vacila. É como um tenor que alcança a nota exata no momento exato. Por isso o chamam de TENOR. Porque acerta sem falsete.

A cobra do arco começou a emitir uma melodia estranha.

Não era uma música comum.

Era uma canção que parecia encontrar seu próprio caminho através do vazio.

— Ele não é fácil de obter, Beleg, e não é destinado a qualquer seteiro. Ele escolhe aqueles que compreendem que a verdadeira liberdade vem do domínio de si mesmo e da superação dos próprios limites. A cobra em sua boca canta, e de sua canção nascem flechas que encontram o alvo onde outros enxergam apenas sombras e falhas.

Então o tom de Zanzertein mudou.

— Mas cuidado. Sszzas observa aqueles que buscam poder e precisão. Sabedoria sem virtude é veneno para a alma. Tu és seguidor de Valkaria, a deusa da liberdade, dos aventureiros e daqueles que trilham o próprio caminho. Esse arco será teu aliado apenas se tua intenção for pura, teu coração permanecer firme e tua mente continuar livre.

O arco permaneceu suspenso diante de Beleg.

Então veio a pergunta.

— Aceitarás o chamado de Tenor?

Beleg não hesitou. Ergueu a cabeça e respondeu:

— Com minha fé, com minha liberdade, com minha pontaria e com meu nome... ACEITO!

A voz ecoou pelo sonho. E, por um instante, Beleg viu a imagem de Valkaria, majestosa e livre, como se observasse aquela escolha.

Quando acordou, sabia que seu caminho havia mudado. Nos próximos dias um arco chamado Tenor seria alcançado por Beleg.

E ele agora havia respondido ao chamado.

Enquanto Beleg recebia em sonho a promessa de uma nova arma, os demais membros dos Cobra Nova aproveitavam o descanso para se preparar para os perigos que certamente viriam.

Gyodai apresentou suas novas aquisições com a satisfação de quem havia acabado de descobrir novas formas de esmagar seus inimigos.

Um Cinto da Força do Gigante, capaz de ampliar ainda mais sua já monstruosa capacidade física, e um par de Manoplas Energéticas Maciças de Aço-Rubi.

Gyodai havia dado um nome às manoplas.

Devorador Carmesim.

O aço-rubi refletia uma energia ameaçadora, e era fácil imaginar aqueles punhos atravessando armaduras, paredes e costelas quando Gyodai resolvesse partir para cima de alguém.

Sir Finley também havia se preparado.

Seu novo chicote era uma obra impressionante: equilibrado, formidável e feito de aço-rubi, uma arma digna de um assassino capaz de transformar um simples golpe em uma sentença de morte. Além disso, adquiriu Botas Velozes, um Tomo da Inteligência e um Brinco da Inteligência, expandindo ainda mais sua capacidade de analisar seus inimigos e agir antes que eles percebessem o perigo.

Kobta, por sua vez, investiu em equipamentos que combinavam perfeitamente com sua maneira imprevisível de lutar.

Adquiriu Pulseiras da Delicadeza e um novo par de Pistolas de Tambor, equipadas com miras telescópicas, além de serem pungentes, maciças e energéticas.

Era difícil saber o que assustava mais: a precisão das armas ou o fato de que, por trás delas, existiam cinco kobolds escondidos sob uma manta, discutindo entre si quem havia acertado o melhor tiro.

Beleg se apresentou já portando o arco Tenor.

Mas o descanso não duraria.

Sir Finley recebeu uma visita. Diante dele estava Sir Milton, seu antigo tutor e amigo, o homem que, no passado, havia reconhecido o talento do tabrachi e ajudado a moldar parte do guerreiro que ele se tornara.

Sir Milton tinha um pedido. Precisávamos recuperar um objeto. O Fragmento do Coração Negro. Era um pequeno cristal escuro, do tamanho da palma de uma mão, encontrado no interior das antigas Ruínas de Tyrondir.

O nome Tyrondir não era desconhecido. Aquele havia sido o nome de um antigo Lorde da Tormenta, derrotado pelo lendário herói de Arton, Sir Orion Drake, juntamente com seu exército de deuses.

A existência daquele fragmento levantava perguntas perigosas. Seria apenas uma relíquia? Um pedaço de uma criatura derrotada? Ou algo muito pior?

Sir Finley aceitou o chamado. Enquanto isso, longe dali, em Vectora, Zanzertein continuava trabalhando.

Gyodai havia providenciado uma pia de ouro para o mago, e Zanzertein utilizou aquele objeto em um de seus rituais de pesquisa. Concentrando sua energia arcana, ele conjurou uma magia destinada a encontrar respostas nas histórias esquecidas do mundo.

— “Que as memórias do mundo revelem aquilo que os séculos tentaram esconder...”

A magia Lendas e Histórias percorreu os segredos do passado.

Visões surgiram. Ruínas. Pântanos. Pedras antigas. E, finalmente, uma imagem se tornou clara. O Fragmento do Coração Negro estava escondido em uma masmorra localizada em um pântano, nas antigas Ruínas de Tyrondir.

Mas havia algo ainda mais importante. Aquela região era o local onde havia caído um meteoro conhecido como Flecha de Fogo.

Zanzertein encontrou o local. E agora nós tínhamos um novo destino. Enquanto Yuvallin continuava sofrendo com a guerra e Ezequias permanecia desaparecido, um novo mistério nos chamava.

Um cristal negro. As ruínas de Tyrondir, onde havia caído um meteoro chamado Flecha de Fogo. E eu, Gyodai Meduzan Okelamp, já tinha uma sensação muito ruim sobre tudo isso.

O que, naturalmente, significava que provavelmente seria muito divertido.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Príncipe Conrad




Depois de um longo hiato, voltei a sentir aquela velha sensação de estar exatamente onde deveria estar: no meio de uma carnificina. A manada de Berbarans ainda rugia diante de nós, coberta de fogo e ódio, mas já estava enfraquecida. Meus múltiplos membros avançaram como uma tempestade de golpes, enquanto o vampiro que havia invocado descia sobre as criaturas com sua espada longa e suas garras. Cada corte arrancava jorros de sangue incandescente dos monstros, e o chão começava a se transformar em uma mistura de terra, sangue e chamas.

Os Berbarans responderam com seus poderosos sopros. Finley desapareceu em um rolamento e simplesmente deixou as chamas passarem por onde estava. Eu não tive a mesma sorte. Ergui um Campo de Força no último instante, mas o fogo atravessou parcialmente minha defesa e envolveu meu corpo aberrante. Continuei queimando enquanto avançava. Quando aquelas bestas se prepararam para investir novamente contra mim, simplesmente desprezei a realidade. O ataque veio, mas o mundo decidiu que aquela violência não precisava acontecer comigo.

Finley, por sua vez, fez o que sabe fazer melhor. Seu chicote cortou o ar e encontrou a carne dos Berbarans, levando consigo uma dose generosa de seu veneno. Em seguida, lançou uma granada no meio da manada. A explosão fez os monstros gritarem, e o fogo de seus próprios corpos se misturou às chamas provocadas pela explosão. No fim, não havia mais uma manada. Havia apenas cadáveres queimados espalhados pelo chão.

Abri minhas asas de barata, agarrei Finley e saímos voando daquele inferno antes que alguma outra criatura resolvesse nos transformar em churrasco.

Finalmente, o grupo Cobra Nova estava reunido novamente. Bebemos poções, utilizamos o muco para fechar ferimentos e recuperamos o fôlego antes de seguir até os portões da Fundição Central de Yuvallin. O problema era que soldados Puristas patrulhavam a região. Não estávamos interessados em descobrir quantos soldados seriam necessários para nos transformar em peneiras, então preferimos a discrição.

Salto Dimensional.

Num instante estávamos diante dos portões e, no seguinte, já havíamos passado pela guarnição sem que percebessem nossa presença. Continuamos avançando pela parte de dentro da Fundição, até que começamos a ouvir gargalhadas. O ar ficou cada vez mais quente. O calor aumentava a cada passo, até que percebemos que estávamos nos aproximando da área principal da Fundição Central.

Uma sirene começou a tocar. Pessoas corriam desesperadas pelas ruas, tentando escapar daquele lugar. Kobta rapidamente percebeu que o sistema de alerta também interferia na conjuração de magias e tratou de sabotá-lo. Como sempre, quatro kobolds enrolados em uma manta conseguem fazer coisas que deveriam exigir uma equipe inteira de engenheiros.

Com o alarme comprometido, conjurei novamente o Salto Dimensional e transportei o grupo diretamente para dentro da Fundição Central.

Foi então que o encontramos.

O príncipe Conrad Kor Kovith nos aguardava.

Um Osteon completamente deformado pelas próprias convicções, cercado por escravos que trabalhavam sob um calor quase insuportável. As chamas da fundição iluminavam seus ossos enquanto ele nos observava como se tivéssemos acabado de entrar voluntariamente em uma armadilha.

E então ele começou a falar:

- “Minha mente não consegue compreender porque pequenos passarinhos saltitantes entraram de tão bom grado nesta gaiola. Por que desceram do céu ao inferno? Teriam se apaixonado por mim, o Príncipe? Sou tão puro, o mais puro de todos! Purguei minha própria carne nas chamas. Agora cantem, passarinhos. Cantem pela débil Kor Kovith e pela esplenderosa Supremacia. Cantem seus gritos de dor! O Príncipe irá dançar a música de vocês.”

Foi quando percebi que aquele maluco não estava apenas protegendo a fundição. Ele acreditava que aquele lugar era seu palco.

As Correntes de Labaredas de Ódio surgiram e avançaram contra Beleg. O arqueiro tentou escapar, mas Kobta ergueu seu truque de Escudo da Fé e conseguiu impedir que as chamas o ferissem gravemente. Ainda assim, as correntes envolveram Beleg e o prenderam.

Os soldados da fundição começaram a surgir de todos os lados.

Kobta bebeu uma poção de velocidade e realizou sua tradicional firula inspiradora antes de sacar a pistola. O primeiro disparo contra Kor Kovith passou longe do alvo, mas o segundo encontrou um soldado e o impacto do tiro lançou Kobta contra uma parede. Então eu ergui meus braços, e provei que sou um verdadeiro discípulo e filho de Anastácia, conjurando um poderoso feitiço de quarto círculo: "A Tormenta nos mantenham livres - LIBERTAÇÃO!"

Beleg não perdeu tempo. Bebeu sua poção de velocidade e ativou sua Concentração em Combate. A tatuagem em suas costas brilhou, revelando o rosto e o corpo de Valkaria, a deusa dos aventureiros. O arqueiro desapareceu em meio ao caos, emboscou um dos soldados e disparou uma flecha que atravessou sua testa. O homem caiu morto antes mesmo de compreender de onde havia vindo o ataque.

Enquanto isso, Sir Finley avançava na direção dos escravos. Em meio à batalha, ele não havia esquecido o verdadeiro motivo pelo qual estávamos naquela fundição.

Libertá-los.

Kor Kovith, porém, decidiu concentrar sua atenção em Kobta.

O Osteon surgiu diante dos kobolds e disparou contra eles em uma velocidade impressionante. O impacto atingiu seus ossos e os lançou para longe. Antes que pudessem se recuperar, Kor Kovith apareceu novamente diante deles e desferiu um golpe de espada envolto em trevas e chamas. A lâmina atingiu os kobolds e espalhou faíscas pelo chão.

Kobta respondeu.

Dessa vez, o disparo acertou em cheio o tórax do príncipe. A bala penetrou entre as costelas ósseas e o coice da pistola lançou Kor Kovith contra o outro lado da fundição.

Foi nesse momento que a arma amaldiçoada de Kobta tentou sussurrar seu veneno. Queria que os kobolds voltassem suas armas contra mim.

Mas Kobta resistiu.

Os quatro permaneceram unidos e, em vez de obedecer à arma, apontaram novamente suas pistolas para Kor Kovith. Uma sequência de disparos atingiu o Osteon e o lançou contra a parede, quebrando parte de seus ossos.

Eu também entrei na batalha.

Ativei meus poderes da Tormenta e conjurei Velocidade. Minha tatuagem de Pitágoras brilhou enquanto o Armamento da Natureza reforçava meus membros. Aquele combate já havia deixado de ser uma batalha comum. Era uma disputa entre tudo aquilo que Kor Kovith acreditava representar e tudo aquilo que nós havíamos vindo destruir.

Beleg encontrou uma abertura.

Sua flecha atravessou Kor Kovith com precisão brutal, deixando o príncipe ainda mais debilitado. O Osteon cambaleou, seus ossos rachados e seu corpo tomado pelos impactos.

Então Kobta terminou o serviço.

As quatro pistolas foram apontadas simultaneamente.

Os disparos ecoaram pela Fundição Central.

Uma vez.

Duas.

Várias vezes.

As balas atravessaram o corpo de Kor Kovith, quebrando costelas, destruindo articulações e despedaçando aquilo que restava de sua carne. O príncipe tentou permanecer de pé, mas seus ossos já não obedeciam.

Kor Kovith parou.

Completamente.

O grande líder purista da Fundição Central finalmente estava morto e destruído. 

E nós permanecíamos de pé.

A gaiola havia recebido seus primeiros pássaros.

Agora era a vez de Yuvallin cantar.

Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Portões



Enquanto o restante do grupo enfrentava seus próprios desafios pelas ruas devastadas de Yuvallin, Gyodai assumiu a dianteira diante da enorme manada de Berbarams que bloqueava o acesso ao grande portão.

Sem hesitar, o lefou despertou todo o poder da Tormenta que corria por suas veias. Seus punhos foram revestidos pela Empunhadura Rubra, o Visco Rubro escorreu por seus múltiplos membros, sua mente passou a ignorar as limitações da realidade e, por fim, ele ergueu a voz.

— Que a Tormenta rompa os limites da carne! Velocidade em Massa!

Uma onda de energia acelerou seu companheiro anfíbio.

Logo em seguida, seus olhos fixaram-se na manada.

— Nenhum golpe será desperdiçado. Concentração em Combate!

Transformado em um borrão rubro, Gyodai mergulhou entre os elementais e desferiu uma sequência quase impossível de acompanhar. Seus inúmeros braços golpeavam sem cessar, atingindo pescoços, costelas e cabeças flamejantes. No entanto, para sua surpresa, as criaturas suportaram o ataque muito melhor do que imaginava. Apesar da violência dos golpes, a manada permanecia praticamente inteira.

Pela primeira vez naquele confronto, Gyodai percebeu o vigor extraordinário dos Berbarams.

Atrás dele, Sir Finley permaneceu calmo.

Enquanto o lefou mantinha os monstros ocupados, o tabrachi retirou frascos, ervas e venenos de sua bolsa alquímica. Cada substância era aplicada cuidadosamente sobre o Chicote Doutrinador da Cobra Crescente, preparando uma combinação letal para o momento em que os elementais finalmente se aproximassem.

A resposta da manada veio imediatamente.

Os Berbarams abaixaram suas enormes cabeças incandescentes e investiram juntos, transformando o solo numa avalanche de fogo e impacto.

Gyodai apenas sorriu.

Seu corpo tornou-se intocável.

As criaturas atravessaram sua posição enquanto ele simplesmente desprezava a realidade, fazendo a gigantesca investida fracassar completamente.

Muito distante dali, outro combate acontecia sobre os telhados de Yuvallin.

Assim que Nove Dedos surgiu entre as construções, Kobta reagiu sem pensar duas vezes. A pistola de adamante rugiu, mas, para o completo espanto dos cinco kobolds, a bala desacelerou poucos centímetros antes do demônio, perdeu completamente sua força e caiu no chão.

Por alguns instantes, todos permaneceram de boca aberta.

Aquilo simplesmente não fazia sentido.

Nove Dedos abriu um sorriso debochado.

Sacou sua pistola e respondeu imediatamente.

O primeiro disparo voou em direção a Beleg, mas a armadura polida do arqueiro refletiu intensamente a luz ao mesmo tempo em que sua Capa de Arsenal liberava um poderoso Escudo Arcano, desviando completamente o projétil.

O segundo tiro encontrou seu alvo.

Entretanto, antes que a bala pudesse atravessar Beleg, Kobta estendeu a mão.

Seu truque ventanista ergueu um Escudo da Fé, reduzindo drasticamente o impacto, enquanto o próprio arqueiro endurecia seu corpo utilizando seu lendário Durão.

Mesmo ferido, permaneceu firme.

Kobta então respirou fundo.

Executou sua tradicional Firula Inspiradora, ingeriu uma poção de velocidade e utilizou seus conhecimentos para analisar o inimigo.

Após poucos segundos de observação, finalmente compreendeu o motivo daquilo.

— Ele é imune a armas de fogo... também é imune a venenos... e ainda reduz quase todo o dano recebido...

Os cinco kobolds se entreolharam.

Então Kobta virou-se para Beleg.

— Me empresta um arco.

Sem dizer uma palavra, Beleg entregou sua arma reserva ao companheiro.

Em seguida, bebeu sua própria poção de velocidade.

Marcou Nove Dedos como sua presa.

A tatuagem em suas costas irradiou uma intensa luz dourada. A imagem completa de Valkaria, deusa dos aventureiros, surgiu como uma manifestação divina.

Beleg respirou profundamente.

— Valkaria, guia minha mira. Que cada flecha seja um passo rumo à liberdade!

A concentração tornou-se absoluta.

A primeira flecha atravessou o peito do demônio.

Utilizando Emboscar, Beleg disparou novamente antes mesmo que o inimigo pudesse reagir. O segundo disparo foi ainda mais devastador.

Nove Dedos soltou um grito de dor.

A terceira flecha rasgou novamente seu peito.

O demônio recuou cambaleando enquanto lançava uma sequência de impropérios contra o arqueiro.

Nesse instante, novos inimigos surgiram.

Constructos defensivos da cidade abriram fogo.

Um dos enormes canhões disparou contra Kobta.

Os cinco kobolds rolaram pelo chão quase como uma única criatura, reduzindo o impacto a um simples arranhão.

Outro constructo apontou seu canhão para Beleg.

O disparo atingiu violentamente seu flanco, acertando a região do rim. O arqueiro sentiu o sangue escorrer sob a armadura, mas permaneceu de pé.

Quando o segundo tiro veio em sua direção, a Capa de Arsenal respondeu mais uma vez, criando um poderoso Escudo Arcano que bloqueou completamente o impacto.

Enquanto isso, no jardim incendiado, Gyodai concentrou novamente suas energias.

— Que o aço responda ao chamado da Tormenta! Punho de Mitral!

Seu braço transformou-se no metal prateado de fio perfeito.

Logo depois, a tatuagem de Pitágoras brilhou intensamente.

— A própria natureza será minha arma! Armamento da Natureza!

Por um breve instante, porém, o lefou perdeu o ritmo do combate. Seus inúmeros membros se desencontraram e ele acabou ficando momentaneamente desprevenido.

Sir Finley aproveitou para agir.

Analisou cuidadosamente os Berbarams e encontrou seus pontos vulneráveis.

Seu chicote serpenteou pelo ar.

A Peçonha Anciã penetrou profundamente na essência flamejante da manada.

Outra chicotada atingiu novas criaturas, espalhando o veneno entre elas.

Os Berbarams responderam com outra investida devastadora.

A explosão da colisão seria suficiente para atingir tanto Gyodai quanto Sir Finley.

Mas, antes que isso acontecesse, um vulto mergulhou diante deles.

A múmia-urubu que acompanhava Gyodai lançou-se contra a manada, sacrificando completamente seu corpo para absorver a violência do impacto.

Graças ao fiel servo morto-vivo, seu mestre permaneceu ileso.

Nos telhados, as balas explosivas disparadas anteriormente finalmente detonaram no corpo de Beleg.

Mesmo suportando a dor, o arqueiro continuou firme.

Nove Dedos tentou aproveitar a oportunidade.

Abaixou-se para mirar novamente.

Mas o brilho refletido pela armadura de Beleg ofuscou sua visão, fazendo o disparo errar completamente.

Kobta largou o arco por um instante.

Sacou novamente suas pistolas.

Um disparo lançou um dos constructos para longe.

Outro tiro atingiu a máquina antes mesmo que ela pudesse se levantar, destruindo-a completamente.

Beleg voltou a disparar.

Inspirado pela luz de Valkaria, suas flechas atravessaram o corpo de Nove Dedos repetidas vezes.

Outro constructo revelou sua verdadeira natureza.

Tratava-se de uma gigantesca Bateria de Artilharia.

Antes mesmo que conseguisse carregar seu enorme canhão, Kobta foi mais rápido.

Seu disparo arrancou a máquina do chão e a lançou vários metros para trás.

No jardim, Gyodai continuava distribuindo golpes contra toda a manada de Berbarams.

Sir Finley então retirou um pequeno cilindro metálico.

Arremessou-o entre os elementais.

A granada explodiu silenciosamente.

Uma espessa Fumaça Onírica espalhou-se pela região.

Os Berbarams interromperam completamente seus movimentos, ficando fascinados pelas ilusões produzidas pela névoa.

Nove Dedos voltou a atirar.

Mais uma vez Kobta ergueu seu Escudo da Fé, reduzindo o impacto antes que Beleg utilizasse novamente seu Durão para suportar o restante do dano.

Em seguida, Kobta destruiu completamente a Bateria de Artilharia com mais dois disparos precisos.

Guardou então suas pistolas.

Apanhou novamente o arco emprestado por Beleg.

Respirou fundo.

Disparou.

A flecha encontrou o peito de Nove Dedos.

O demônio gritou de dor.

Beleg sorriu discretamente.

Sem lhe dar qualquer oportunidade de reação, disparou uma sequência devastadora de flechas. Os projéteis atravessaram coxas, quadris e glúteos do demônio, obrigando-o a cambalear sob a violência dos impactos.

Do outro lado da cidade, Gyodai retirou uma poção de orientação e bebeu seu conteúdo.

Logo depois abriu um pergaminho antigo.

— Que o sangue antigo desperte. Assobio Perigoso!

Das sombras surgiu um imponente vampiro.

Empunhando uma espada longa, a criatura avançou imediatamente contra a manada de Berbarams, alternando cortes precisos com ataques de suas garras.

Sir Finley acompanhou o ataque.

Seu chicote voltou a estalar enquanto pequenas esporas de cogumelos venenosos eram lançadas entre os elementais, tornando seus movimentos cada vez mais lentos.

Os Berbarams voltaram toda sua atenção para o vampiro invocado.

Conseguiram feri-lo levemente, mas sua postura imponente parecia intimidar até mesmo criaturas feitas de fogo.

Logo depois, lançaram uma gigantesca baforada flamejante contra Gyodai e Sir Finley.

Gyodai simplesmente ignorou o ataque.

Desprezar Realidade fez com que as chamas sequer o alcançassem.

Sir Finley atravessou a explosão com um elegante salto, escapando completamente graças à sua evasão.

Enquanto isso, Kobta finalmente encontrou a abertura perfeita.

Empunhando o arco, disparou uma sequência de flechas cada vez mais precisa.

A última delas atravessou o coração de Nove Dedos.

O demônio cambaleou.

Tentou erguer novamente sua pistola.

Mas seu corpo já não respondia.

Com um último grito de ódio, tombou definitivamente sobre os telhados de Yuvallin.

Gyodai tinha sua atenção para os Berbarams.

Concentrou novamente sua mente.

— Um golpe perfeito encerra qualquer batalha. Concentração em Combate!

Ele e o vampiro atacaram em perfeita sincronia, enquanto Sir Finley surgia pelas sombras para desferir um devastador golpe furtivo de chicote, seguido por mais uma granada alquímica.

A manada continuava sendo consumida lentamente por venenos, cortes e sucessivos impactos.

Quando tentaram reagir, voltaram-se contra o vampiro.

Entretanto, a imponência sobrenatural da criatura drenou completamente sua coragem.

Os Berbarams hesitaram.

E essa pequena hesitação talvez fosse exatamente o que os heróis precisavam para vencer aquele combate.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Fuga e Fogo



Os Kobta oculto sob a manta caíram no Distrito do Carvão, uma vasta região de fazendas, pastagens e depósitos de lenha que alimentavam os fornos de Yuvallin. O plano inicial era atravessar as estufas, mas, ao perceberem a intensa movimentação de patrulhas, decidiram contornar toda a área para permanecerem invisíveis.

Mesmo escondidos pelo truque ventanista que simulava invisibilidade, um constructo de vigilância interrompeu sua ronda. Seus olhos metálicos percorreram lentamente os campos, procurando qualquer anomalia. Kobta buscou rapidamente algum animal do pasto para provocar uma distração, mas encontrou apenas currais vazios e cercas destruídas pela guerra. Sem outra alternativa, conduziu silenciosamente seus quatro irmãos entre montes de carvão e carroças abandonadas. Cada passo era calculado com precisão absoluta. O constructo passou a poucos metros deles, mas os kobolds permaneceram completamente despercebidos, desaparecendo nas sombras do distrito sem deixar qualquer vestígio.

Enquanto isso, Gyodai e Sir Finley caíram em outra região da cidade. O lugar um dia fora um belo jardim público, mas agora restavam apenas árvores carbonizadas, estátuas quebradas e canteiros consumidos pelas chamas. Atrás deles, um incêndio gigantesco devorava tudo, tornando impossível qualquer retirada. Restava apenas seguir em frente.

Sir Finley aproveitou aqueles breves instantes para preparar sua arma. Espalhou cuidadosamente sua peçonha concentrada sobre o chicote, deixando cada elo impregnado com um veneno mortal.

Logo adiante, um touro completamente envolto em fogo atravessou o jardim em disparada. A criatura sequer olhou para eles, fugindo desesperadamente das próprias labaredas que consumiam a região. No entanto, seu aparecimento foi apenas o prenúncio do verdadeiro perigo.

Das tubulações rompidas do sistema de aquecimento começaram a emergir enormes elementais de fogo. Durante décadas, aquelas criaturas haviam alimentado os fornos subterrâneos de Yuvallin. Agora, com todo o mecanismo destruído pelos combates, vagavam livres e enfurecidas.

O primeiro deles assumia a forma de um gigantesco boi flamejante.

Berbaram abaixou a cabeça e investiu violentamente contra Sir Finley. A marrada incendiária explodiu ao atingir o solo, levantando uma onda de fogo. O tabrachi executou um rolamento defensivo para absorver parte do impacto e, antes que as chamas o envolvessem, saltou para o lado com sua extraordinária evasão, escapando praticamente ileso.

Gyodai abriu um largo sorriso.

As marcas da Tormenta espalharam-se por seu corpo, seus punhos adquiriram o característico tom rubro e seus inúmeros membros começaram a se mover em perfeita sincronia.

— A Tormenta não conhece limites. Que o impossível seja apenas mais uma ilusão!

Sob o efeito de Velocidade em Massa, Concentração em Combate e Desprezar Realidade, o lefou desapareceu diante dos olhos dos elementais e surgiu sobre Berbaram. Uma sequência devastadora de golpes caiu sobre o corpo ígneo da criatura, espalhando brasas e lava líquida pelo jardim destruído.

Sir Finley estudou cuidadosamente os movimentos do elemental.

Com a serenidade de um verdadeiro assassino, analisou seus pontos vulneráveis e concentrou sua mente.

— Valkaria, conduza minhas mãos. Onde houver um caminho para a vitória, meu golpe o encontrará.

A tatuagem em suas costas irradiou a imagem completa de Valkaria enquanto sua concentração atingia o máximo.

Seu chicote serpenteou pelo ar e atingiu Berbaram em cheio.

O impacto fez jorrar sangue de lava sobre o tabrachi, mas, com uma rápida cambalhota, ele evitou ser atingido. O veneno especial começou imediatamente a percorrer a essência elemental da criatura, corroendo seu núcleo de energia.

Sem perder tempo, Sir Finley espalhou parte daquela toxina sobre a manopla de Gyodai.

Berbaram rugiu.

Uma torrente de fogo saiu de sua boca, varrendo o campo de batalha. Sir Finley escapou novamente graças à sua evasão, enquanto Gyodai suportou parte das chamas. Aproveitando o impulso do sopro, o elemental avançou e acertou violentamente a lateral da cabeça do tabrachi. O golpe atingiu seu ouvido, deixando-o temporariamente surdo.

Gyodai respondeu imediatamente.

Seus múltiplos braços desferiram uma chuva de socos sobre o Berbaram responsável pelo ataque. Os impactos rasgaram o corpo flamejante da criatura até que ela finalmente se dissipou em cinzas incandescentes.

Outro Berbaram avançou em seguida.

Gyodai ergueu uma barreira mágica.

— A realidade não me alcança. Campo de Força!

A investida explodiu contra a barreira invisível sem conseguir atravessá-la.

Sir Finley aproveitou a abertura. Seu chicote da Cobra Crescente envolveu o elemental enquanto o veneno penetrava novamente em sua essência ardente.

Com a velocidade ampliada pela magia, Gyodai tornou-se praticamente impossível de acompanhar. Seus punhos envenenados atingiram Berbaram dezenas de vezes em poucos segundos. A criatura enfraquecia a cada impacto.

Ainda assim, o elemental lançou outra explosão de fogo.

Gyodai ergueu novamente sua proteção mágica.

— Que a Tormenta esmague as leis do mundo! Campo de Força!

A barreira absorveu toda a explosão.

Sir Finley atravessou as chamas com um salto acrobático, escapando mais uma vez graças à sua evasão.

Berbaram tentou sua última marrada desesperada.

Outra vez encontrou apenas a barreira invisível criada pelo lefou.

Logo depois, Gyodai e Sir Finley avançaram juntos.

Os socos monstruosos do filho da Tormenta e o chicote venenoso do tabrachi atingiram o elemental simultaneamente. O núcleo de fogo da criatura se rompeu, espalhando uma chuva de brasas pelo antigo jardim.

O silêncio voltou ao campo de batalha.

Muito distante dali, Beleg enfrentava um adversário completamente diferente.

Das sombras surgiu um demônio conhecido como Nove Dedos, uma criatura famosa por negociar destinos e corromper guerreiros.

Com um sorriso debochado, ele ergueu sua pistola.

— Ainda há tempo de abandonar esse arco. A pólvora é o futuro.

Beleg respondeu apenas esticando lentamente a corda de seu arco.

O duelo começou.

Três disparos ecoaram quase ao mesmo tempo.

As balas atingiram o arqueiro com violência, mas Beleg endureceu todo o corpo utilizando sua resistência sobre-humana. Mesmo ferido, permaneceu firme.

Então respirou profundamente.

A tatuagem em suas costas brilhou intensamente, revelando a imagem completa de Valkaria, deusa dos aventureiros, irradiando luz dourada.

Beleg declarou:

— Valkaria, que minha flecha atravesse o medo e abra o caminho da liberdade!

Sua concentração tornou-se absoluta.

A primeira flecha atravessou o peito do demônio, marcando-o como sua presa.

Usando a técnica Emboscar, disparou uma segunda flecha antes que o inimigo pudesse reagir.

A terceira veio logo em seguida, rasgando novamente a carne demoníaca e obrigando Nove Dedos a recuar.

Mas havia uma armadilha.

As balas que haviam atingido Beleg explodiram repentinamente em seu corpo.

No mesmo instante, Nove Dedos realizou outro disparo, destinado a matá-lo.

Antes que o projétil o alcançasse, porém, a múmia mestra lançou-se diante do arqueiro.

O disparo atravessou o morto-vivo, poupando Beleg de um golpe fatal.

Sem perder tempo, o arqueiro escalou rapidamente uma construção usando sua agilidade. Lá do alto encontrou uma porta entreaberta que conduzia a um abrigo improvisado.

Diversos moradores de Yuvallin permaneciam escondidos ali, tentando sobreviver ao domínio purista.

Beleg ingeriu uma poção de Campo de Força, reforçando suas defesas.

Percebendo que Nove Dedos continuava em seu encalço, abandonou imediatamente aquele esconderijo, atravessou outra passagem estreita e desapareceu entre as construções.

O demônio vasculhou a região por vários minutos.

Sem conseguir encontrá-lo, desistiu da perseguição e foi embora.

Pouco depois, os caminhos finalmente voltaram a se cruzar.

Gyodai e Sir Finley chegaram diante de um gigantesco portão de ferro que parecia proteger uma das áreas centrais de Yuvallin.

Instantes depois, Beleg surgiu pelo lado oposto.

Kobta também emergiu silenciosamente das sombras do Distrito do Carvão.

No entanto, eles não estavam sozinhos.

À frente do grande portão aguardava uma verdadeira manada de Berbarams, espalhando calor sufocante por toda a praça. Entre eles, Nove Dedos reapareceu girando lentamente sua pistola enquanto sorria para Beleg.

O silêncio que se instalou durou apenas alguns segundos.

Todos perceberam a mesma coisa.

Aquele portão era importante demais para estar protegido apenas por aqueles inimigos.

Se a lógica dos puristas permanecesse a mesma, havia grandes chances de que um adversário muito mais poderoso estivesse esperando do outro lado.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Al Mirante



Antes de qualquer retirada, Kobta avistou o almirante voando a quase trinta metros de distância. Os cinco kobolds respiraram em uníssono enquanto seus olhos acompanhavam a trajetória do inimigo. Então, o ventanista marcou seu alvo.

O primeiro disparo encontrou exatamente o ponto vulnerável da armadura. O projétil de adamante atravessou a proteção metálica, arrancando um urro de dor que ecoou pelos céus. Enquanto o oficial tentava recuperar o equilíbrio, Kobta percebeu o broche preso ao peito de sua armadura.

Não era um simples capitão.

Era um almirante purista.

Sem desperdiçar um único instante, Kobta disparou novamente. A segunda bala o lançou para trás como se tivesse sido atingido por um aríete invisível. Antes mesmo que pudesse reagir, vieram o terceiro e o quarto tiros. Cada impacto empurrava o almirante cada vez mais para longe, até que o último projétil atravessou seu corpo e encerrou definitivamente sua vida. O cadáver despencou do céu enquanto a armadura fumegava, derrotada pela precisão quase sobrenatural do pistoleiro kobold.

Enquanto isso, isolado na Área de Tormenta, Gyodai continuava seu duelo contra Exarca.

O lefou encarou a criatura e, mesmo cercado pela influência de Aharadak, abriu um sorriso estranho antes de falar:

— Exarca... na minha última noite de sono eu tive um sonho. Vi um druida transformado em um louva-a-deus metálico, atacando com enormes pinças em forma de navalha. Não faço ideia do que isso significa... mas D.A.I.L.E.O.N., me ajude!

Logo após a estranha invocação, seus inúmeros membros aberrantes envolveram Exarca. Os braços extras prenderam a criatura com força suficiente para esmagar aço, enquanto seus punhos deformados desferiam uma sequência brutal de golpes. Exarca resistia como poucas criaturas conseguiam, suportando cada impacto graças à sua natureza lefeu.

A resposta veio imediatamente.

A criatura golpeou com sua adaga envenenada, mas Gyodai ergueu a mão envolta em energia e bradou:

— Que a própria realidade se curve diante da Tormenta! Campo de Força!

A lâmina ricocheteou na barreira mágica.

Exarca então tentou rasgar o lefou com suas garras, mas perdeu o equilíbrio durante o movimento. O erro foi suficiente para comprometer toda a sequência de ataques, desperdiçando a oportunidade de inverter o combate.

Do lado de fora do templo, Sir Finley continuava sabotando o gigantesco encouraçado voador. Observando cuidadosamente a estrutura interna do Corvo de Krauser, encontrou outra tubulação responsável por alimentar os mecanismos do navio.

Seu chicote de aço-rubi serpenteou pelo ar.

— Vamos ver se vocês gostam de um pouco de disciplina...

O Chicote Doutrinador da Cobra Crescente estalou violentamente, abrindo uma longa rachadura na tubulação.

Beleg percebeu imediatamente a abertura criada pelo companheiro. Ergueu seu arco de aço-rubi enquanto a tatuagem em suas costas irradiava luz dourada. A imagem completa de Valkaria, deusa dos aventureiros, manifestou-se como se observasse o arqueiro.

Beleg respirou fundo e declarou:

— Valkaria, guia minha mira. Que minha flecha abra o caminho daqueles que jamais deixam de avançar!

Sua concentração tornou-se absoluta.

A flecha atravessou exatamente a rachadura criada por Sir Finley e destruiu completamente a tubulação, fazendo energia mágica escapar em violentas explosões.

Kobta não desperdiçou a oportunidade. Assim que encontrou outra conexão estrutural, descarregou suas pistolas de adamante contra ela. As engrenagens explodiram, pedaços de metal voaram em todas as direções e outra parte vital do encouraçado foi destruída.

Dentro do templo de Aharadak, Gyodai aproveitou o desequilíbrio do adversário.

Mantendo Exarca firmemente agarrado com seus membros aberrantes, o lefou desferiu uma sequência devastadora de socos. Ossos se partiram, quitina rachou e, por fim, a criatura tombou sem vida.

Quando o manto negro escorregou de seu corpo, sua verdadeira forma foi revelada.

Exarca era um Reishid, uma criatura de aspecto insetoide, dotada de grandes asas membranosas e deformações típicas da Tormenta. Ainda assim, aos olhos de Gyodai, não era nem de longe tão monstruoso quanto ele próprio.

O lefou recolheu os espólios com calma.

Uma adaga da Tormenta.

Uma bolsa corrompida pelas energias lefeu.

Dentro dela, encontrou uma valiosa tornozeleira encantada.

Além disso, Exarca utilizava uma armadura completa reforçada, perfeitamente ajustada ao seu corpo, cuidadosamente polida e cravejada de gemas.

Todos aqueles equipamentos seriam levados para venda após o término da campanha militar.

Com o Corvo de Krauser agora reduzido a uma distração, Capitã Lislah apresentou a etapa seguinte da operação.

Não era possível utilizar teleporte para atravessar as barreiras mágicas que protegiam Yuvallin.

A única alternativa seria uma infiltração.

Enquanto o Corvo de Krauser atraísse a atenção das forças puristas, o Mariposa faria uma aproximação silenciosa. Dali, o grupo saltaria diretamente sobre a Fundição Central, a fonte de calor que mantinha toda a cidade funcionando.

Segundo a rede de inteligência de Lislah, um único homem coordenava toda a resistência purista dentro da cidade.

Seu nome era Príncipe Conrad Kor Kovith.

Um adversário cuja reputação bastava para preocupar até os veteranos mais experientes.

Sem hesitação, Beleg, Gyodai, Kobta e Sir Finley saltaram do convés do Mariposa.

Durante a queda, Kobta executou um de seus famosos truques de ventanista. Os cinco kobolds ocultos sob a manta desapareceram da vista de todos, criando a perfeita ilusão de invisibilidade enquanto desciam silenciosamente sobre a cidade.

Kobta pousou numa região conhecida como Jardim Estufa, onde enormes estruturas de vidro protegiam plantações cultivadas sob intenso calor artificial. O ambiente era abafado, tomado pelo vapor e pelo cheiro de terra úmida.

Fora das estufas caminhava um gigantesco constructo armado com diversos canhões, responsável por proteger toda aquela área estratégica.

Enquanto Kobta avaliava a situação, percebeu algo inquietante.

Não existia apenas um.

Outros constructos patrulhavam a região, realizando varreduras constantes entre as plantações.

Mesmo ocultos por sua invisibilidade ilusória, um dos autômatos interrompeu a patrulha.

Seus olhos artificiais brilharam em vermelho.

A cabeça metálica girou lentamente na direção exata onde Kobta se encontrava.

Os cinco kobolds trocaram olhares sob a manta.

Pela primeira vez naquela missão, alguém... ou alguma coisa... havia conseguido enxergá-los.


Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Corvo de Krauser


Após a destruição da Diligência Dracocérbera e um breve período de recuperação, o grupo finalmente conseguiu alguns momentos para reorganizar equipamentos, tratar ferimentos e recuperar parte do poder mágico consumido nas batalhas anteriores. O descanso foi curto, porque todos sabiam que ainda havia um último alvo nos céus de Yuvallin.

Sir Finley assumiu novamente o comando do Mariposa e conduziu o navio através das correntes de vento e das nuvens escuras que cobriam a região. Depois de algum tempo de perseguição silenciosa, ele finalmente localizou o último navio purista.

O Corvo de Krauser.

Diferente dos anteriores, ele não parecia apenas uma fortaleza voadora — parecia uma plataforma de guerra construída para esmagar cidades inteiras. Sua estrutura cilíndrica era envolta por dezenas de canhões distribuídos em todas as direções, além de dois hyper canhões que dominavam sua silhueta como presas gigantescas apontadas para o horizonte.

Kobta, Sir Finley e Beleg passaram alguns instantes estudando a embarcação e rapidamente definiram os objetivos necessários para derrubá-la: romper o invólucro mágico do balão, silenciar as baterias de canhões, destruir tubos e conexões que alimentavam os sistemas internos, profanar o templo de Aharadak escondido em seu interior e derrotar o Capitão Krauser.

Enquanto os outros planejavam, Gyodai permaneceu imóvel. Havia algo ali. Uma sensação familiar.

Seu olhar atravessou as estruturas metálicas do navio como se enxergasse além do aço e encontrou o que procurava.

Um templo dedicado a Aharadak.

Por um instante ele sentiu como se o próprio deus o observasse. Como se estivesse sendo chamado.

Kobta foi o primeiro a agir. Fez sua firula inspiradora para reforçar os próprios reflexos, bebeu uma poção de orientação, girou suas pistolas e disparou. A bala acertou diretamente um dos canhões do Corvo de Krauser e a explosão arrancou placas metálicas que caíram pelos céus.

Sir Finley tentou acompanhar o ataque usando sua pistola, mas o disparo passou raspando.

Beleg então deu um passo à frente. Ele ergueu seu arco de aço-rubi e puxou lentamente a corda. Nas suas costas, a tatuagem começou a brilhar.

A figura completa de Valkaria apareceu em luz dourada sobre sua pele — não apenas o rosto, mas o corpo inteiro da deusa dos aventureiros, imponente, como se guiasse seu braço.

Beleg murmurou:

— Valkaria… mostra onde devo abrir caminho. Concentração em Combate.

As flechas partiram numa sequência precisa e atingiram o canhão já danificado. O impacto quase o destruiu completamente.

A resposta veio imediatamente. O Corvo de Krauser abriu fogo. Sir Finley desviou com habilidade.

Beleg girou no ar e evitou os disparos.

Gyodai conjurou Campo de Força e absorveu quase toda a explosão, embora um fragmento ainda conseguisse atravessar sua defesa e abrir um corte superficial em seu rosto.

Kobta recebeu um impacto muito mais perigoso e precisou improvisar um Escudo da Fé através dos seus truques para sobreviver.

Sem perder ritmo, Kobta respondeu com novos disparos e destruiu outro canhão. Beleg acompanhou o ataque com novas flechas de aço-rubi.

Então o Corvo de Krauser executou uma manobra defensiva.

Toda sua estrutura girou lentamente, revelando uma segunda linha inteira de canhões preparados para disparar.

Kobta sorriu. Mirou. Atirou. Um dos hyper canhões explodiu.

Nesse momento, Gyodai abriu um portal dimensional e levou todos diretamente para dentro da embarcação.

Assim que surgiram, Sir Finley analisou rapidamente um dos mecanismos internos, encontrou um ponto vulnerável e atacou com o Chicote da Cobra Crescente. O golpe abriu rachaduras profundas na estrutura e permitiu que Beleg complementasse o dano com uma sequência de flechas.

Mesmo assim, os canhões restantes continuavam disparando. Lá fora, o Mariposa recebeu impactos violentos e começou a sofrer danos severos.

Kobta recarregou e continuou desativando baterias.

Gyodai conjurou Velocidade, abriu suas asas de barata e avançou como um projétil vivo. Seus múltiplos membros golpearam os mecanismos sem parar até destruir dois canhões praticamente sozinho.

Sir Finley avançou pelo convés usando seu chicote de aço-rubi da cobra crescente para romper mais estruturas.

Beleg ativou sua capa de Arsenal, ganhou altitude e destruiu outro canhão.

Foi então que Gyodai parou. Seus olhos se fixaram numa porta. Ele começou a caminhar. Nenhum dos outros conseguiu impedi-lo.

Entrou. Do outro lado havia Tormenta. Um templo pulsando como carne viva. Paredes que respiravam. Ar contaminado. E alguém esperando.

Exarca. O Arauto atacou imediatamente. O combate começou sem palavras. Exarca ergueu a mão e lançou Marca da Obediência.

Gyodai desprezou a realidade. Nada aconteceu. Exarca avançou com adaga, mordida e garras.

Gyodai respondeu conjurando Campo de Força e absorvendo os impactos. Kobta alcançou a entrada e tentou falar com ele.

Sem olhar para trás, Gyodai respondeu:

— Não entra. Isso aqui é comigo.

Então conjurou Punho de Mitral. Seu braço de ogro se revestiu de metal prateado. Ele atacou. Golpes rápidos. Sequências brutais.

Exarca foi atingido várias vezes, mas resistiu. Gyodai percebeu. Sorriu. Ao lado dos seus urubus mortos-vivos, encarou a criatura com entusiasmo.

Aquilo era um desafio digno. Lá fora, o combate continuava. Sir Finley e Beleg destruíram os últimos canhões. Foi quando a cabine principal se abriu.

O Capitão do Corvo de Krauser apareceu.

Um homem alto, cabelos longos, bigode branco e uma cicatriz atravessando o rosto. Vestia uma armadura tecnológica equipada com dois enormes canhões acoplados.

Ele apontou para Kobta. Mas Kobta foi mais rápido. Disparou. A bala de aço-rubi acertou em cheio e lançou Krauser para trás.

O capitão ativou propulsores e respondeu imediatamente. Um disparo foi interceptado por uma múmia sacrificada. O outro Kobta evitou rolando e usando Escudo Arcano.

Enquanto isso, dentro do templo, Exarca lançou Anular a Luz. Gyodai ignorou. A mordida falhou. Mas uma garra e a adaga encontraram espaço.

Campo de Força absorveu parte. Veneno entrou. Gyodai resistiu. Ainda assim sentiu seus músculos desacelerando. Exarca sorriu.

Gyodai sorriu de volta. Do lado de fora, Krauser preparava seus canhões. Do lado de dentro, Exarca mostrava as presas. 

Os dois confrontos épicos tinham apenas começado.



segunda-feira, 22 de junho de 2026

Apenas um Navio



O combate sobre a Diligência Dracocérbera continuava enquanto o navio purista, mesmo sem os dragões escravizados, permanecia suspenso por mecanismos internos e energia acumulada. O objetivo agora era claro: desmontar aquela monstruosidade peça por peça antes que ela pudesse voltar a disparar contra Yuvallin.

Beleg observou rapidamente as estruturas internas e percebeu que os tubos e conexões que serpenteavam pela embarcação eram o verdadeiro sistema circulatório do navio. Não bastava destruir canhões — era preciso cortar o fluxo de energia e munição.

Firmando os pés sobre a estrutura metálica, o arqueiro puxou a corda do arco de aço-rubi.

A tatuagem em suas costas brilhou.

Dessa vez não havia rosto de homem algum.

A imagem inteira da deusa Valkaria surgiu desenhada em luz dourada sobre sua pele — armadura, cabelos ao vento e olhar de quem empurra os mortais rumo ao impossível.

Beleg respirou fundo e pronunciou:

— Valkaria… guia meu olhar para onde a liberdade precisa nascer.

Concentração em Combate.

A flecha partiu.

Ela cruzou o ar e atingiu exatamente uma junção vulnerável do tubo principal. O impacto abriu uma rachadura profunda e fez energia azulada começar a escapar.

Os Vigias do Sangue Puro perceberam imediatamente quem era a maior ameaça.

Bestas dispararam.

Os projéteis acertaram Beleg, mas ele endureceu os músculos, suportando os impactos sem perder posição. Sangue escorreu por seu braço, porém o seteiro permaneceu firme.

Sir Finley tentou aproveitar a abertura e lançou uma chicotada envenenada contra um dos vigias.

Errou.

O chicote estalou no metal.

Gyodai então abandonou qualquer aparência de equilíbrio.

Seu corpo deformou.

Conjurou Transformação de Guerra.

Membros extras surgiram. Músculos se distorceram. Braços aberrantes cresceram enquanto o lefou avançava como uma máquina viva.

Seus golpes começaram a atingir os tubos em sequência.

Cada soco arrancava placas metálicas.

Cada impacto deformava conduítes.

Um dos canais principais explodiu em uma cascata de energia e estilhaços.

Os Kobtas viram Beleg ser alvejado.

Aquilo bastou.

Os cinco pequenos pistoleiros ficaram furiosos.

Dispararam juntos.

Uma sequência brutal de tiros acertou o Vigia do Sangue Puro no peito. O impacto foi tão violento que o corpo foi lançado para fora do navio e desapareceu nas nuvens.

Beleg pegou uma poção e despejou diretamente sobre os ferimentos para continuar lutando.

Sir Finley finalmente encontrou ritmo.

Seu chicote estalou e atingiu um dos tubos restantes.

Uma rachadura se espalhou.

Gyodai então secretou aquele muco viscoso, ácido e fedorento característico da Tormenta e o lançou sobre Beleg.

As feridas começaram a fechar.

Revigorado, o arqueiro voltou à posição.

Enquanto isso, Gyodai despedaçava o restante dos tubos com golpes sucessivos até que o sistema inteiro entrou em colapso.

Kobta correu para a região equatorial e percebeu cristais energéticos alimentando o mecanismo central.

Disparou.

O cristal explodiu.

A explosão detonou outros dois.

Beleg imediatamente entendeu.

Puxou outra flecha.

A tatuagem de Valkaria voltou a iluminar suas costas.

— Onde houver prisão… que o caminho seja aberto.

Disparou.

A flecha atravessou outro cristal.

A reação em cadeia começou.

Explosões sacudiram o casco.

Sir Finley aproveitou e disparou sua bazuca.

A explosão seguinte foi tão grande que partes inteiras do interior da Diligência Dracocérbera começaram a ruir.

Mesmo assim os canhões restantes conseguiram disparar.

Ao longe, o Mariposa foi atingido.

A embarcação estremeceu violentamente.

Kobta recarregou suas armas.

Beleg destruiu os últimos cristais restantes.

Sir Finley avançou sobre outro Vigia do Sangue Puro.

O chicote envolveu o pescoço do purista.

Num puxão brutal arrancou parte da orelha, rompeu o equilíbrio e drenou parte de seu vigor.

Gyodai abriu caminho até o núcleo principal.

Lá dentro o aguardava Vassok.

Veterano.

Arcanista de guerra.

Ele lançou uma orbe azul.

Ela explodiu em fogo.

As chamas envolveram Gyodai.

Mas o lefou já vinha em velocidade absurda.

Golpes.

Sequências.

Múltiplos punhos.

Vassok ergueu Campo de Força.

Gyodai o agarrou mesmo assim.

Vassok pronunciou:

— Que os ventos devorem sua existência! Sopro das Uivantes!

O frio sobrenatural explodiu.

Gyodai desprezou a realidade.

Continuou avançando.

Mesmo queimando.

Mesmo deformado.

Olhou diretamente para o arcanista e sorriu.

— Matei Milla. Você vai seguir o mesmo caminho.

Kobta chegou.

Disparou.

Campo de Força absorveu parte.

Não foi suficiente.

As defesas de Vassok se quebraram.

Sir Finley apareceu por trás.

Seu chicote girou.

Golpe perfeito.

Enrolou no pescoço.

Puxou.

Vassok apagou.

A orbe azul caiu.

Flutuou.

E desapareceu.

Gyodai desfez sua Transformação de Guerra.

Conjurou Salto Dimensional.

Num instante todos retornaram ao Mariposa.

Do convés observaram.

A Diligência Dracocérbera perdeu sustentação.

Primeiro inclinou.

Depois caiu.

A esfera colossal atravessou as nuvens e atingiu o solo com violência inimaginável.

Uma onda de destruição se espalhou.

Puristas morreram.

Máquinas foram esmagadas.

Mas junto deles também havia inocentes.

E enquanto o fogo subia ao horizonte de Yuvallin…

ninguém comemorou.

Porque restava apenas um navio.

E a guerra ainda não havia terminado.


Texto por Roberto Oliveira.

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

Diligência Dracocérbera



Yuvallin permanecia fechada para o mundo.

Desde o ataque purista, Ezequias e toda a população da grande metrópole estavam presos dentro das muralhas. Ninguém entrava. Ninguém saía. Todas as noites, os céus eram cortados pelos navios voadores e a cidade recebia novos bombardeios. O primeiro deles havia caído — o Hidra Helicoide fora destruído — mas ainda restavam dois. A guerra estava longe do fim.

Enquanto reorganizávamos os recursos próximos às linhas avançadas, uma procissão surgiu entre as trincheiras. Eram devotos de Tanna-Toh caminhando lentamente e entoando um cântico antigo que despertava algo difícil de explicar. Não era fé, nem coragem. Era curiosidade. Cada nota parecia acender no coração o desejo de compreender, aprender e descobrir.

As órbitas escarlates de Glomer começaram a emitir um brilho mais intenso.

O osteon ficou imóvel observando os sacerdotes e apertou o Olho Dourado que carregava consigo. Havia algo naquele chamado que parecia falar diretamente com sua essência de inventor e devoto do conhecimento. Depois de alguns instantes, tomou sua decisão.

Disse que precisava seguir os sacerdotes até a Caverna do Saber.

Não abandonaria o grupo. Voltaria.

Mas aquele caminho precisava ser percorrido sozinho.

Desejou sorte aos companheiros e, quando se virou para partir, algo parecido com uma lágrima escorreu por uma de suas órbitas vazias. Prometeu retornar.

Então desapareceu acompanhando a procissão.

Pouco tempo depois, fomos içados novamente para o convés do Mariposa.

Era hora de encontrar o próximo navio purista.

Gyodai foi o primeiro a notar que havia algo escondido entre as nuvens. Não enxergava exatamente uma forma, mas um vazio estranho, uma ausência de céu. Sir Finley então esticou a língua e começou a sentir o vento como se estivesse lendo um mapa invisível. Correntes de ar, turbulências e deslocamentos entregavam a direção daquilo que tentava permanecer oculto.

Beleg fechou os olhos e buscou outro caminho.

Cheiro.

Movimento.

Presença.

Seus sentidos encontraram o rastro.

Sir Finley assumiu o leme e conduziu o Mariposa numa perseguição silenciosa até que, finalmente, o inimigo se revelou.

Uma gigantesca esfera de ferro negro rompeu as nuvens.

Não havia velas. Não havia leme.

Canhões apontavam para todas as direções e criaturas aladas carregavam grandes esferas metálicas como plataformas de ataque. Três dragões negros puxavam toda aquela construção através dos céus, enquanto o casco girava lentamente para reposicionar suas baterias.

Kobta reconheceu imediatamente.

Era a Diligência Dracocérbera.

A estratégia ficou clara quase no mesmo instante: romper as correntes que escravizavam os dragões, destruir o núcleo de comando, silenciar a Bateria Equatorial, sabotar o mecanismo de rotação, destruir tubos e conexões e derrotar o almirante antes que aquela fortaleza voadora transformasse o Mariposa em destroços.

Os dragões atacaram primeiro.

Um sopro de trevas atravessou o convés e engoliu o ar ao redor.

Kobta foi o único que conseguiu escapar completamente.

Gyodai ergueu a mão e conjurou Campo de Força, absorvendo parte da energia escura. Beleg firmou o corpo e resistiu usando toda sua resistência, enquanto Kobta o protegia com seu truque de Escudo da Fé. Sir Finley rolou pelo convés para escapar e novamente recebeu cobertura dos kobolds.

Sem perder tempo, Kobta iniciou o contra-ataque.

Bebeu uma poção de velocidade, em seguida uma poção de orientação e executou sua firula inspiradora. Suas pistolas giraram nas mãos e os disparos seguiram diretamente para as correntes que mantinham os dragões presos.

Um dos dragões respondeu imediatamente.

Conjurou Velocidade e liberou uma aura aterradora.

Sir Finley e Beleg sentiram o peso daquela presença esmagando o peito.

Mesmo assim, Beleg avançou.

Bebeu sua própria poção de velocidade, respirou fundo e ergueu o arco.

Nas costas, a tatuagem brilhou.

O corpo de Valkaria apareceu.

Beleg tensionou a corda e pronunciou:

— Minha deusa… guia meus olhos. Valkaria… guia meu disparo. Que minhas flechas encontrem o ponto onde até gigantes aprendem a cair.

A saraivada começou.

Flechas cruzaram os céus e atingiram repetidamente as correntes.

Os Vigias do Sangue Puro avançaram imediatamente para defender os dragões e concentraram seus ataques contra o arqueiro. Beleg resistiu usando Durão enquanto Kobta desviava parte dos ataques com seu Escudo da Fé.

Sir Finley ergueu sua bazuca e disparou contra as correntes, mas os dragões se moveram rápido demais.

Gyodai então abriu um rasgo na realidade.

Salto Dimensional.

Num instante, ele e seus aliados apareceram sobre a própria esfera.

Logo ao chegar, um Capelão da Esfera de Aço surgiu empunhando um enorme martelo de guerra e atacou o lefou. O primeiro golpe passou em falso porque Gyodai parecia ignorar as regras da realidade, mas o segundo o acertou em cheio. Ainda assim, o feiticeiro absorveu o impacto com Campo de Força.

Enquanto isso, os canhões começaram a disparar contra o Mariposa.

Kobta respondeu.

Mais disparos.

A primeira corrente se rompeu.

O dragão libertado rugiu e imediatamente voltou sua fúria contra a própria Diligência Dracocérbera, cobrindo partes do casco com seu sopro sombrio.

Outro dragão reagiu dissipando a velocidade dos kobolds e acelerando o próprio corpo.

Beleg continuou disparando.

Mais rachaduras.

Mais impacto.

Sir Finley avançou com o chicote, mas errou o movimento das correntes oscilando no ar. Tentou então alcançar com a língua e percebeu algo terrível.

Escudos vivos.

Criaturas não humanoides estavam presas ao redor das estruturas.

Escravos usados como proteção.

Gyodai olhou para aquilo e não hesitou.

Seu corpo se deformou.

Conjurou Punho de Mitral.

Golpes sucessivos atingiram metal e corrente até que outra prisão se rompeu.

O segundo dragão ficou livre.

Por um momento todos imaginaram que ele destruiria o navio.

Mas ele apenas olhou para o Mariposa… e avançou em nossa direção.

Gyodai abriu suas asas de barata e voou diretamente para a última corrente.

Kobta acompanhou.

No caminho, usou Tiro de Sentinela e acertou o Capelão da Esfera de Aço, lançando-o para fora da fortaleza voadora.

Então correu.

Alcançou Gyodai.

Disparou.

A última corrente se partiu.

O terceiro dragão ficou imóvel por alguns segundos.

Olhou para os céus.

Olhou para o caos.

E simplesmente foi embora.

Sem os dragões, a Diligência Dracocérbera perdeu toda sua movimentação.

Mas não caiu.

A gigantesca esfera permaneceu suspensa no ar.

Parada.

Esperando.

E agora, finalmente, estava pronta para ser invadida.



Texto por Roberto Oliveira. 

Revisão por Leandro Carvalho. 

Imagens geradas por IA.